Em defesa da literatura popular

5/1/2014 – 16:26h

Para Ricardo Azevedo, um dos mais premiados escritores infanto-juvenis do Brasil, embora a discussão sobre a formação de leitores tenha ganhado espaço na agenda pública, ainda é preciso investir em instâncias mediadoras, que auxiliem as famílias a incorporar o hábito de ler no seu dia a dia. Na entrevista a seguir, ele explica porque defende uma literatura popular e não segmentada.

“Vou tentar explicar melhor minha posição. Os livros técnicos e didáticos, utilitários por definição, costumam dividir as informações que pretendem transmitir em graus que progressivamente se tornam mais complexos. Neste caso, faz todo o sentido falar num livro feito para tal e tal faixa de idade até porque, como sabemos, as crianças são divididas por faixas etárias dentro da escola. Creio que a literatura e a arte seguem por outros caminhos. Como escritor, prefiro olhar crianças e adultos pelo ponto da vista da semelhança e da identificação. Se olharmos bem, as diferenças entre crianças e adultos são poucas e temporárias. As semelhanças, ao contrário, são estruturais e profundas.

Adoro imaginar um menino de 10 anos que examina o avô de 80 e pensa: “esse cara é muito parecido comigo.” Afinal, convenhamos, na vida concreta todos podemos nos apaixonar, temos dúvidas, buscamos o autoconhecimento, sonhamos, temos medos, adoecemos, apreciamos o conforto, sentimos fomes, dores e prazeres, temos dificuldade de compreender e ser compreendidos pelo outro, somos aprendizes, muitas vezes somos contraditórios, envelhecemos e um dia morreremos. Veja quantos assuntos e quantas histórias poderiam sair só dessa pequena lista!

Acontece que estamos condicionados a chamar de “adulta” uma literatura que tende a abordar temas complexos pelo viés da abstração ou que exige um alto grau de erudição.  Trata-se de uma literatura feita por especialistas tendo em vista a leitura de especialistas. Chamo a atenção para a confusão entre a noção de “adulto” e a de “especialista”. Pergunto: faz algum sentido acreditar que uma mulher iletrada de 50 anos seja necessariamente menos adulta do que uma dentista ou advogada da mesma idade? Fato é que, na verdade, a maioria dos adultos, independentemente de classes sociais e graus de instrução, não está preparada para ler boa parte dessas obras.

Deixo claro: não estou insinuando que essa literatura seja ruim. Tento dizer que muitas obras relevantes da nossa literatura exigem um leitor especializado e, em suma, foram escritas tendo em vista um pequeno e seleto grupo de leitores.

De outro lado, porém, podemos imaginar uma literatura que também aborde temas complexos sobre a vida concreta, mas de forma passível de ser compartilhada por um grande número de pessoas e por meio de uma linguagem clara, pública e acessível.  Trata-se, em outras palavras, de uma literatura popular.  Se pensarmos em termos de Brasil ela, a meu ver deveria ter uma grande importância. Naturalmente, no interior dessa imensa e diversificada literatura popular vão existir livros capazes de gerar mais, ou menos, interesse e identificação entre crianças ou entre jovens. Pois bem, na minha visão, a chamada literatura para crianças que interessa e vale a pena ser lida é, na verdade, uma literatura popular capaz de interessar a crianças, jovens e adultos.

Outra coisa: tanto a literatura para especialistas quanto a literatura popular pode oferecer obras relevantes para a cultura. Ambas também costumam oferecer obras sem qualquer valor. Isso faz parte. Imaginar que apenas a literatura para especialistas tenha valor serve apenas para justificar certas linhas de estudos universitários e, claro, alimentar egos um pouco mais carentes”.

Fonte: Notícias em Rede Itaú Social –

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