Maurício de Sousa: Navegando nas letras

Maurício de Sousa *

Aprendi a ler numa cartilha diferente.

Chamava-se “O Globo Juvenil”.

Era um jornalzinho, tamanho tabloide (meia folha de jornal comum), que publicava as mais conhecidas histórias em quadrinhos norte-americanas.

Saía três vezes por semana e era disputado no tapa, pela garotada da época, nas poucas bancas de jornal que havia.

Foi publicado, com maior sucesso, no início dos anos 1940, quando eu abria os olhos para as histórias em quadrinhos e para os fascinantes personagens que me desvendavam outros mundos.

Lembro-me, particularmente, das grandes páginas coloridas do Mandrake às voltas com cruéis amazonas.

Sentado no chão, com o Globo Juvenil aberto para facilitar a visualização, ia perguntando para minha mãe o som das letras e das sílabas. Ela, pacientemente, ia me passando.

 

Minha curiosidade era tanta que, em poucos dias, (mesmo com dificuldade), já lia sozinho.

Lia, mas não escrevia, ainda.

E, no meio disso tudo, havia um número incrível de palavras que eu lia (com o som da escrita), mas não entendia o significado.

E lá vinha minha mãe, de novo, para me socorrer.

Às vezes, meu pai.

 

E com essa escalada, fui topando com as engraçadas histórias do L’il Abner (depois Ferdinando); Jim das Selvas, criado pelo genial Alex Raymond, que também revolucionara os quadrinhos com seu antológico Flash Gordon; em páginas duplas centrais vinha a saga do Príncipe Valente, nas ilustrações impecáveis e superpesquisadas do artista Hal Foster; algumas páginas de Disney; as viagens no tempo do Brick Bradford; o Tarzan barroco de Burne Hogarth; o Super-Homem dos primeiros tempos; o Espírito (em tiras) do mestre Will Eisner; histórias de guerra; um mundo de ações e emoções, transmitido pelos maiores desenhistas de quadrinhos da época.

Era minha internet, por onde eu navegava sem medo nem destino, ao sabor da curiosidade e da fantasia.

Os olhos eram o “mouse” e as letrinhas recém assimiladas eram os ícones que me levavam aos programas desejados.

E não faltava a interação: eu saía dessas leituras me fingindo de cavaleiro andante (montado num cabo de vassoura) ou imitando voos com uma capa/toalha amarrada no pescoço.

Mas o melhor dessa viagem foi a “quebra do código” das letras.

Depois que aprendi as senhas para entrar em qualquer sentença, não havia mais fronteiras nem barreiras para meu conhecimento.

Só o limite físico do tempo, que eu tentava transpor lendo, lendo, lendo.

Primeiro nos quadrinhos, depois nos livros, depois revistas e hoje nos “sites” dos computadores.

E vou navegando.

Sempre há tudo para se aprender.

*  Criador da Turma da Mônica, desenhista, cartunista, escritor e empresário

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