O primeiro livro a gente nunca esquece

Paulo Tedesco (*)

Muitos coletam textos curtos publicados em Facebook e em seus blogs e, de imediato, começam a pensar num primeiro livro. Caso não tenham desenvolvido um bom número de leitores e seguidores, e que esse número seja averiguável, além de alguma qualidade literária ou jornalística, como espécie de salvo-conduto para as primeiras vendas de lançamento, esses candidatos a autor logo descobrem que uma editora dificilmente investirá numa obra desse gênero, o que os leva a decidir-se pela autopublicação.

Mas o que definirá a vida do livro é também o seu gênero e, em muitos dos livros lançados como primeira publicação de um autor, a crônica é gênero dos mais comuns e que tem os mais diferentes formatos, ou seja, crônicas de viagem, crônicas de política, crônicas de memória e também aquelas que muito se aproximam da ficção, onde uma historinha acaba configurando-se e servindo de escora para uma crônica de opinião do autor.

Ainda toma-se erroneamente por crônica ao que se chama de artigo de opinião, e que não passa de um ensaio de ideias, e onde entram muitos de autoajuda e até religiosos, outros, porém, ao contarem pequenas histórias rápidas, em verdade, estão a produzir o que pode ser encarado como um esquete, ou sketch, em inglês, que é um ensaio de uma cena ou um diálogo curto, sem necessariamente uma história de fundo a escorar, como no caso do conto.

Ao longo dos anos e, em especial no período dourado do jornalismo brasileiro, gente como Fernando Sabino, Carlos Drummond de Andrade, Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, João Antonio, João Ubaldo Ribeiro, Luis Fernando Verissimo e tantos outros, não só nos desenharam o que seria a crônica brasileira, a ponto de se dizer que nossa crônica não encontra similar no mundo, como influenciaram gerações de bons autores que se iniciavam na literatura. E, dentre esses, não é difícil imaginar aqueles que também cometeram seus próprios crimes no primeiro livro.

Hoje, graças às facilidades de publicação e a novos ventos intelectuais, há certa tolerância com o primeiro passo e é aceitável que numa obra primeira cometamos erros, excessos, reduções e até imprecisões. Afinal, o suporte livro é uma conquista e tanto e, creio, merece constar na vida de todos os que valorizam as ideias e a escrita como um instrumento de afirmação cultural e, porque não, social.

Mas para se fazer carreira e prosseguir publicando, é preciso estudo e nos dedicarmos à muita, mas muita leitura. Há, junto desse esforço, que se procurar o mais acertado para nosso trabalho, seja com conversas com autores já experientes ou com o editor e consultor mais acessível para as dicas essenciais. Também é preciso atitude e autocrítica. E essa autocrítica só se constrói com o passar dos anos, o que, muitas vezes, faz pensar que um próximo livro precisa ser muito melhor do aquele primeiro, para que possamos seguir publicando e ganhando leitores.

* Paulo Tedesco é escritor de ficção, cronista e ensaísta, atua como professor e desenvolvedor de cursos em produção editorial e consultoria em projetos editoriais, também como orientador em projetos de inovação em diferentes setores. Trabalhou nos EUA, onde viveu por cinco anos, nas áreas de comunicação impressa, indústria gráfica e propaganda. É autor dos livros Quem tem medo do Tio Sam? Fumprocultura de Caxias do Sul, 2004); Contos da mais-valia & outras taxas (Dublinense, 2010) e Livros: um guia para autores (Buqui, 2015). Desenvolveu e ministra o curso de Processos Editorais na PUCRS e coordena o www.consultoreditorial.com.br atendendo autores e editores. Pode ser acompanhado pelo seu site, pelo Facebook ou pelo Twitter.

(Artigo publicado no Publishnews )

Continue lendo

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *