Entrevista exclusiva com Ruth Rocha: “A literatura transpõe as pessoas para o nível da arte”

Ruth Rocha, em parceria com Débora Lorch, lançaram recentemente a série “Quando eu fico bravo” pela Editora Salamandra: “Quando eu fico bravo, eu vou embora”, “Quando eu fico bravo, eu choro”, “Quando eu fico bravo, eu brigo” e “Quando eu fico bravo, eu paro e penso”. Com esses quatro livros, ilustrados por Walter Ono, elas desejam estabelecer um diálogo com as crianças e, através deles, sugerem formas de enfrentamento para cada situação (leia a matéria completa aqui, no blog, http://contaumahistoria.com.br/2019/11/quando-eu-fico-bravo/). Para falar desse lançamento e um pouco mais da trajetória de Ruth Rocha, nesse ano do seu centenário como escritora, propomos uma entrevista e, como é de costume, ela é muito gentil e está sempre disposta para falar com a imprensa. Bom para todos nós.

A escritora Ruth Rocha é referência em literatura infantil. Este ano comemoramos junto com ela os 50 anos que dedicou a essa atividade de forma tão artística, tão correta, tão enriquecedora. Quantas crianças se tornaram leitoras a partir de seus mais de 200 livros publicados e alguns traduzidos para 25 idiomas? Ruth Rocha, com certeza, formou mais de uma geração de leitores. E continuará formando muitas outras.

Sua biografia diz que Palavras, muitas palavras, seu primeiro livro, saiu em 1976. Seu estilo direto, gracioso e coloquial, altamente expressivo e muito libertador, ajudou — juntamente com o trabalho de outros autores — a mudar para sempre a cara da literatura escrita para crianças no Brasil. Os pequenos leitores passaram a ser tratados com respeito e inteligência, sem lições de moral nem chatices de qualquer espécie, numa relação de igual para igual e nunca de cima para baixo. Além disso, em plena ditadura militar, a obra de Ruth ousava respirar liberdade e encorajava o leitor a enxergar a realidade, sem abrir mão da fantasia.

Depois vieram “Marcelo, Marmelo, Martelo”— seu best-seller e um dos maiores sucessos editoriais do país, com mais de 70 edições e 20 milhões de exemplares vendidos  —  em seguida “O reizinho mandão” — incluído na Lista de Honra do prêmio internacional Hans Christian Anderson — depois foi a vez de “Nicolau tinha uma ideia”, “Dois idiotas sentados cada qual no seu barril” e “Uma história de rabos presos”, entre muitos outros. Também assina a tradução de uma centena de títulos infantojuvenis, a adaptação de a “Ilíada” e a “Odisseia”, de Homero, e é co-autora de livros didáticos, como “Pessoinhas”, parceria com Anna Flora, e da coleção “O Homem e a Comunicação”, parceria com Otávio Roth. Defensora dos direitos das crianças, sua versão, também em parceria com Otávio Roth, para a “Declaração Universal dos Direitos Humanos” teve lançamento na sede da Organização das Nações Unidas em Nova York, em 1988.

Recebeu prêmios da Academia Brasileira de Letras, da Associação Paulista dos Críticos de Arte, da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, além do prêmio Santista, da Fundação Bunge, o prêmio de Cultura da Fundação Conrad Wessel, a Comenda da Ordem do Mérito Cultural e oito prêmios Jabuti, da Câmera Brasileira de Letras e foi eleita membro da Academia Paulista de Letras. A menina que um dia decidiu ler todos os livros, hoje, tem várias bibliotecas com seu nome no interior de São Paulo, no Rio de Janeiro e em Brasília.

Principais anseios de Ruth Rocha atualmente: “Gostaria de pensar num futuro otimista quando as pessoas lessem mais, estudassem mais e pensassem melhor. E gostaria que o nosso governo cuidasse melhor da educação” – Fotos: Divulgação

 

Rosa Maria: Qual foi a maior motivação para você e Dora Lorch escreverem a série “Quando eu fico bravo”?

Ruth Rocha: Vendo o sofrimento das crianças quando elas se irritam, tivemos a ideia de fazer uma obra com a intenção de aliviar esse sofrimento.

RM: O que destaca na série?

RR: A série se caracteriza por dar o encaminhamento para a resolução dos problemas. Numa página o sofrimento, virando a página, encontramos o alívio.

RM: A criança está vivendo bem nesse mundo que nem nós, adultos, estamos conseguindo enfrentar?

RR: É claro que não. A criança é a vítima mais frágil dos nossos problemas contemporâneos.

RM: Neste contexto, qual é o papel da literatura?

RR: A literatura abre caminhos, faz perguntas, estimula o pensamento, transpõe as pessoas para o nível da arte.

RM: Como pais e educadores devem orientar a leitura infantil?

RR: Em primeiro lugar os pais e orientadores devem ler os livros e selecionar aqueles que lhes parecem mais interessantes, mais engraçados, mais úteis.

RM: O que acha da criança convivendo, usando e gostando tanto dos celulares e tablets?

RR: Acho que celulares e tablets são instrumentos incríveis, mas se os jovens perdem muito tempo com eles, deixam de fazer outras coisas importantes. Primeira: conviver com amigos em carne e osso; segundo: ler; terceiro: praticar atividades físicas e, de preferência, ao ar livre.

Na opinião da escritora, “a criança é a vítima mais frágil dos nossos problemas contemporâneos”

 

RM: 2019 vem sendo um ano intenso, acredito, pelo fato comemorar 50 anos como escritora. Como é viver uma carreira tão longeva e de tanto sucesso?

RR: É ótimo. Me sinto contente, realizada, gosto das entrevistas, gosto dos leitores e dos encontros com eles. As pessoas que me interpelam na rua são o povo do livro, portanto, só gente boa!

RM: Com era e como está a literatura infantil? O que mudou nesses 50 anos?

RR: Acho que não mudou muito. Pelo menos a minha literatura não mudou. O meu livro “Marcelo, marmelo, martelo”, que tem 50 anos ainda é meu livro mais procurado.

RM: Quais os caminhos que essa atividade deve percorrer daqui pra frente?

RR: Gostaria de pensar num futuro otimista quando as pessoas lessem mais, estudassem mais e pensassem melhor. E gostaria que o nosso governo cuidasse melhor da educação.

 

 

 

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