“A literatura infantil e juvenil produzida no Brasil é riquíssima”

Mesmo diante de constantes desafios, o mercado editorial brasileiro atingiu grande profissionalização das pessoas envolvidas na produção dos livros para crianças e uma preocupação com a qualidade desses materiais. Essa é a opinião de Mariana Bruno Chaves, formada em Letras pela USP e responsável pelo desenvolvimento do material didático de Língua Pátria do Kumon. Esse estágio de qualificação dos livros infantis e o despertar da consciência fazem com que os pais aproveitem o isolamento social para incentivar ainda mais a leitura na família.

Em entrevista exclusiva para o blog, realizada por email, Mariana Bruna comenta a respeito dessas questões e sugere alguns pontos para os pais refletirem para conseguirem, de fato, transformar a leitura numa atividade prazerosa para o público infantojuvenil.

Mariana Bruno Chaves: “Em tempos desafiadores, a literatura nos permite buscar soluções para os problemas que enfrentamos e impulsionar nosso desejo de transformar o mundo” – Foto: Divulgação/Kumon

Rosa Maria: Como você analisa a importância da literatura infantil na formação das crianças e jovens? 

Mariana Bruno: A literatura infantil tem uma importância muito grande na formação das crianças, pois permite que elas entrem em contato com diferentes sentimentos, emoções e formas de ver o mundo, entendendo melhor suas próprias vivências e dos outros, tornando-se mais empáticas. A literatura também estimula tanto a curiosidade como a criatividade e é um modo de a criança entrar em contato com palavras novas e ampliar sua capacidade de comunicação.

 

RM: Qual o papel dela nesses tempos tão desafiadores? 

MB: A literatura, assim como outras manifestações artísticas, consegue acessar a nossa dimensão humana sonhadora e criativa. Em tempos desafiadores, ela nos permite buscar soluções para os problemas que enfrentamos e impulsionar nosso desejo de transformar o mundo.

 

RM: Quais os critérios que devem ser observados por pais e educadores na escolha dos livros para os filhos? 

MB: É importante que pais e educadores tenham uma noção da capacidade de leitura da criança para não oferecer um livro que seja inacessível e desestimulante, por exemplo com um vocabulário muito difícil. Inicialmente, é interessante oferecer livros de assuntos do interesse da criança para estimular o gosto pela leitura. Aos poucos, é interessante apresentar livros variados, com diferentes temas e linguagens para que a criança possa não só ampliar seu repertório, como descobrir seus próprios interesses e o tipo de leitura que a agrada. Para promover a leitura em nossas unidades, o método Kumon oferece aos alunos uma lista com indicações de livros. Esses livros estão diretamente relacionados aos estágios do material de Língua Pátria do Kumon e são organizados e indicados conforme o grau de complexidade.

 

RM: Como avalia a qualidade da literatura infantil e juvenil produzida no Brasil? 

MB: Apesar dos muitos problemas que o mercado editorial vem enfrentando, a literatura infantil e juvenil produzida no Brasil é riquíssima. Temos autores e ilustradores maravilhosos, reconhecidos tanto no próprio país como internacionalmente. Por muitos anos a produção de livros para crianças no Brasil foi bastante estimulada, uma vez que havia um grande mercado para essas obras. Então houve uma grande profissionalização das pessoas envolvidas na produção dos livros para crianças e uma preocupação com a qualidade desses materiais.

 

RM: Como compara os textos literários clássicos e os textos modernos da atualidade? Qual o impacto de cada um dos dois tipos na formação das crianças e jovens? 

MB: Ambos têm sua importância. Uma obra é considerada clássica por abordar temas universais que continuam fazendo sentido e tendo relevância mesmo com o passar do tempo. Muitas das obras atuais, seja de literatura, cinema, música são inspiradas em histórias clássicas. Conhecer os clássicos é conhecer não só o momento de quando a obra foi escrita, como também o momento atual. O desafio da leitura de obras clássicas passa, muitas vezes, por uma questão de estilo e de vocabulário. Uma adaptação pode ser recomendada para os leitores em formação. Posteriormente pode-se indicar a leitura dos textos originais, pois as capacidades de leitura estarão consolidadas. Nesse sentido, deve-se tomar cuidado para não indicar obras clássicas inadequadas no que tange à linguagem, pois isso pode desestimular a leitura.

Já as obras contemporâneas, dentre as quais pode haver obras clássicas, têm um papel importante de representar o próprio tempo em que se vive, trazendo questionamentos, reflexões e tratando de anseios e necessidades do momento atual.

 

RM: Na sua opinião, por que ainda se lê tão pouco no Brasil? Onde está a falha: na escola ou família? Como cada um desses lados pode contribuir para aumentar o interesse da leitura pelas crianças e jovens?  

MB: Trata-se de uma questão estrutural. A literatura exige o domínio de uma técnica para ser acessada – é preciso, antes de tudo, saber ler. E vivemos em um país com altíssimos índices de analfabetismo. Além disso, enfrentamos um grave problema de acesso ao livro: ele custa caro e temos poucas livrarias e bibliotecas. E, nesse momento, corremos o risco de que seja cobrado um imposto sobre os materiais impressos no Brasil, o que o tornará o acesso ao livro ainda mais difícil.

Depois, podemos considerar sim o papel da escola e da família no desenvolvimento do interesse das crianças e jovens pela leitura. Muitas vezes, a leitura deixa de ser prazerosa, porque é associada a uma atividade obrigatória e pouco instigante. Os professores precisam começar sugerindo leituras com temas de interesse dos alunos e promover conversas em que eles possam de fato falar sobre a sua experiência de leitura. A família também pode ajudar na formação de leitores ao criar rotinas e ambientes em que ler seja uma atividade de lazer, além, claro, de estimular e servir como exemplo. A formação de leitores e o incentivo à leitura são responsabilidade da sociedade como um todo, cada um com seu papel.

 

RM:  O Kumon orienta o aluno também na literatura? De que forma? 

MB: O principal objetivo do curso de Língua Pátria do Kumon é desenvolver a capacidade e o gosto pela leitura. Por isso, além de literatura, utilizamos obras de não ficção, como biografias e livros científicos e informativos. Ainda assim, a maior parte dos livros utilizados no material e indicados na nossa bibliografia recomendada são de literatura e com isso buscamos estimular o interesse pela leitura.

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