“Filosofia de menino”

Este é um livro com ‘sotaque’ nordestino. Que maravilha! A história mira as dores e delícias do crescimento de uma criança encasquetada com perguntas e, claro, procurando pelas respostas.

A Zit Editora está lançando um livro que nos transporta para a cultura nordestina principalmente para um vocabulário da caatinga. A autora Adriana Morgado, que nasceu nos Estados Unidos e mora no Brasil, escreveu a história do menino Muzenza, ressaltando aspectos intrínsecos da nossa cultura. O ilustrador Miguel Carvalho _ que também faz cinema de animação, teatro e circo _ traz para o livro a paisagem de caatinga, açudes, plantações de mandioca. A mãe do nosso personagem é neta de escravos; seu pai, de índios Tapuia. Quanta lindeza nacional!

Neste contexto, cresce Muzenza, um menino esperto e curioso, que já aprendeu com seu avô a perceber as mudanças da natureza nas diferentes estações do ano e que gosta de ouvir as histórias dos mais velhos. De repente, ele parece cismado, com a cabeça longe, calado e muito quieto.

“Andava por um canto assim pensativo, como quem havia encasquetado com ideia que cansa a cabeça, mas não sai. Nem parecia o mesmo menino peralta e falante. Vivia calado. A ideia que lhe atormentava a cabeça nem era daquelas que se divide, que se troca com os outros de sua idade: era ideia de menino só. Por isso mesmo andava pelos lugares como uma sombra pequena e distante.

A mãe já havia percebido o sujeitinho ali, meio perdido em seus pensamentos, ‘falando com o vento’, como diziam os mais velhos. Experiente, ela sabia que este era um daqueles momentos de solidão necessária”.

Falar com o vento? O que é isso? No universo de Muzenza, esse vento é o que os adultos conhecem como filosofia. Aquele vento que invade a infância e que traz, de longe, pensamentos, inquietações e descobertas.

O tempo foi passando e Muzenza parecia ainda não ter dado conta de resolver aquela sua filosofia. Passava horas a falar com os sopros de vento, a cheirar a areia de outros mundos que os ventos da caatinga traziam de longe.”

Mas o que tanto pensava o menino? Que ideia lhe consumia dias e noites? Ao ler o livro, o leitor vai perceber que se trata de uma pergunta que passa pela cabeça de todo menino, toda menina, por que é a essência da vida. E que toda criança deve, sim, pensar e repensar sobre esse tipo de dúvida.

“chegou um dia em que o menino, cansado de cismar, chegou assim de supetão para a mãe e disse, sem ponto, sem vírgula, sem um pedacinho de pausa que a salvasse da pergunta fatal:

_ Escuta, como é que se fornam os bebês?

_ Hã? _ devolveu a mãe, meio zonza.

_ Eu só queria saber como se fornam os bebês!

A mãe respirou. Ele finalmente queria saber sobre os bebês. Afinal, revelara o motivo de tanta conversa com o vento…”

Ao ler essa parte da história, eu pensei tal como a mãe de Muzenza: que ele queria saber como se formam os bebês. Certo? Errado. Lendo mais um pouquinho, eu descobri que o menino queria mesmo saber é como se ‘fornam’…

Mas esse trecho, eu vou guardar. É muito precioso o jeito que a autora narra a história daqui para frente. Vou deixar você, o leitor, saborear palavra a palavra com o livro nas mãos. Garanto que as crianças vão entender tudo e os pais, tenham certeza, ganharam uma forma muito bonita de explicar para os filhos sobre as origens da vida.

O livro tem 40 lindas páginas e custa R$ 32,50.

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