Histórias de contos de fadas: o que elas têm em comum?

Juliana Ruda *

“Se esse mundo fosse só meu

Tudo nele era diferente!

Nada era o que é porque tudo era o que não é

E também tudo que é, por sua vez, não seria

E o que não fosse, seria, não é?” – (Alice no País das Maravilhas)

À medida que leio mais e mais contos de fadas, os estudando, analisando e interpretando-os, me dou conta do quanto esses enredos assemelham-se a outros de alguma maneira. Isso, porque os contos aprofundam temas universais da vida do homem e esses temas encontram-se no que a Psicologia Junguiana chama d e inconsciente coletivo.

De acordo com Clarissa Estés (2005, p.23), “os contos de fadas têm um léxico – um vasto grupo de ideias expressas em palavras e imagens que simbolizam pensamentos universais”. Vale lembrar, com isso, que, por mais que as semelhanças estejam presentes, aquele tema ou simbolismo terá um sentido diferente em cada história. Dependerá do contexto, da época, se o protagonista é masculino ou feminino, quais os obstáculos que tem que enfrentar, qual o tipo de ajuda que recebe (animal, humana, objetos), qual o desfecho da trama, etc.

Vamos a alguns exemplos para compreender melhor essa ideia.

Você já parou para pensar que o conto da Cinderela lembra muito o conto do Patinho Feio?

A história de Cinderela lembra muito a do Patinho Feio

 

Um personagem é humano e o outro animal, mas em comum eles têm a rejeição da família. No decorrer do conto, acompanhamos o amadurecimento dos protagonistas, de modo que eles superam esse conflito e percebem que a beleza encontra-se neles tanto interna como externamente. A beleza é física e também de caráter, de virtudes.

Ainda falando da Cinderela, as suas meias irmãs assemelham-se as irmãs de sangue de Bela do conto A Bela e a Fera. Sim, a Bela do conto original tinha ao todo 5 irmãos, 3 rapazes e 2 moças. Estas eram invejosas, orgulhosas, arrogantes e destratavam Bela. As irmãs de ambos os contos têm fins trágicos, as de Cinderela ficam cegas e as de Bela são transformadas em pedra.

Esses dois contos também possuem em similar o pedido das protagonistas: a primeira pede ao pai, quando este vai viajar, que lhe traga o primeiro galho que tocar o seu chapéu; já a segunda pede uma rosa. Seguindo pensando no conto de Bela, há muitos enredos que retratam o casamento de moças com animais. Em algumas histórias, elas aceitam facilmente esse destino, enquanto em outras relutam até serem convencidas.

Objetos como roupas, tesouros escondidos, lâmpada mágica são presentes nos contos, porém, em contextos diferentes e com propósitos diferentes.

Nos contos de fadas sempre há objetos mágicos

 

Em Cinderela, na versão dos Irmãos Grimm, ela ganha, magicamente, o vestido de um passarinho, podendo ir ao baile real. Aqui, a roupa representa não só o seu status social como a ideia de valorizar-se a si mesma, de (re)encontrar o seu lugar, que não era nas cinzas e, sim, na luz.

Porém, no conto A Roupa Nova do Imperador, as roupas simbolizam o status social e a persona, ou seja, o Imperador queria passar uma imagem aos seus súditos, a qual, no fundo, não possuía de fato. Isso me faz recordar dos sapatinhos.

Há muitos contos que trazem esse objeto de vestuário. Por vezes, ele é “comum” e em outros momentos é mágico. O sapatinho de Cinderela não é mágico, mas é o sapatinho de Dorothy do conto O Mágico de Oz. Apesar dessa diferença, ambos representam a ideia de movimento, direção, fluidez, aquecimento e proteção dos pés.

É o sapatinho de brilhantes de Cinderela que a faz ser única e ser encontrada pelo Príncipe para que possa desposá-lo. Porém, o sapatinho de Dorothy tem outro papel: o de realizar o seu desejo de voltar ao lar.

Outro elemento comum são as florestas ou os bosques.

Há muito simbolismo das florestas nos clássicos infantis

 

Muitos heróis e heroínas precisam adentrar as florestas, a fim, muitas vezes, de (re)descobrirem a si mesmos. João e Maria são levados à floresta; Branca de Neve tem que entrar na floresta para fugir e se esconder da Rainha Má; Chapeuzinho Vermelho precisa atravessar a floresta para chegar à casa da Vovozinha e assim por diante.

O que se deve atentar aqui é que nunca é a mesma floresta. Elas são diferentes e espelham uma proposta diferente em cada narrativa. Veja, no caso dos dois irmãos, eles são direcionados à floresta pelo pai e pela madrasta sem ter muita escolha.

Enquanto isso, Branca de Neve sabe que a floresta será a sua melhor saída, a sua proteção. Já Chapeuzinho parece estar acostumada a percorrer esse caminho toda vez que precisa visitar sua avó.

Na floresta, os personagens podem se perder, como aconteceu com João e Maria e Alice do conto Alice no País das Maravilhas. No entanto, cada um lidou de uma maneira com a situação.

João e Maria trabalharam em equipe e foram espertos, ou pelo menos tentaram, ao deixar, primeiro, pedrinhas e, depois, pedaços de pão pelo caminho. Enquanto Alice recorreu ao auxílio do Gato.

O tempo é outro aspecto que caracteriza os contos de fadas.

O tempo pode estar explícito ou apenas sugerir um contexto

 

O tempo pode estar explícito ou apenas sugerir um contexto, mas ele sempre estará ali. Seja o tempo do consciente ou do inconsciente. Em Alice, o tempo é referenciado diversas vezes. Por exemplo: na última adaptação cinematográfica de Alice Através do Espelho, essa ideia é introduzida perfeitamente.

Em A Bela e a Fera o tempo não só do relógio, mas ao que se refere a prazos se faz presente. Em Cinderela, na versão de Charles Perrault, a personagem só pode ficar no baile até as doze badaladas do relógio, entre outros.

Podemos compreender, portanto, que as semelhanças existem. Contudo, o contexto é diferente e lhes dá um simbolismo e significado diferenciado, o que dependerá também da época em que são contados. Além disso, os contos são paradoxais justamente por estarem imersos no simbólico e, consequentemente, nos opostos.

Talvez, a primeira impressão que você, leitor, tenha agora, ao final do artigo, é que há uma repetição nos contos. E, não, você não está errado. Porém, uma das formas de aprendizado do ser humano não é por meio da repetição?

Ou seja, as semelhanças nos contos de fadas são enigmáticas e profundas. E, em partes, a compreensão dessas similaridades dependerá do olhar de cada leitor. Como canta Alice no desenho de 1951, desenvolvido pela Disney: “Nada era o que é, porque tudo era o que não é. E também tudo que é, por sua vez, não seria. E o que não fosse, seria, não é?”

*  Colunista, Portal “opsicólogoonline” – “Um conto de cada vez”

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