O ‘Melhor Livro’ infantil e juvenil

Aqui estão os vencedores do Prêmio Jabuti considerado o “Oscar” da literatura brasileira.

O Melhor Livro Infantil de 2019 é “A avó amarela”, de autoria da mineira Júlia Medeiros (foto), ilustrado por Elisa Carareto, lançamento da ÔZé Editora – Foto: Facebook JM

 A produção brasileira de livros para crianças e jovens é uma das melhores do mundo. Os lançamentos são constantemente avaliados, de diferentes formas, pelas instituições dedicadas à literatura infantil e rendem para autores, ilustradores, editoras selos de recomendação e prêmios durante todo o ano. O “Jabuti”, do qual falamos nesta matéria, consolidou-se ao longo de suas edições e consagrou-se como o “Oscar” da literatura brasileira e por isso é ansiosamente aguardado pelo mercado.

Esse prêmio é promovido e coordenado pela Câmara Brasileira do Livro (CBL) que acaba de divulgar os vencedores de 2019 referentes à 61ª edição. Não é nada fácil chegar ao pódio, tendo em vista o volume de inscrições e de categorias. Em 2019, o Prêmio Jabuti recebeu 2.103 inscrições, número 11% maior do que o registrado no ano passado. Das 19 categorias, o blog destaca os vencedores em três delas, por se tratar do eixo da literatura infantil e juvenil: Melhor Livro Infantil, Melhor Ilustração e Melhor Livro Juvenil.

Os demais vencedores, pode ser pesquisado no link https://www.premiojabuti.com.br/

Melhor Livro Infantil

O título vencedor foi “A avó amarela”, de autoria da mineira Júlia Medeiros e ilustrado por Elisa Carareto, lançamento da ÔZé Editora. Esse livro também já foi laureado com sua inclusão no Catálogo 2019 da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) produzido com o melhor do Brasil para circular na principal feira de Literatura Infantil e Juvenil do mundo, que é realizada em de Bologna, Prêmio FNLIJ 2019 – Autora revelação; Prêmio FNLIJ 2019 – Ilustradora revelação; Selo Altamente Recomendável – Categoria Criança – FNLIJ 2019.

 “Este livro não é sobre a Avó Azul (embora ela também dormisse sem boca).

Ele também não é sobre a sua avó (porque eu nem sei qual é a cor dela).

Ele é sobre a minha Avó Amarela (de quem, às vezes, fico roxa de saudade)”.

“Avó Amarela vestia sua boca depois de tomar o café. Depois de levar flores ao filho Preto e Branco o resto do caminho era feito de saudade e lágrima. Pro almoço de domingo, os Filhos Coloridos traziam os netos. Todos comiam, mas a Avó Amarela era sempre a última a sentar-se à mesa e não almoçava. O domingo se arrastava pelo dia. Os filhos se revezavam entre cochilos e rodadas de buraco, comandadas pelo avô. A avó separava quitutes pra toda família levar pra casa e, dessa maneira, todos podiam visitá-la em cada mordida. Uma avó que cozinhava bilhetes.”

Melhor Ilustração e Melhor Livro Juvenil

É raro, mas acontece: o mesmo autor ou ilustrador receber dois Jabutis numa mesma edição. Este ano foi a vez de Lúcia Hiratsuka ser duplamente premiada: com a Ilustração de “Chão de peixes”, lançamento da Editora Pequena Zahar e como autora do juvenil “Histórias guardadas pelo rio”, que também foi ilustrado por ela, lançamento da Edições SM.

“Chão de peixes” é um trabalho “inspirado nos haicais japoneses, onde Lúcia Hiratsuka pesca sons, imagens e sensações guardados bem lá no fundo da memória e, com a naturalidade e a delicadeza das pinceladas em tinta sumiê, faz surgir a poesia que está na simplicidade do cotidiano.

Em “Chão de peixes” ela nos convida a dar um novo sentido para a natureza que nos cerca. Entremeadas aos saltos do grilo no quintal, aos passos das formigas andando em fila, palavras sumiram, outras surgiram e se misturaram aos riscos e rabiscos do capim. Riscos que formam peixes, o chão que vira mar, lagartixa que vira lua e até o tempo se torna outro…

“Histórias guardadas pelo rio” é um diálogo com os jovens através do personagem criado por Lúcia Hiratsuka. “Por mais que tente, Pedro não consegue pescar histórias no rio. E essa é uma prática comum em sua cidade: dos pescadores que as pescam e as negociam, aos moradores de variadas idades que as recolhem das águas e depois as trocam, as presenteiam, as colecionam, bordam nas linha por linha… Inconformado com o fato de não conseguir pescá-las, o jovem empreenderá uma busca sobre o segredo dessa arte de pesca, cuja resposta está guardada nas águas do rio.

A consagrada Lúcia Hiratsuka, vencedora de duas categorias do Jabuti deste ano, é paulista de Duartina, formada em Artes Plásticas e trabalha com ilustrações de livros infantojuvenis há mais quinze anos. Ela frequentou a Universidade de Educação de Fukuoka no Japão, é especialista em diversas técnicas japonesas especialmente o Sumiê. O site “Lugar de Ler” https://www.lugardeler.com/lucia-hiratsuka produziu uma biografia da autora/ilustradora bem completa, que reproduzimos abaixo:

Desde pequena, Lúcia Hiratsuka está cercada por poesia: nasceu em um sítio, no interior de São Paulo, chamado Asahi, que em japonês significa “sol da manhã”. Lá, cresceu em meio à natureza e aos livros, que vinham do Japão, incluindo os ehons, que são livros ilustrados. Mais que isso, havia ainda as histórias da avó, contadas a partir das lembranças de sua infância vivida em uma região rural do Japão.

Essas memórias inspiraram Lúcia a escrever e ilustrar o delicado Orie (Ed. Pequena Zahar), que ganhou o prêmio de Livro para a Criança, FNLIJ 2015. Chão de Peixes (Ed. Pequena Zahar), seu mais recente lançamento, criado a partir de haicais, também vem de memórias da infância, só que, dessa vez, da própria Lúcia: “Quando era bem pequena, minha avó rabiscou um peixinho no chão do nosso quintal de terra. Gostei tanto que desenhei também e nunca mais parei”, conta em seu site www.luciahiratsuka.com.br.

Seguiu para a cidade de São Paulo para estudar na Faculdade de Belas Artes. “Mas foi quando conheci os trabalhos de Eva Furnari, Ciça Fittipaldi, Angela Lago e Ricardo Azevedo que encontrei o caminho da ilustração”, diz. Essa descoberta a levou para a Universidade de Educação de Fukuoka para aprender sobre a arte do ehon.

A Melhor Ilustração de 2019 é do livro infantil “Chão de Peixes”, de Lúcia Hiratsuka, vencedora também do Melhor Livro Juvenil “Histórias guardadas pelo rio” – Foto: Divulgação

Para chegar a 23 livros publicados, escritos e ilustrados por ela, houve ainda um importante aprendizado em oficinas de escrita. “Eu nunca tive muita facilidade em criar histórias. Iniciar um texto e me perder no meio era constante. Ao participar das oficinas, fui percebendo o que poderia me ajudar na construção de uma história, ou como explorar melhor uma ideia simples”, diz.

Uma ideia simples que poderia nascer de algum relato ou de uma cena guardada na memória, e que fica dentro de Lúcia até o dia em que ela percebe que está na hora de construir a história. “Isso implica entrar em contato com as emoções das personagens, explorar as cenas, desenrolar e desenroscar fios… e enxugar muito. E quando entram as imagens, por mais que eu já tenha cortado o texto inicial, vejo que ainda posso tirar frases, mudar e acrescentar pausas. As histórias vão se revelando nesse processo”, diz.

Para Lúcia, é como se estivesse dirigindo um filme: no lugar de atores, há os personagens, e no lugar de equipamentos, há apenas lápis e papel.

Nas oficinas literárias, ela escreveu muitas crônicas e contos para adultos. “Nunca deixei de atuar no campo da literatura infantojuvenil e dos livros ilustrados, mas alguns dos meus títulos, como Histórias tecidas em seda, Os livros de Sayuri, Orie e Chão de peixes, são lidos também por adultos”. A partir desse percurso, decidiu também dar oficinas para compartilhar o que aprendeu. “A troca é sempre rica. “A arte da montagem de um livro é fascinante”, diz Lúcia, sempre inspirada.

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