Escola e família: uma cumplicidade eficaz

Ítalo Francisco Curcio *

Falar de escola e de família é algo que me agrada muito, pois a exemplo de grande parte da população mundial, as considero instituições básicas para a formação do ser humano. Também sei que outra numerosa parcela agrega a estas duas à Igreja, no sentido cristão, ou às outras respectivas instituições religiosas, no âmbito de outras culturas. Neste caso, são três as instituições formadoras.

Mas, falemos de um universo maior: estou certo de que escola e família são quase consenso na sociedade contemporânea.

Antes de nossa reflexão, porém, convém ressaltar que nem sempre foi assim. Em outros momentos da história, a escola se confundia com a religião, os ensinamentos, hoje, atribuídos à escola integravam o rol de atividades religiosas, de acordo com cada cultura.

Se pensarmos em atribuir um início para a escola, sobretudo nas culturas da região ocidental do planeta, num modelo mais próximo do assimilado atualmente, podemos pensar numa descrição a partir do século V a.C. A partir desta época, passou-se a atribuir à escola um papel muito importante na formação do ser humano mesmo sabendo-se que uma significativa parte da humanidade era excluída desta participação.

Por isso, na reflexão aqui proposta, considerarei o modelo social adotado a partir do final do século XIX e, mais especificamente, a partir de meados do século XX, portanto, logo após o final da segunda grande guerra. Desta época em diante, os movimentos em defesa da “escola para todos” passaram a ser cada vez maiores, exceto em alguns casos restritos, especialmente em culturas onde as mulheres ainda eram excluídas desta possibilidade.

Assim, verificou-se que, para as diferentes sociedades, praticamente não houve mais dúvida de que o ser humano não poderia ser educado, formado em sua plenitude, apenas no âmbito da família e tampouco somente no âmbito da escola. Escola e família passaram a ser cúmplices na formação de seu bem maior: o filho, para a família e o aluno, para a escola, os quais, na verdade, acabam por ser a mesma pessoa.

Entretanto, neste grande universo, em que se compartilha o conceito da cumplicidade família-escola, existiram e ainda existem alguns pequenos grupos que entendem a escola como uma instituição prescindível, desnecessária, por a verem como sua concorrente na educação do filho. Estas pessoas entendem que a família é suficiente para formar um cidadão, aliás, o cidadão segundo seu próprio modelo, aquele por elas considerado correto.

Entendo ser muito difícil dialogar com pessoas que ignoram a importância da escola, principalmente na sociedade contemporânea, que requer do cidadão uma ampla visão do mundo em que vive, o conhecimento de sua realidade, não necessariamente de concordância de ideias e pensamentos, mas, acima de tudo, de respeito às diferenças, de preparo para o futuro, tanto no âmbito profissional, como no social.

Destaco: não somos obrigados a concordar com ideias diferentes das nossas, pois isto é prerrogativa do ser humano, mas temos o dever, também como seres humanos, de respeitar os que pensam diferentemente de nós. Por isso, falei em reflexão, não em debate e tampouco numa retórica proselitista.

Com isto, para não ser contraditório, manifesto meu respeito aos que pensam em educar os filhos, desde a infância, apenas no lar, mas discordo da ideia de que estes serão os cidadãos capacitados para o presente e para o futuro e que estarão preparados para compor uma sociedade livre, democrática, competente e inclusiva, em todos os aspectos. Queremos formar robôs?

Diferentes especialistas, tanto na área da saúde, quanto na área da educação, mostraram e continuam a mostrar a importância da vida em sociedade, da comunhão entre as pessoas de diferentes características, sem contar as fontes de conhecimento que a sociedade oferece, em particular, a escola.

Outro exemplo desta magnitude são as próprias religiões mais abrangentes (Cristianismo, Islamismo e Judaísmo) que, dentre suas práticas mais relevantes, destacam a inclusão, a comunhão entre seus semelhantes, o ensino em comunidade. Nesse contexto, falo de um modelo que foi retomado nestes últimos anos no Brasil, conhecido por homescooling, ou “ensino no lar”, difundido de forma equivocada como “educação domiciliar”.

Digo que o nome “educação domiciliar” foi inadequadamente empregado, pois a educação domiciliar não deixa de existir com a participação da escola na formação do ser humano, desde a infância até a idade adulta. Considero a educação domiciliar insubstituível, porém, esta não exclui a importância do ensino escolar.

O que estas pessoas desejam não é a valorização da educação no lar, pois esta já existe e eu também defendo de forma inegociável. O desejado por elas é, na prática, a exclusão da escola, ficando, assim, também o ensino de conhecimentos universais restrito ao âmbito da família.

Reitero que também considero a participação da família imprescindível na formação do cidadão, todavia, me é difícil conceber que a família é capaz de atender plenamente as necessidades de uma criança ou de um adolescente, no tocante à sua formação, em termos de conhecimentos universais.

Neste caso, como pedagogo e educador, entendo que o processo ensino-aprendizagem destes conteúdos requer cada vez mais especialistas notadamente inexistentes nas diferentes famílias. Creio ser impossível termos uma família onde seus membros consigam suprir seus filhos destas necessidades, em suas diferentes idades, na plenitude exigida.

Comenius (1592 – 1670) o chamado “pai da Pedagogia Moderna”, falecido há 350 anos, apregoava, por meio de sua respeitada obra, “Didática Magna”, iniciada em 1621, portanto, prestes a completar quatrocentos anos, as seguintes afirmações: “… em toda e qualquer comunidade de homens bem ordenada (quer seja cidade, ou vila ou aldeia), se construa uma escola para a educação comum da juventude”.
– “… mesmo que não faltassem pais a quem fosse possível dedicar-se inteiramente à educação dos seus filhos, seria, todavia, muito melhor educar a juventude em conjunto, num grupo maior, porque, sem dúvida, o fruto e o prazer do trabalho é maior, quando uns recebem exemplo e incitamento de outros”.

Se, porém, estas famílias entendem ser possível contratar profissionais das várias áreas do conhecimento para ensinarem seus filhos em seu lar, então, não teremos mais a construção de uma sociedade plural, mas, de inúmeros indivíduos solitários, pequenos “robôs” sem os recursos da moderna tecnologia da informação e comunicação, sem os recursos dos modernos laboratórios didáticos de ciências humanas e naturais, por fim, sem o conhecimento do que é realmente sociedade.

*  Doutor e Pós-doutor em Educação. Coordenador do curso de Pedagogia da Universidade Presbiteriana Mackenzie

 

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