A importância da literatura infantil

Ilustrações: Toninho Hashitomi

Ilustrações: Toninho Hashitomi

Em 2018, vamos continuar trabalhando pela literatura infantil, um segmento precioso para formação de cidadãos do bem e da verdade. Um leitor é formado na infância. Aliás, a infância é a base de toda a construção (ou desconstrução) dos futuros adultos e, acredito, ninguém duvida da contribuição dos livros na formação das pessoas que desejamos ver impulsionando o mundo.

No entanto, é preciso saber que para chegar às mãos dos pequenos leitores, o livro infantil percorre uma cadeia produtiva com várias etapas, que começa com uma criteriosa seleção de originais e produção dentro das editoras. Do lado de fora, é impulsionada por ações como as políticas de aquisição e circulação do livro do Ministério da Educação (MEC), o Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL), os selos de recomendação da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ), eventos literários, premiações, editais, concursos literários, entre os principais.

A literatura infantil se movimenta basicamente assim, no Brasil. O blog Conta uma História, desde 2011, vem informando e destacando essa movimentação. Nosso país, cada vez mais, anseia por cidadãos bem construídos, daqueles bem ao estilo recomendado por Vargas Llosa: “um público comprometido com a leitura é crítico, rebelde, inquieto, pouco manipulável e não crê em lemas que, alguns, fazem passar por ideias.”

Portanto, para encontrarmos as tais pessoas dignas de pertencerem a esse público, precisamos dar a devida importância à literatura infantil e conquistar número crescente de crianças de posse de bons livros.

Menina com a Fada Madrinha - CópiaA 4ª Edição da Pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizada pelo Instituto Pró-Livro e Ibope Inteligência, com dados de 2015, destaca que apenas um em cada 4 brasileiros domina plenamente as habilidades de leitura, escrita e matemática.

“Os resultados da pesquisa reforçam a análise de que o hábito de leitura é uma construção que vem da infância, bastante influenciada por terceiros, especialmente por mães e pais, uma vez que os leitores, ao mesmo tempo em que tiveram mais experiências com a leitura na infância pela mediação de outras pessoas, também promovem essa experiência às crianças com as quais se relacionam em maior medida que os não leitores”.

Ainda segundo as considerações da pesquisa, “apenas um terço dos brasileiros teve influência de alguém na formação do seu gosto pela leitura, sendo que a mãe ou responsável do sexo feminino e o professor foram as influências mais citadas. E a pesquisa indica que essa influência tem impacto no fato do indivíduo ser ou não leitor, uma vez que, enquanto 83% dos não leitores não receberam a influência de ninguém, o mesmo ocorre com 55% dos leitores. No entanto, a pesquisa também indica que o potencial de influenciar o hábito de leitura dos filhos está correlacionado à escolaridade dos pais – filhos de pais analfabetos e sem escolaridade tendem menos a ser leitores que filhos de pais com alguma escolaridade.”

“Da mesma forma, enquanto 57% dos leitores viam suas mães ou responsáveis do sexo feminino lendo sempre ou às vezes, 64% dos não leitores nunca viam essas figuras referenciais lendo (embora com diferentes proporções, o mesmo se dá em relação à figura do pai ou responsável do sexo masculino.)”

Em 2015, semelhante ao observado nas edições anteriores da pesquisa, “pouco menos de um terço dos brasileiros declara que gostam muito de ler. Ao contrário, pouco menos de um quarto não gostam. A proporção de leitores que gostam muito de ler é significativamente maior que a proporção de não leitores, grupo composto por 43% de indivíduos que não gostam de ler.”

“Gostar muito de ler é mais característico das crianças menores (mesma proporção encontrada para ‘gostar um pouco’, sendo que os adolescentes e adultos declaram em maior proporção que gostam um pouco de ler, indicando uma mudança importante na relação com a leitura a partir do ingresso no Ensino Fundamental II. No entanto, entre os indivíduos que atingiram escolaridade superior, a proporção dos que gostam muito de ler ultrapassa a metade desse grupo. Da mesma forma, quanto mais alta a renda, maior a proporção dos que declaram que gostam muito de ler, em relação aos que gostam um pouco ou não gostam.”

Onde achar os livros?

Nas livrarias, naturalmente.

Mas esse não é o local onde o leitor brasileiro busca pelos livros. “Cerca de metade dos entrevistados indicaram o empréstimo, seja com parentes ou conhecidos, seja em bibliotecas ou outros locais, como principal meio de acesso ao livro”, segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil. O segundo meio de acesso mais citado na pesquisa, sim, foi a compra seja em lojas _ física ou virtual.

  • 30% dos entrevistados afirmaram nunca terem comprado um livro;
  • Tema é o aspecto que mais influencia quem compra livros no momento da escolha do livro que irá comprar;
  • Em geral, quanto maior a escolaridade e a classe, maior a proporção de compradores de livros. No entanto, chama atenção que cerca de metade dos estudantes e metade dos leitores não são compradores de livros.
  • A principal ideia associada com a leitura na percepção dos brasileiros é a de que a “leitura traz conhecimento”. Já representações negativas da leitura, como ocupar muito tempo, ser cansativa e obrigatória são mencionadas em proporções significativamente inferiores do que as representações positivas.

Deste espaço, vamos continuar sinalizando para o mercado, para os pais e educadores, onde estão os bons livros infantis que precisam chegar às escolas e nas mãos das crianças; informar sobre o que acontece na literatura infantil e apontar as melhores alternativas para que, cada vez mais, cresça o número de crianças leitoras, dos futuros cidadãos capazes de tornar o Brasil e o mundo melhor de se viver.

“Harry Potter: O livro das varinhas”

Com a chegada do novo ano, seria o caso de apelar para a magia e assim conseguir realizar todos os sonhos que ficaram travados em 2017? O que será que nos aconselha o livro que a Editora Record está lançando?

filmes-harrypotter-02-1

Varinhas são a ferramenta mais importante do mundo bruxo, possibilitando que bruxos e bruxas consigam canalizar sua mágica. Cada varinha é tão singular quanto o bruxo que a empunha: seja ela em formato de presa, como a de Lorde Voldemort, ou elegantemente esculpida, como a de Hermione Granger, cada uma das varinhas foi planejada e construída pela equipe dos filmes para ser o reflexo da identidade de seu dono.

A Galera Record, em parceria com a Insight Editions e a Warner Bros. Consumer Products, lança “Harry Potter: O livro das varinhas”, o único guia completo das varinhas mágicas dos filmes de Harry Potter e dos personagens que as empunharam. O livro inclui fascinantes detalhes de bastidores contados pelos fabricantes de varinhas da vida real – os artistas conceituais e artesãos que as criaram – e mais perfis detalhados de cada varinha, com direito a fotografias, estatísticas e outros segredos cinematográficos do arquivo da Warner.

harry-potter-wizarding-world-weekly

Esta edição tem 154 páginas, custa R$ 109,90 e está voltada para colecionadores. Permite que os fãs mergulhem na criação e na história por trás destes acessórios tão queridos, além de entrar um pouquinho mais no universo mágico de Harry Potter.

A autora Monique Peterson é escritora e produtora de livros, filmes e mídia audiovisual em geral com foco em cinema, arte, história, esportes e cultura pop para a Walt Disney Company, National Geographic, Discovery Channel e as editoras Random House e Scholastic, entre uma série de outras empresas. Ela atualmente escreve um romance para jovens adultos.

essa

“Brasil: Almanaque da Cultura Popular”

D_Q_NP_775808-MLB25750550367_072017-QLembra daquele Almanaque da TAM, que durante alguns anos foi distribuído durante os voos da companhia? Ele está de volta e atualizado. O periódico que fez história ao divulgar a cultura popular brasileira toma a forma de um novo livro que retrata a alma nacional.

 

O livro “Brasil: Almanaque de Cultura Popular” (Editora Andreato, 312 páginas) é uma seleção do que melhor se publicou na revista Almanaque Brasil durante 15 anos, entre 1999 e 2014. Ao longo desse período, a equipe liderada por Elifas Andreato foi responsável pela elaboração de milhares de artigos sobre a cultura brasileira, constituindo um acervo inestimável da nossa memória. page_1_thumb_large 2

Em textos leves e saborosos, a diversidade do país ganha contornos originais. Ilustres brasileiros juntam-se a desconhecidos notáveis, a ciência divide espaço com a cultura popular, personagens do Brasil de ontem encontram-se com os do Brasil de hoje. História, causos, esportes, design, política e artes se misturam e se completam.

Esta imensa força da cultura brasileira, segundo o idealizador do livro Elifas Andreato, “tem enfrentado incansavelmente o retrocesso das políticas culturais dos últimos anos, com a grande mídia priorizando entretenimento de qualidade duvidosa, fechando espaços para a boa história brasileira e seus exemplos de conquistas e saber popular”. Como uma ferramenta cultural rebelde e otimista, um “vulgarizador da memória nacional”, como lembra Elifas no prefácio, o Almanaque Brasil mirou desde sua criação as escolas, sempre reforçando para crianças e adolescentes que “o melhor do Brasil é o brasileiro” (Câmara Cascudo).

brasil-almanaque-de-cultura-popular-todo-dia-e-dia-D_NQ_NP_327511-MLB20595616418_022016-F

Tal qual um calendário válido para qualquer ano e composto apenas de datas marcantes, as brasilidades espalham-se de janeiro a dezembro. Não há como folhear o livro “Brasil: Almanaque de Cultura Popular” sem se surpreender com as histórias desse país que só cabem mesmo nas páginas de um almanaque. Segundo o escritor e educador Rubem Alves, “almanaques me levam para a infância na roça, casa de pau-a-pique, fogão de lenha, casinha do lado de fora. Dizem que o povo não gosta de ler. O Almanaque Brasil contesta”. Para o cantor e compositor Gilberto Gil, ex-ministro da Cultura, o Almanaque representa uma possibilidade de novos olhares para a sociedade e a cultura brasileiras”. E o ator Antônio Fagundes declara: “É um prazer redescobrir nossa boa história nas páginas do Almanaque Brasil. São surpresas em cada página”.

Foram 180 edições repletas de histórias sobre o Brasil e os brasileiros, misturando esporte com ciência, personagens com história, educação com sabedoria popular, abrindo espaço para que a arte de um sapateiro do sertão tenha o mesmo valor que os mais famosos designers, assim como a literatura e as artes tenham a mesma importância que os causos do povo. Na sessão Papo-Cabeça, por exemplo, cerca de 200 personalidades mostraram do que a nação é capaz, de Fernanda Montenegro a Ariano Suassuna, de Pelé a Chico Buarque, entre eles historiadores, grafiteiros, educadores, rappers, cientistas…

brasil-almanaque-de-cultura-popular-todo-dia-e-dia-D_NQ_NP_360401-MLB20319418848_062015-F

O formato da publicação reverencia os antigos alfarrábios que fizeram parte da memória nacional, principalmente no interior do país, durante os séculos 19 e 20. Eles reuniam cartas enigmáticas, tabelas, informações breves, efemérides. As principais características dos antigos almanaques continuam mantidas: a diversidade de temas e a leveza da abordagem. Com textos breves, dinâmicos, pequenos quadros, brincadeiras e jogos, retrata-se a alma nacional, revelando o Brasil aos brasileiros e os brasileiros ao Brasil.

Elifas Andreato é artista gráfico e jornalista, idealizador e diretor editorial da revista “Almanaque Brasil”. Foi um dos criadores da revista “Placar” e da coleção “História da Música Popular Brasileira”, além dos semanários “Opinião, Movimento” e da revista “Argumento”, fundamentais no combate à ditadura militar. Nos anos 1970, iniciou o trabalho de programação visual para peças teatrais e passou
 a criar capas para os discos dos 
mais importantes nomes da MPB, tornando-se rapidamente o mais respeitado profissional da área. Foi, também, cenógrafo e diretor artístico de diversos espetáculos musicais, diretor
 e cenógrafo de programas televisivos e criador de inúmeros projetos culturais. Em 2011, pelo conjunto da obra, recebeu o Prêmio Especial Vladimir Herzog, destinado a personalidades que se destacam na defesa de valores éticos e democráticos e na luta pelos direitos humanos. O reconhecimento, assim como a comenda da Ordem do Mérito Cultural, concedida em 2009, junta-se a diversos prêmios que recebeu ao longo da carreira pela contribuição ao País.

À venda no site: www.almanaquebrasil.com.br Preço: R$ 49,90

ViewImage.aspx

Clube Adoletra

Em São Paulo, surge mais um clube de leitura voltado para as crianças: o Adoletra. O clube adota alguns diferenciais em relação aos clubes da moda.

 

Blog_5dicas_pequenoResponsável pelo Clube Adoletra (www.clubeadoletra.com.br e www.clubeadoletra.com.br/blog), Fernando Morato comenta sobre os principais diferenciais desse clube:

– Permitimos mais de um leitor na mesma assinatura, mesmo com perfis diferentes;

– Permitimos a escolha da obra a ser recebida (dentro de uma lista pré-selecionada pelo clube);

– Os membros do clube podem enviar sugestões de envio à curadoria;

– Buscamos parcerias com livrarias para que ofereçam descontos aos membros do clube, pois queremos fomentar à ida dos leitores e de suas famílias às livrarias.

As opções de assinatura são para um livro por mês (R$ 39,90), dois livros por mês (R$ 59,90) e quatro livros por mês (R$119,90).

Blog_kit_grandeOutra característica do clube está no fato de incentivar as crianças a interagir com o livro, a gostar de frequentar livrarias, ouvir e criar histórias. “Assim teremos uma rede muito maior e efetiva de incentivo à leitura do que apenas dependermos daqueles lindos livros que chegam em nossas casas todo mês”, afirma Fernando.

“Para que possamos viabilizar as escolhas das obras e abranger o máximo de perfis no clube, nós consideramos pelo menos dois fatores. O primeiro é a idade do pequeno ou jovem leitor. Esse fator é importante para traçarmos um paralelo entre esse e o segundo fator, o momento de interação do leitor com a obra. A idade é um balizador, mas não um fator de decisão, o mais importante é o perfil leitor, pois somente os que estão próximos à criança ou jovem, sabem seu real nível de proficiência em leitura”, explica.

O Adoletra abrange leituras para as seguintes idades:

Logo_Adoletra_ursoBebê
Quem foi que disse que bebê não lê? Lê sim.

“Bom, isso vai depender do que consideramos sobre “ler”. Para além do significado da palavra, ler, na nossa concepção, pode ser considerado “interagir” com a proposta da obra. E interagir é uma mistura de proposta do autor na concepção da obra com a recepção do leitor no seu momento de interação com a mesma. Logo, bebês vão: abrir, morder, babar, passar a mão, sentir as páginas, jogas no chão, jogar em você, no cachorro, dar risada, chorar, e outras tantas reações que nem conseguimos mencionar num único post! Ah, e tem uma outra bem importante: ouvir.Ouvir uma história. Experimentar as sensações que o livro proporciona.

Geralmente essa fase vai até os 2 ou 3 anos, dependendo do desenvolvimento social, moral e afetivo da criança.

Para ler junto

Nessa categoria específica, o clube inclui principalmente de criança entre 4 a 6 anos de idade. Não necessariamente nessa idade, mas que ainda solicitam a presença de um dos pais ou mediador para a exploração da obra literária. Nessa fase, assim como na dos bebês, é importante o comprometimento do mediador no estimulo às possibilidades de exploração. Mas as obras já possuem uma complexidade regular, geralmente, com grande presença de livros ilustrados, que ajudam não somente na compreensão da história em sim, mas no desenvolvimento do senso de interpretação de cada leitor.

“Você verá que cada leitor pode chegar a uma conclusão diferente de uma mesma história ou até mesmo a várias conclusões, uma para cada vez que a história foi lida. Aliás, não leia apenas uma vez, é bem provável que seu pequeno ou pequena leitora peça para que você as leia repetidas vezes. Por isso, não deixe de fazê-lo”, sugere Fernando Morato.

Pequeno leitor

Lembre-se pequeno, de estatura e idade, nunca de importância! As crianças já são leitores no momento em que interagem com um livro mesmo os bebês. Nessa fase, estamos falando geralmente de crianças entre 7 e 11 anos. São leitores que já possuem autonomia de leitura, mesmo que ainda enfrentem alguns desafios na compreensão ou na exploração do livro. Exploram-se temas de complexidade mais elevada e não necessariamente ilustradas.

iconeparaquedasO mercado editorial tem focado bastante nessa e na próxima fase do leitor principalmente com séries mais comerciais e com apelo popular real. Incluem-se aí series baseadas em jogos eletrônicos, redes sociais, entre outros. Mas existem inúmeras outras de qualidade que podem ser exploradas. O pequeno leitor, dependendo do seu nível de interação, já consegue definir o que gosta e o que não gosta de ler.

Jovem leitor

O jovem leitor ou leitora já está em um nível de capacidade de entendimento das obras mais elevado. Além disso, estão passando por uma fase importante de transformação, não apenas física, como social e psicológica. São leitores independentes e que escolhem seus livros por uma identificação pessoal, seja por seu momento de vida, ou por seu perfil leitor.

“Como sabemos qual perfil é valido para cada leitor? Você é quem nos diz. No momento da realização da assinatura, você vai inserir essas informações do perfil de cada leitor, juntamente com suas informações pessoais de cadastro e entrega e nós vamos trabalhar todos os dias para fazer com que essa relação do seu leitor com a obra enviada seja sempre um passo a mais no caminho do amor pela leitura. Lembre-se que é importante ficar atento à relação do leitor com a leitura, só assim você poderá saber o nível de proficiência do pequeno ou jovem leitor. Também é possível trocar o nível de proficiência na área de assinantes, sempre que necessário. Mas isso deve ser feito sempre antes do dia 10 de cada mês, quando fechamos a lista de envio”, conclui Fernando Morato.

Conto “A promessa de Natal”

De Howard D. Fencl

tree-960117_960_720Vi um caminhão cheio de árvores de Natal e cada uma tinha uma história para contar. O motorista colocou-as em fila e ficou à espera que as pessoas as viessem comprar. Pendurou umas luzinhas brilhantes e uma placa em que se podia ler em encarnado: Árvores de Natal para vender.

Quando o homem se servia de chocolate quente duma garrafa térmica fumegante, uma mãe, um pai e um menino pararam o carro apressados e começaram a procurar a árvore mais bonita de todas.

O rapazinho ia à frente e com um olhar reluzente exclamou:

– Elas têm cheiro de Natal, mãe! Sinto o cheiro de Natal em todo lado. Vamos comprar uma árvore de quilômetros de altura. A maior que pudermos encontrar. Uma árvore que chegue ao teto e nem dê para carregar. Uma árvore tão grande que até mesmo o Pai Natal, quando olhar, se admire e diga: “Esta é a árvore mais bela que já vi neste Natal!”

Para achar o pinheirinho perfeito procuraram com muito cuidado. Aqui e ali, e até mais de uma vez, o pai examinou e balançou mais de seis.

– Mãe, mãe, encontrei, encontrei, o pinheirinho do que mais gostei! Tem um raminho partido, mas pode ficar disfarçado. Do anjinho da avó tiraremos o pó e lá no alto ficará a guardar-nos.

– Podemos comprá-la? Por favor, por favor! – Pediu com fervor.

– Que tal um chocolate quente? – Perguntou o vendedor indulgente, enquanto abria o termo para aquela gente.

– Isto sim vai aquecer o ambiente! E em três pequenos copos de papel serviu o chocolate quente. Brindavam, esperançosos, a mais um feliz Natal.

– Escolheste muito bem. Esto é realmente o melhor pinheirinho. Feliz Natal – disse o homem, amarrando o pinheiro com um cordão! Mas o rapazinho estava triste, porque o preço era alto demais para o que o pai podia pagar.

untitledFoi, então, que o vendedor lhe fez uma proposta:

– A árvore é tua com uma condição: tens de manter uma promessa. Na noite de Natal, quando fores deitar e rezar promete guardar no teu coraçãozinho o encanto do Dia de Natal! E agora corre para casa, senão este vento gelado as tuas bochechas vai queimar.

E assim foi, com o vento zunindo, durante toda a noite gelada. O bom homem ofereceu árvore, após árvore, após árvore. Com cada pessoa que apareceu brindou com o chocolate quente. E quem jurou manter a promessa de guardar no coração o encanto do Natal, saiu na noite contente, cantando canções alegremente.

Quando tudo acabou só uma árvore restou. Mas ninguém estava lá para esta árvore adotar. Então, o homem vestiu o seu grosso casacão e partiu para a floresta com a última árvore da festa. Deixou o pinheirinho perto de um pequeno riachinho, para que as criaturas sem casa pudessem fazer dela a sua morada. E sorria, enquanto tirava os flocos de neve que na sua barba encontrava.

Foi então que por detrás de um arbusto uma rena quase lhe pregou um susto. Olhou para ela e sorriu. Fazendo uma festinha na grande criatura, pensou com brandura: “Parece que o Natal chegou novamente! Ainda temos muito chão e muitas coisas para fazer! Vamos para casa, amiga, trabalhar neste Natal que vai começar”.

Olhou para o céu, ouviu os sinos a tocar e, num pestanejar, já lá não estava o vendedor.

Adaptado do conto de Howard D. Fencl de The Last Christmas Tree, 1992 – Site: Fábulas e Contos

“Bruna, a tagarela”

untitled ppQualquer criança ao ler esse livro, vai se identificar de alguma forma: por gostar muito de falar ou, ao contrário, gostar mais de ouvir; por ter experimentado crítica ou por ser muito aplaudida ao superar essa crítica.

 

A Editora do Brasil lança “Bruna, a tagarela”, escrito pela mineira Mailza de Fátima Barbosa e ilustrado pela paranaense Paula Kranz, que o blog curtiu muito ler e, aqui, apresenta para o leitor com a recomendação de que vale a pena colocá-lo na lista de presentes de Natal.

untitled

A menina Bruna Letícia assume que gosta muito de falar:

“Falo sobre tudo, qualquer assunto. Se acabo de conhecer alguém, procuro logo uma história para contar. Se me fazem uma pergunta, respondo sem vacilar, entro logo no assunto e disparo palavras no ar”.

Já imaginou alguém assim? Em casa, Bruna Letícia até se dava bem com sua tagarelice.

“Contava história pro meu pai, depois pra minha mãe, falava com minha irmã e falava e falava…”

“Quando meu primo me visitava, nós fazíamos da sala um estúdio de TV e eu era a entrevistada”…

“Depois de falar com todos na minha casa, eu ainda falava com meu cãozinho ou falava sozinha, sem problema nenhum”…

bruna_tagarela1

Mas e na escola? Bruna falava muito também até que um dia alguém disse:

“Deixa a gente falar, Bruna tagarela”!

A menina se assustou com a palavra, que ela passou a ouvir sempre. Sentiu que os amigos não queriam mais ouvi-la falar.

“Comecei a ficar no meu cantinho, quieta, sozinha, sem falar muito pra não chatear ninguém”.

Inteligente, Bruna conseguiu sair dessa. Certo dia, a solução para esse problema chegou para ela. Não vou contar aqui. Mas ao ler o livro, certamente, você vai se surpreender com o que aconteceu com Bruna que, inclusive, foi muito aplaudida. História de final feliz.

bruna_tagarela2

A autora Mailza explica que o livro ataca um dos problemas mais combatidos atualmente na escola e na sociedade: o bullying, que transforma muitas crianças em vítimas da hostilidade dos colegas. No caso de Bruna, por falar demais. De extrovertida, a menina se tornou isolada e passou a ficar calada na escola até descobrir um lugar para manifestar suas expressões naturalmente e se livrar do apelido que os colegas lhe deram: tagarela!

“Minha intenção é poder contribuir com profissionais da Educação com uma ferramenta para auxiliá-los na abordagem do tema, bem como mostrar à criança uma maneira de usar seus dons”, explica a escritora. “Precisamos entender a importância do respeito nas relações. Quando respeito ou sou respeitado mantenho boas relações e isto torna o mundo melhor”, conclui.

2381

O livro tem 24 páginas, custa R$ 33,20 no site http://www.editoradobrasil.com.br/. Também pode ser comprado nas livrarias em geral.

“Uma história dentro da outra e Lendas do rio Doce”

untitled ppHoje, apresentamos mais um livro que vale como referência como um bom presente de Natal. O lançamento é da Zit Editora.

 

 

A baía do Rio Doce — território que cruza parte de Minas Gerais e do Espírito Santo — foi palco, em 2015, do maior desastre ambiental do Brasil. Mas não foi só a vida fluvial, a fauna e a flora ao redor que sofreram as consequências terríveis da tragédia. As lendas e causos reunidas neste novo livro da Zit Editora dão mostras de como é forte a cultura popular erigida ao redor do Rio Doce, e de como é importante preservá-la.

Munida de um texto saboroso e cheio de lirismo, Geny Vilas-Novas conta histórias como a do filho do caçador, que ficava sob os cuidados de um cão enquanto o pai saía para caçar; do Capeta que se transforma num gato preto para desmantelar a vida de um casal feliz; ou do menino que caiu dentro do rio e que o pai transformou num peixe enorme de escamas douradas. Entremeadas a essas lendas, as histórias da meninice no sítio. Uma viagem que fica ainda mais atraente com as ilustrações de Flávio Colin, craque do desenho que nos deixou em 2002.

Uma-historia-dentro-da-outra_CAPA-assessoriaGeny Vilas-Novas nasceu no Sitio de Cima, na parte alta da Fazenda Boa Esperança, que pertencia a seus avós, em Minas Gerais, no vale do rio Doce. É autora dos romances Adeus, rio Doce (Bom Texto, 2006); Flores de vidro e Onde está meu coração (7Letras, 2015) e Fazendas ásperas (7Letras, 2017). Participou de diversas antologias de contos, entre as quais: Marquesa de Santos (Bom Texto, 2003), Tempo de Nassau, um príncipe em Pernambuco (Bom Texto, 2004), Ásperos e macios: histórias de amor e vingança (Bom Texto, 2010), e O rei, o rio e suas histórias (7Letras, 2012).

Flávio Colin Flávio Barbosa Mavignier Colin – Começou a desenhar quadrinhos aos 26 anos, na RGE – Rio Gráfica e Editora (atual Editora Globo), no Rio de janeiro, entre o período de 1956 a 1959. Nos anos 1980, produziu histórias para as revistas Spektro (Ed. Vecchi), Inter (Ed. Internacional) e Mestres do terror e calafrio (Ed. D-Arte), bem como edições especiais como A história de Curitiba, A Guerra dos Farrapos, O continente do rio Grande, Mulher diaba no rastro de Lampião e O boi das aspas de ouro. Em fevereiro de 2001, ganhou o troféu Angelo Agostini de melhor desenhista de 2000, com a obra Fawcett. Seus últimos trabalhos foram o álbum Estórias gerais (Autêntica, 2013), A companhia das sombras, Admirável Novo Mundo, Uma noite no fim do mundo, reunidas no volume Fantasmagoriana & outros contos sombrios (Autêntica, 2013), e as ilustrações desse Uma história dentro da outra e Lendas do rio Doce, que finalmente é publicado em 2017, quinze anos depois de sua morte, em agosto de 2002, no Rio de Janeiro.

O livro custa R$ 34,90 e pode ser adquirido nas livrarias virtuais.

As novidades da semana

Mauricio de Sousa apresenta nova personagem

663d40_b5bdca60fa1c4decb156ffc3c969d812~mv2 55

Nova amiga de Mônica, Magali e Marina é uma garotinha cheia de autoestima e atitude, que chega para complementar o time empoderado de meninas do bairro do Limoeiro. Ela vem da família Sustenido, com fortes raízes musicais. Milena é uma garotinha cheia de atitude e autoestima, que exibe seus talentos nas aulas de piano, e, além da música, é apaixonada por futebol. A amiga de Mônica, Magali e Marina foi apresentada, ontem, durante a 1ª Corrida Donas da Rua, na Assembléia Legislativa, no Ibirapuera, São Paulo.

“Há algum tempo, estávamos preparando a estreia de uma nova família, atendendo a pedidos de nossos fãs por maior presença de personagens negros em nossas histórias. O lançamento da primeira personagem desta família durante a Corrida Donas da Rua reforça a importância de elevar a autoestima das meninas e seus direitos à igualdade e diversidade de oportunidades, além de aumentar a representatividade. Milena foi criada para reforçar a representatividade das meninas negras nos quadrinhos, animações e eventos live action, para que elas se vejam nas histórias e saibam desde cedo que são Donas da Rua”, explica Mônica Sousa, diretora-executiva da Mauricio de Sousa Produções e porta-voz do projeto Donas da Rua.

Mas quem é a família Sustenido? Milena é neta de uma professora de piano, chamada Laurinda, a Dona Lalá, e de um luthier (profissional que faz a construção e manutenção de instrumentos musicais), o Sr. Doriva, mais conhecido como Seu Dodô. É filha de Silvia, veterinária que cuida dos pets do bairro do Limoeiro, e de Renato, um produtor musical descolado. Tem dois irmãos: Solange (Sol) e Fabinho (Binho). As primeiras sílabas dos nomes dessa família formam a escala musical: Doriva, Renato, Milena, Fabinho, Solange, Laurinda e Silvia.

 Projeto “Passaporte da Esperança”

image005

Parte do primeiro lote de livros infantis arrecadados nos 25 restaurantes McDonald’s de Belo Horizonte pelo projeto “Passaporte da Esperança” foram entregues na Casa de Acolhida Padre Eustáquio (CAPE), instituição que abriga e cuida de crianças e adolescentes que estão em tratamento de câncer na capital mineira. Um total de 220 livros, entre novos e seminovos, em excelente estado de conservação, incluindo vários clássicos da literatura infantil, fizeram a festa da garotada.

Realizado na Brinquedoteca da entidade, o evento teve contação de histórias, com a escritora, psicopedagoga e mestre em Educação, Vanessa Corrêa, autora do livro “Bilô Desembolô; música da melhor qualidade com o violeiro Dário Marques e sua viola encantada, brincadeiras de roda e muita diversão. Propositalmente, os livros foram espalhados no chão da brinquedoteca para observarmos a reação das crianças e adolescentes. Cada um escolhia um livro, ia para um canto, enquanto o evento não começava, e mergulhavam na história. Mágico! Também marcaram presenças os contadores de história Simone Santos e Bernardo Lucas. Uma tarde lúdica, leve, inspiradora e de muitas emoções!

Samsung lança o projeto “Histórias ao Pé do Ouvido”

imagem-de-destaque-audiolivro-700x329

Hoje em dia, com as atribuições da vida moderna, o tempo escasso acaba prejudicando o hábito da leitura. Pensando em elevar o potencial das pessoas e permitir que todos adquiram conhecimento e se inspirem em qualquer lugar, a Samsung lança a iniciativa “Inspire-se no tempo livre que você não tem: histórias ao pé do ouvido”, que oferece acesso ao conhecimento e entretenimento de audiolivros para o público adulto. A ideia é que as pessoas aproveitem seus momentos, seja durante transporte, praticando esportes, cozinhando, para desfrutar de um bom livro, em um formato diferente.

Números da 4.ª edição da Pesquisa Retratos da Leitura no Brasil revelam que 44% da população brasileira não lê, e a principal justificativa para isso é a falta de tempo (32%). Por isso, para mudar esse cenário, é preciso trazer iniciativas e fomentar ações que colaboram para estimular o gosto pelo conhecimento e pela cultura.

Com esse objetivo, a Samsung, por meio do Samsung Club, programa de benefícios da marca, disponibilizará 30 dias de acesso grátis ao serviço Ubook, que conta com um catálogo com mais de 10 mil títulos entre biografias, ficção, literatura, filosofia, revistas, entre outros milhares de conteúdos. Para ter acesso, basta fazer o cadastro gratuito no Samsung Club e resgatar o benefício, que pode ser ativado no site do Ubook. O acesso será liberado mediante cadastro no Samsung Club, no nível Boas Vindas, de hoje até 31/7/2018. Não é necessária a compra de nenhum produto para ativar a oferta. Consulte condições. https://www.samsung.com.br/samsungclub/beneficios/detalhe-beneficio?slug=ubook-30-dias

Em 2018, novas “Histórias ao pé do Ouvido” serão contadas. A Samsung vai produzir títulos inéditos com formato inovador e gratuito que começam em janeiro. Para mais detalhes sobre o projeto acesse: https://www.samsung.com.br/historiasaopedoouvido/

Porque literatura não rima com censura

Sandra Mayumi Medrano *

O tema censura nos livros para as crianças tem feito parte de muitas discussões e reflexões nestes últimos tempos. Para abordar a relação literatura e censura, podemos recorrer a Antonio Cândido, que escreveu em 1988 um texto que reforça o direito ao acesso a esse bem cultural:

Ninguém pode passar vinte e quatro horas sem mergulhar no universo da ficção e da poesia, a literatura concebida no sentido amplo parece corresponder a uma necessidade universal, que precisa ser satisfeita e cuja satisfação constitui um direito. (…) A literatura é o sonho acordado das civilizações. Portanto, assim como talvez não haja equilíbrio psíquico sem o sonho durante o sono, talvez não haja equilíbrio social sem a literatura. Deste modo, ela é fator indispensável de humanização e, sendo assim, confirma o homem na sua humanidade.

Assim, se a literatura é um direito relacioná-la à censura – como temos visto nos últimos tempos – parece indicar que estamos violando, de alguma maneira, esse direito.

Há muitas maneiras de abordar a questão da censura e tentar entender suas motivações. Uma delas é analisar pelo viés da relação entre concepção de criança e concepção de livros para crianças.

Ao analisarmos essas concepções, é possível verificar que elas mudaram ao longo do tempo. Se olharmos para a história, podemos fazer um breve percurso, partindo do século XVIII, quando surge o conceito de criança e de infância. Até esse período, as crianças eram consideradas adultos em miniatura e assim tratadas em todos os aspectos. É possível imaginar que, antes desse período, os assuntos a que tinham acesso eram os mesmos que circulavam no mundo dos adultos.

Na outra ponta desse caminho, é possível reconhecer uma distinção total da criança do mundo adulto. Muitas vezes, considerada tão diferente como quando é indicado: “homens, mulheres e crianças” – como se fossem totalmente assexuadas durante esse período. Essas concepções de criança e de infância, impactam a literatura, que parte, portanto, de uma não distinção do seu leitor, adulto ou criança, para outra em que se considera a necessidade de resguardar e educar a criança.

Esta última, a escritora argentina Graciela Montes chama de “curral da infância”, pois considera uma criança submetida e protegida, tida como um “cristal puro” e uma “rosa imaculada”, a quem o adulto deve proteger para que não se quebre e que floresça. Essa literatura, segundo a autora, não pode incluir a crueldade, nem a morte, nem a sensualidade, nem a vida real, porque se acredita pertencer ao mundo dos adultos e não ao “mundo infantil”. A realidade retratada nos livros é, assim, despojada de tudo que seja denso, matizado, dramático, contraditório, absurdo, doloroso: de tudo que pode brotar dúvidas e questionamentos.

Podemos acompanhar um exemplo dessa relação entre concepção de criança e literatura ao analisarmos as diferentes versões de Chapeuzinho Vermelho. Zohar Shavit, israelense especialista em literatura, apresenta um estudo em que analisa diferentes versões desse conto ao longo da história.

No século XVII, portanto, antes da conceitualização da infância, Charles Perrault registrou esse conto, que não tinha como público específico as crianças. Nessa versão, o conto termina com o Lobo devorando a Chapeuzinho. Tem tom muitas vezes irônico e passagem erótica, como quando Chapeuzinho tira sua roupa e se deita na cama com o Lobo.

Já no século XIX, com os Irmãos Grimm e com o conceito de criança e infância já alterado, a literatura infantil ganha contornos educacionais, para ensinar a essa geração os valores e princípios que eram caros à sociedade da época. E na versão desses autores, é garantido um final feliz, em que a avó e Chapeuzinho Vermelho são salvas e o Lobo é morto.

Nos dias atuais, temos algumas versões do mesmo conto, em que são alterados aspectos como o conteúdo da cesta que Chapeuzinho Vermelho leva para sua avó. O vinho é trocado por leite, frutas e pote de mel ou geleia, porque acredita-se que as crianças não podem ter contato com bebida alcóolica. Em alguns livros, o Lobo não devora a avó – pois a morte não deve ser assunto de criança, submetida ao “curral da infância”. Ele a coloca no armário e não é morto; sai correndo quando o caçador chega.

Essas diferentes versões mostram como a relação pode ser muito direta, entre a concepção de criança e o que se oferece para sua leitura, chegando a ser identificada como forma de censura, se consideramos, como aponta Graciela Montes, a censura como um mecanismo ideológico de revelação/ocultamento que serve para o adulto domesticar e submeter (ou colonizar) as crianças. Parece muito forte essa ideia, mas corrobora com ela a fala de um escritor peruano chamado Santiago Roncagliolo, que, em entrevista em 2016, disse:

Agora, quando escrevo livros para crianças, não me deixam colocar os maus! Nem bruxas, nem ogros, nem monstros… A culpa é do afã da sociedade por criar uma bolha para os filhos às custas de obrigar os escritores a criar literatura sonsa. E o que ocorre é que o mau desta literatura ‘sonsa’ não é a crítica que recebemos. O mau é que cria leitores sonsos, crianças sem nervos nem reflexos morais.

Infelizmente, essa restrição não é exclusividade do Peru. É também vivida aqui e em outros lugares do mundo. Nesse contexto de censura, restrição ou redução, um aspecto merece especial atenção no Brasil, pois se relaciona ao momento atual de uma importante política pública de ensino da leitura e da literatura na escola: a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), produzida pelo Ministério da Educação, com o objetivo de se tornar um documento orientador dos currículos estaduais e municipais, de redes públicas e privadas, definindo os direitos de aprendizagem dos alunos da Educação Infantil e do Ensino Fundamental.

A BNCC teve sua primeira versão publicada em setembro de 2015, depois foi produzida uma segunda versão, divulgada em maio de 2016. A terceira versão, finalizada em abril de 2017, encontra-se no momento no Conselho Nacional de Educação, que deve apresentar seu parecer em dezembro deste ano. Essa versão traz aspectos que precisam ser analisados criticamente, pois impactam diretamente na formação leitora das crianças e no acesso ou nas restrições a que serão submetidas.

Especificamente em relação ao Ensino Fundamental I – 1o ao 5o ano – há uma indicação da separação do ensino da literatura no eixo que denominaram “educação literária”. Tal separação merece atenção, pois pode, ao contrário de garantir um espaço exclusivo e, portanto, positivo, remeter ao que já vivenciamos quando foi instituída a “Educação Artística” nas escolas em que as Artes não era objeto de conhecimento. Merece atenção redobrada algumas passagens do documento em que se afirma:

Nesse eixo [educação literária], e também no eixo Leitura, a escolha dos textos para leitura pelos alunos deve ser criteriosa para não expô-los a mensagens impróprias ao seu entendimento, consoante determinam os Artigos 78 e 79 do Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei no 8.069/1990).

Essa indicação parece se preocupar e cuidar do que será oferecido às crianças, mas o trecho “mensagens impróprias para seu entendimento” chama a atenção. Tanto pela subjetividade a que pode remeter a palavra “imprópria” quanto pela definição do que será considerado possível de ser compreendido pela criança (a concepção de criança). Além disso, causa estranheza quando vamos aos conteúdos dos artigos citados:

Art. 78. As revistas e publicações contendo material impróprio ou inadequado a crianças e adolescentes deverão ser comercializadas em embalagem lacrada com a advertência de seu conteúdo.

Parágrafo único. As editoras cuidarão para que as capas que contenham mensagens pornográficas ou obscenas sejam protegidas com embalagem opaca.

Art. 79. As revistas e publicações destinadas ao público infantojuvenil não poderão conter ilustrações, fotografias, legendas, crônicas ou anúncios de bebidas alcoólicas, tabaco, armas e munições, e deverão respeitar os valores éticos e sociais da pessoa e da família.

Em tempos de censura como os que estamos vivendo, a forma de abordar esse tema parece ser bastante arriscado.

Considerando o direito à literatura, e a garantia de acesso e não a restrição, outros artigos poderiam dar sustentação para a formação dos jovens, como nos exemplos a seguir:

Art. 54. É dever do Estado assegurar à criança e ao adolescente:

V – acesso aos níveis mais elevados do ensino, da pesquisa e da criação artística, segundo a capacidade de cada um;

Art. 58. No processo educacional respeitar-se-ão os valores culturais, artísticos e históricos próprios do contexto social da criança e do adolescente, garantindo-se a estes a liberdade da criação e o acesso às fontes de cultura.

Ainda em relação ao ensino da leitura, outro aspecto abordado na BNCC preocupa, pois revela uma possível redução em relação aos textos que os estudantes terão acesso ao longo de sua escolaridade que pode impactar na apropriação das culturas do escrito, caso seja aprovada pelo Conselho Nacional de Educação. Para se ter uma visão da abordagem proposta, a tabela abaixo sintetiza os critérios indicados para seleção e oferta de textos aos alunos nos anos iniciais do ensino fundamental.

INTERNACaptura-de-Tela-2017-11-27-às-14_13_05-1

A definição de tamanho dos textos – que começam no 1o ano com 200 palavras até chegar ao 5 o ano com 600 palavras – e o nível de textualidade que indicam ser adequados ao longo da escolaridade parecem apontar para material produzido especificamente para fins educativos, e não para que as crianças se aproximem da leitura como prática social e a literatura como produção artística, da cultura escrita. Essa restrição, além de artificializar a língua, restringe as condições de crianças e jovens a fazer parte desse universo como participantes ativos e críticos e produtores de cultura escrita.

E quem mais perde com isso? Infelizmente, quem mais perderá são as crianças que têm menos acesso à cultura escrita fora da escola, e que provavelmente são, em grande parte, as crianças da escola pública. Para essas crianças, será negada a possibilidade de diminuição da desigualdade de oportunidades que têm, na escola pública, seu principal espaço de garantia. As crianças de famílias com mais acesso a esse tipo de cultura provavelmente terão, por outras vias, possibilidades de apropriar-se de práticas sociais de uso da leitura e da escrita.

Entretanto, se retomarmos as notícias recentes de censura aos livros, é possível verificar que, apesar de as crianças de famílias com maior poder aquisitivo – que se encontram em escolas particulares – terem mais contato com as culturas do escrito possivelmente elas também terão, por outros motivos, privação de acesso à literatura.

Com esse cenário tão limitador para todas as crianças brasileiras, justifica-se a necessidade de advogarmos intensamente a favor do acesso à literatura de forma irrestrita. Peter Hunt, especialista em literatura infantil, nos faz lembrar que:

Passamos nossa vida – como nossos filhos passarão – constantemente processando, pesando e equilibrando uma gama fenomenal de conhecimento, percepções e sensações. Não podemos ser simplistas a respeito deles e não esperamos que nossos filhos sejam. Deve ser óbvio que o mesmo aconteça em nossas abordagens dos livros para crianças e na relação com eles.

É preciso confiar na capacidade intelectual das crianças, na capacidade de lidarem com as informações e construírem conhecimentos e, principalmente, de lidarem com a literatura. E só com acesso e espaço para a discussão que podemos formar pessoas que pensem, que criem e que, principalmente, façam o mundo progredir. E um dos espaços para fazer isso acontecer é a escola.

*  Pedagoga e mestre em educação pela Universidade de São Paulo. Foi assessora do Ministério da Educação em programas de formação de professores e coautora de materiais curriculares. É coordenadora pedagógica na Comunidade Educativa CEDAC e membro do Instituto Emília.

Fonte: Revista Virtual Emília

“Dag cheia de ideias”

untitled ppLivro infantil lançado pela Chiado Editora Kids convida as crianças a aprenderem com a personagem a alegria de se divertir como, um dia, se divertiram os avós, tios ou pais. Recomendado como presente de Natal para incentivar crianças a buscarem alternativas de lazer.

 

“Longe do tempo da televisão e da tecnologia vivia em um lugarejo distante, uma menina muito esperta que sonhava, ser trapezista de circo. Vivia inventado brincadeiras junto aos seus irmãos e amiguinhos.”

 19894569_626730137535240_7644869219213982182_n

 “Em uma caminhada, ao imaginar-se em um circo de lona azul cravejada de estrelas, Dag, sem perceber, se envolve em uma aventura, que a faz percorrer caminhos e paisagens desconhecidas.- Seria o céu, a lona do circo do mundo? Perguntou para si mesma..”

A personagem Dag, de seis anos de idade, criada pela autora do livro Suzana Braga, vive brincadeiras simples a partir do que lhe oferece a natureza do quintal onde mora; convive com plantas, árvores frutíferas, flores, animais, rios, peixes; inventa canções, costura roupas para seus brinquedos, curte a chuva. Um modelo de vida bem diferente das crianças que moram em apartamentos na cidade e se limitam nas aventuras e brincadeiras.

“A imaginação de Dag era livre, ia longe e alto e tinha sabor de aventura”.

22788989_664128200462100_8614092300858709853_n

dag_cheia_de_ideias_ebook_coverMas certo dia, ela esteve a observar a cidade e lá deparou com um circo. Imaginou tanto e sonhou tanto com tudo o que poderia encontrar no circo que não soube voltar para a casa e se perdeu. Assustada e sozinha não sabia o que fazer. Até que decidiu entrar num trem e, quem sabe, ele poderia deixá-la segura em casa. Talvez seja essa a maior das aventuras vividas pela menina. Como será que vai terminar?

O livro, que foi ilustrado por Elizabete Amorim, tem 50 páginas, custa R$ 35,00 e pode ser comprado no link da editora https://www.chiadoeditorakids.com/livraria/dag-cheia-de-ideias