“Sempre soube que queria trabalhar com crianças e livros”

11/3/2013 – 20:33h

Entrevista

Anna Cláudia Ramos

Escritora de livros infantis

Anna Cláudia: "Sempre soube que queria ser escritora" - Foto: Divulgação

Rosa Maria: Quando você se despertou para a literatura infantil?

Anna Cláudia: Bem, desde que eu era bem menina despertei pra literatura infantil. Primeiro lendo os livros que meus pais compravam e depois os que a escola indicava. Tive a sorte de estudar em colégios que trabalhavam com leitura e bons livros. Li muita coisa boa na escola. Muita! Mais tarde, já fazendo curso de magistério comecei a estudar literatura infantil e nunca mais parei. Sempre soube que queria ser escritora, sempre soube que queria trabalhar com crianças e livros.  Sabia que um dia passaria de leitora à escritora. Desejo antigo que consegui realizar.

RM: Qual foi o primeiro livro que escreveu? Fale um pouco sobre esta obra.

AC: Meu primeiro livro se chama Pra onde vão os dias que passam? e não foi tão simples publicá-lo. Eu tinha escrito uma história chamada A menina, a princesa e o mar. Na época mandei essa história para algumas editoras. Todas responderam dizendo que o texto era bom, bem escrito, mas que não havia possibilidade de publicação no momento. Até que uma editora acreditou no texto, mas disse que era muito pequeno e denso, ficava sem um público-alvo definido, e que para virar livro eu precisaria aumentar o texto. Acabei escrevendo um livro juvenil e juntando outras coisas que eu nem imaginava que iriam entrar no livro. Essa história ficou sendo o primeiro capitulo do livro. Foi um lindo processo. E a editora publicou. Ainda ganhei de presente um texto lindo de 4ª capa escrito pela Ana Maria Machado e ilustrações do Rui de Oliveira. Em 2010 o livro fez 18 anos, chegou a sua maioridade literária e ganhou uma edição comemorativa pela Editora Escrita Fina, lindíssima, toda reformulada e com novo projeto gráfico! Deixo aqui o link do book-trailer para quem quiser conhecer o livro: http://www.youtube.com/watch?v=Ldhh73W88YE

RM: Quantos livros já publicou? Você trabalha, em especial, com alguma editora?

AC: Até o momento entre edições solo e em parceria são 56 livros. Mas este ano já tenho alguns livros novos para sair. Alguns que já deviam ter saído e atrasaram e outros novos. Se tudo der certo este ano passo dos 65 livros… (rsrsrs). Tenho uma Coleção para sair pela Rideel, com oito títulos.  Outra pelas Paulinas, com quatro títulos. Um livro pela Galpãozinho, Escrita Fina, Planeta, Escala Educacional e mais uma pela FEB.

RM: Você também escreve para teatro?

AC: Não! Nunca escrevi para teatro exatamente, mas já fiz teatro por muitos anos. Mas ano passado, escrevi um livro em parceria com a Sandra Pina que tem uma parte que é em texto teatral. Pronto para ser encenado na escola, por exemplo! O livro se chama Aconteceu na escola: um dia de princesa e foi publicado pela Pallas.

RM: Quando começou a atuar como ilustradora também?

AC: Acabei virando ilustradora meio que “por acidente”. No final de 1996 escrevi a Coleção 4 elementos e queria levar o projeto pronto para mostrar a um editor. Mas que ilustrador iria querer entrar num projeto de risco e fazer tantas ilustrações? Afinal eram 15 ilustrações para quatro livros?  Fora isso, eu queria que o pequeno leitor se identificasse com os desenhos. Na época um amigo me deu a ideia: “por que você não faz as ilustrações? Esse projeto tem tudo a ver com os teus desenhos”. Acabei aceitando o desafio e deu certo. Ao longo dos anos fui aprimorando minhas imagens tanto quanto fui aprimorando meu texto. E este ano em especial estou retomando meu trabalho com as ilustrações!

RM: Além de escrever e ilustrar, você desenvolve outras atividades paralelas à literatura infantil. Fale sobre este trabalho.

AC: Sim. Viajo pelo Brasil afora dando palestras e oficinas sobre minha experiência com leitura e como escritora e especialista em LIJ. Em 2004 fiz uma parceria com Verônica Lessa. Somos sócias do Atelier Vila das Artes, um espaço totalmente voltado para o trabalho com a literatura. Prestamos serviços editoriais para diferentes empresas. De 2009 a 2012, o Atelier Vila das Artes foi responsável pela captação de originais e produção dos livros do catálogo infanto-juvenil da Zit Editora. E desde 2009 o Atelier é responsável pelo manual de participação dos autores da Flipinha. Preparamos o material, damos oficinas para os professores e acompanhamos o trabalho feito com os professores ao longo do ano.

RM: Qual a maior alegria que a literatura infantil lhe trouxe?

AC: Nossa! Que pergunta difícil! Mas uma grande alegria, daquelas que não tem preço na vida é saber que um livro que você escreveu mexeu com a vida de alguém e fez alguém pensar na vida e ter coragem de transformar sua história por ter se inspirado em um personagem que criei. Tenho lindas cartas, depoimentos, e-mails falando sobre isso.  Uma carta em especial me emociona muito.  Isso não tem preço, entende? É especial!

RM: Você tem um trabalho que aponta o que é qualidade em literatura infantil. Em sua opinião, o que é qualidade e o que não é?

AC: Esse tema é longo e já rendeu muitos ensaios e muitas polêmicas. Em 2005 foi lançado um livro organizado pela escritora Ieda de Oliveira com vários ensaios tentando responder essa pergunta. O livro tem como título O que é qualidade em literatura infantil e juvenil? Com a palavra o escritor, pela editora DCL. Participei deste livro com um ensaio no qual aprofundo o assunto. Caso alguém tenha interesse em mergulhar nesse assunto, recomendo a leitura deste livro. Mas fica aqui um trecho do meu artigo: “… falar sobre o que é qualidade em LIJ é falar de livros que permitem a criança ser, viver, experimentar, sentir medos, alegrias, tristezas e conquistas. Falar de qualidade não é falar de livros que os adultos acham que as crianças devem ler porque vão poder aprender muitas coisas. Livros de LIJ de qualidade não são livros cheios de aprendizados forçados, cheios de mensagens educativas ou histórias pedagógicas disfarçadas de literatura. A LIJ de qualidade passa longe destes livros recheados de moral didatizante, que só permite uma leitura única e muitas vezes preconceituosa. Mas também é fato que tudo aquilo que um escritor pensa, sente e acredita está nas entrelinhas de seu texto. (…) Um livro que deixa espaço para seu leitor pensar, sentir, interagir, descobrir sentidos escondidos é um livro de qualidade. Certamente é um livro onde o leitor vai poder ver que o escritor fez um trabalho sério com a linguagem, com a busca da palavra perfeita, da pontuação mais adequada. Fazer LIJ não é fazer um textinho, nem um livrinho para criancinha. Isso não é literatura (…)”

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