Escola e felicidade

Dinamara Machado e Marcela Bernardi *

 

A educação em tempos de isolamento social fez convergir diversos holofotes para as escolas em todas as etapas de ensino. Identificamos nas mídias sociais, desde mensagens elogiando o trabalho dos professores até ridicularizando de forma irônica as atividades realizadas em busca da manutenção da escola que conhecemos. Para além da pandemia, convidamos a refletir o papel da escola.

A sociedade hodierna é mutável, flexível, líquida (…) relembrando os ensinamentos de Zygmunt Bauman, que sempre reafirmava em suas palestras “escolhi chamar de modernidade líquida a crescente convicção de que a mudança é a única coisa permanente e a incerteza, a única certeza.”

A partir de Bauman queremos levantar outras duas perguntas para direcionar nossa aprendizagem coletiva. Quais os conteúdos que aprendemos até o ensino médio e utilizamos em nosso cotidiano? Numa sociedade que produziu inúmeros desempregados, devemos continuar focando em conteúdo?

Não podemos ser imprudentes e acreditar que exista uma resposta milagrosa, mas optamos em acreditar que não é mais possível a escola conteudista, que sobrecarrega os estudantes com inúmeros conteúdos, que muitas vezes causam frustração visto não terem nenhuma aderência com as predileções do estudante, e que é mister personalizar o ensino, afinal, é preciso trazer o humano do humano, na perspectiva de ajudá-lo no afloramento de suas competências.

Trabalhar a partir de competências possibilita diagnosticarmos quais conteúdos são essenciais, coadunam com aquele estudante e ao mesmo tempo atuam no mundo de incertezas. Este mundo em transformação fez aflorar sentimentos de depressão, de busca incessante para a manutenção de empregos, por não saber o que fazer com crianças e idosos, enfim, afetou tragicamente os pilares do que considerávamos porto seguro e, por consequência, de felicidade.

E esta busca pela felicidade, nós, adultos, sabemos por onde começar? Questionamos as competências e valores que nem sempre estão presentes na sala de aula, nessa nova educação (que ainda preza muito pelo conteúdo), mas nós, como estamos com relação a isso?

Trabalhar as emoções e habilidades socioemocionais deve começar na infância. É nesse tempo que devemos perceber quais são as nossas emoções, saber como lidar com cada uma delas, tanto as próprias como as das pessoas à nossa volta. Só assim cresceremos sobre o alicerce da resiliência, da tolerância, da paciência, da empatia: conhecendo o colorido de todas as emoções mesmo aquelas que nós, adultos, consideramos negativas, às vezes… porque esse olhar do que é ou não positivo não tem origem na inocência infantil; é plantado a partir dos adultos nas crianças.

Mas hoje, como adultos, o que fazemos com essa consciência? Apontamos simplesmente para o início de tudo, indicando como devem ser trabalhadas essas competências na escola básica? Não é tarde para reconhecer que somos seres humanos e, portanto, obviamente também emocionais. Que esse conteúdo todo que carregamos não esconda as sutilezas de valores arraigados dentro de nós. Que ele, pelo contrário, sirva para que se possa enxergar o adulto como parte integrante desse processo de mudança. Na infância, na vida adulta.

‘O que eu faço fala tão alto que o que eu grito ninguém escuta’: e essa vai continuar sendo a máxima da educação. Não podemos querer exigir dos outros, pedir mudanças na infância, na escola, se nós mesmos não olharmos para dentro de nós, não agirmos pensando no exemplo que damos a cada passo, a cada gesto, a cada fala e a cada ‘não-dizer’. Somos observados a todo tempo.

Trabalho, normas, currículo metodicamente organizado, rotina muitas vezes inflexível e clamamos por uma ‘nova escola’, que engaje as competências sendo que a nossa vida por vezes aparta emoções?

É necessário que essa mistura do conteúdo/competência; razão/emoção seja clara no nosso próprio cotidiano e dentro de nós antes de tudo. Só assim saberemos de fato lidar com a escola que desejamos para nossos filhos e estudantes no futuro. Não se faz possível falar de anseios para uma próxima geração sem ‘corrigir’ a atual, sem mudar os óculos para conseguir olhar para o presente, para o nosso próprio dia a dia, a partir de outra perspectiva…

Que essas discussões sejam cada vez mais frequentes, sim. Que nessa polissinfonia de vozes seja palpável uma nova visão de futuro. Mas que isso não seja uma simples impostura do ‘eu’ para o ‘outro’, especialmente se esse outro ainda não pode expressar por conta própria o que realmente anseia, já que se trata da infância. Antes de tudo, que isso seja aplicado na prática no meu ‘eu’ para, então, a partir da própria experiência, conseguir apontar com clareza e sem julgamentos o que se espera de melhor para esse outro e essa nova escola, essa nova geração.

*  Dinamara Machado é diretora da Escola Superior de Educação do Centro Universitário Internacional Uninter.

Marcela Bernardi é coach educacional, jornalista e psicóloga, atua na empresa Meu Dever de Casa.

Foto: Divulgação Página 1 Comunicação

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