“Pra que tomar banho?”

Essa é uma pergunta que muita criança faz. E quem vai respondê-la é o mestre das Histórias em Quadrinhos (HQ), João Marcos Parreira Mendonça, um dos roteiristas da Maurício de Sousa Produções e professor do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Vale do Rio Doce. Em entrevista ao blog, ele comenta sobre o lançamento deste novo livro e analista a boa fase que os quadrinhos vivem no circuito literário brasileiro. Na opinião do mestre, seria muito difícil o meio literário ficar indiferente ao sucesso da produção atual entre os leitores e, principalmente, diante da qualidade dessa produção.

18816673_1365569356852915_1879995968_n

 

Mendê e Telúria estão de volta num livro especial para os pequenos leitores. O Mendelévio sempre tem uma desculpa para não tomar banho. Dessa vez, algo diferente aconteceu. Vamos descobrir juntos? O livro “Pra que tomar banho?”, 24 páginas, é o segundo da coleção “Meu primeiro quadrinho”, da editora A Semente. Ele é voltado para o pré-leitor, entre 4 e 5 anos, e toda a linguagem visual e textual foi pensada para esse público.

Os irmãos Mendelévio e Telúria são personagens criados por João Marcos. A história do novo livro desta dupla apresenta as desculpas do Mendê pra não tomar banho depois de um dia de muitas brincadeiras. A cada desculpa, ele tem uma surpresa… O lançamento fala sobre uma característica muito comum entre as crianças em relação a essa situação e uma pergunta frequente nessa fase: pra que tomar banho?

18835015_1365569376852913_660489808_n

A entrevista

Além de roteirista do Maurício de Sousa, João Marcos é autor de diversos livros em quadrinhos como “20.000 Léguas Submarinas em quadrinhos”, em parceria com Will (Nemo); “Histórias tão pequenas de nós dois” (Abacatte Editorial), “O mundo mendelévio e o planeta Telúria”, “Sete histórias de pescaria de seu vivinho, em parceria com Fabio Sombra (Abacatte), entre outros.

18901075_1370154846394366_71956767_oRosa Maria: Como você avalia a atual fase das Histórias em Quadrinhos: cada vez mais presentes nos livros infantis; muito disputadas nos eventos literários e contempladas no Prêmio Jabuti?

João Marcos: Estamos vivendo um momento muito bom. Cada vez mais, os quadrinhos vêm ganhando espaço na educação, como uma linguagem importante na formação da criança, e isso abre espaço para a conquista de novos leitores. Entre o público em geral, os quadrinhos são vistos como uma possibilidade para se contar histórias para vários públicos. E boas histórias, diga-se de passagem. Além disso, temos um aumento significativo na produção, tanto em quantidade quanto na qualidade dos trabalhos publicados. As tecnologias de impressão e publicação também se tornaram mais acessíveis e hoje é muito mais fácil produzir uma publicação independente com o mesmo nível de qualidade de uma editora, por exemplo. Num meio onde a imagem tem papel fundamental na narrativa, isso faz toda a diferença. As editoras também têm investido muito mais na publicação de quadrinhos. Além disso, geralmente os quadrinistas são apaixonados pelo que fazem e usam essa paixão para fazer os livros chegarem até os leitores.

Diante desse cenário, temos uma produção de muita qualidade. Aos poucos, os quadrinhos vêm vencendo uma resistência que existia em relação a essa linguagem que é histórica. Existe uma quantidade enorme de estudos, em diversas áreas, que apontam no sentido oposto, da importância desse gênero em vários aspectos. Esse olhar diferenciado no meio acadêmico aliado à qualidade da produção atual fez com que os quadrinhos ganhassem espaço em eventos literários e prêmios importantes nessa área, como o Jabuti. Seria muito difícil o meio literário ficar indiferente ao sucesso da produção atual entre os leitores e, principalmente, diante da qualidade dessa produção. Vejo como um desdobramento natural a chegada ao Jabuti, até porque em anos anteriores algumas publicações em quadrinhos foram premiadas em outras categorias. Reconheço a importância da inclusão no prêmio que, de certa forma, chancela a importância dos quadrinhos no meio editorial.

 

RM: Quais conquistas ainda podem chegar?

JM: Acredito que a maior a conquista é sempre ganhar um novo leitor. Apresentar os quadrinhos e mostrar que aquela linguagem, com suas características próprias, pode contar uma boa história que emocione, divirta, faça dar gargalhadas ou provoque reflexões é a maior conquista que o meio pode ganhar.

 

RM: O que acha que ainda precisa acontecer para fazer juz a esse estilo literário _ digamos assim _ que tanto agrada ao público infantil?

JM: Fazer os livros chegarem até os leitores. Aos poucos, os quadrinhos estão ganhando espaço no circuito editorial (feiras de livros, bienais, prêmios literários) e todos esses espaços contribuem na formação de novos leitores. Entre o público infantil, as escolas têm papel fundamental.  Apesar de no Brasil os quadrinhos serem vistos como um meio voltado para o público infantil, temos poucos autores que se dedicam a esse público. Pouquíssimos. A maior parte da produção hoje é voltada para o público jovem e adulto, principalmente. E a formação de leitores começa na infância.

 

RM: Como os quadrinhos lhe ajudam a construir histórias e transmitir as mensagens que deseja para o seu público?

JM: A junção entre texto e imagens me ajuda a passar toda a ideia e informação que preciso pra contar uma história. Sempre penso nos roteiros com as imagens de cada cena, até no enquadramento da cena que vai ser desenhada. Não consigo pensar nas histórias de outra forma. Como disse o poeta Manoel de Barros, “as imagens são as palavras que nos faltaram”. Acho que quadrinhos são isso.

 

RM: Que características devem ser ressaltadas nas HQ?

JM: A união entre texto e imagens. Numa HQ, uma não tem sentido sem a outra. Esse casamento entre as duas linguagens em favor da narrativa é o grande desafio do quadrinista.

 

RM: Comente sobre suas atividades profissionais e relacione os livros que já lançou.

JM: Atualmente, sou professor no curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Vale do Rio Doce e trabalho na produção de livros em quadrinhos para crianças, onde já tenho 10 livros publicados por editoras diversas (Abacatte, Nemo, Paulinas, A Semente). Tenho também um livro teórico sobre o uso dos quadrinhos na educação e outro de literatura infantil. Também trabalho na equipe de roteiristas da Mauricio de Sousa Produções, nas revistas infantis da Turma da Mônica e tenho um canal no Youtube onde dou dicas de desenhos para crianças, o Traça Traço.

Continue lendo

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *