“Três é demais”

O blog comenta sobre do bem-sucedido lançamento da Abacatte Editorial, no formato Histórias em Quadrinhos, porém, com a análise do autor e quadrinista João Marcos, que concedeu uma entrevista exclusiva para o blog. Além de comentar sobre o novo livro “Três é demais”, ele dá uma aula sobre quadrinhos e mostra o importante papel desse gênero na literatura infantil.

O terceiro personagem a que se refere o título do livro é o Teófilo, que é o reflexo dessa infância imersa na tecnologia. Ele surge entre os outros dois personagens do livro, dois irmãos, mais velhos, que já são muito conhecidos pelos leitores: Mendelévio e Telúria. Junto com o cachorrinho Peri, o que eles gostam mesmo é de aventuras, das descobertas em família, que não faltam nesse lançamento na Abacatte Editora.

Será que Teófilo é o caçula dos irmãos? Como vão reagir Mendelévio e Telúria diante disso? “Três é demais” nos reserva muitas surpresas bem gostosas de ler, de saborear página a página.

O escritor e quadrinista João Marcos, que também é professor da Universidade Vale do Rio Doce e roteirista do Maurício de Sousa nas revistas Turma da Mônica, é quem explica o estilo que adotou nesse seu novo livro:

“São novas histórias curtas, como se fossem pequenas crônicas em quadrinhos, sobre o cotidiano entre dois irmãos que são completamente diferentes, mas se amam. Acho que nesse livro procurei destacar um pouco mais a cumplicidade entre irmãos na infância e esse olhar mágico que a criança tem nessa fase tão especial da vida. Além disso, algumas histórias se desdobram em mais páginas, permitindo explorar melhor um ou outro tema. O Peri, cachorro da família, também tem um destaque nesse livro, em função dos vários pedidos de crianças que recebo me cobrando por isso.”

Quanto a esse terceiro personagem e a provocação do título, ele esclarece: “Na verdade o título é uma referência à história que fecha o livro sobre a possibilidade da chegada do novo irmão. Também é uma brincadeira por ser o terceiro livro da série. Não seria uma referência a esse novo personagem.”

Histórias em Quadrinhos ou simplesmente HQs são o gênero preferido de muitas crianças, jovens e adultos e já conduziu muitos dos seus cativos leitores para a literatura, criando neles o hábito da leitura e do livro. Conhecida como 9ª arte, podemos dizer que se não está em fase significativa de crescimento, cada vez mais, tem o reconhecimento para o seu papel na literatura.

A 5ª Pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, que é promovida periodicamente pelo Instituto Pró-Livro, por exemplo, traz indicadores muito bons para as HQ. Realizada pelo Ibope Inteligência, de outubro de 2019 a janeiro de 2020, em parceria com o Itaú Cultural, a pesquisa revela que as HQs são as preferidas de 11% dos 8076 entrevistados em 208 municípios brasileiros, com a 9ª posição de uma tabela que inclui mais 22 gêneros literários. Entre os entrevistados estudantes, 1.672 leitores preferem as HQs junto com 2598 que não são estudantes.

O livro “Três é demais”, tem 48 páginas, custa R$ 43,00 e pode ser comprado no linkhttps://www.lojabondele.com.br/livro-infantil/de-6-a-9-anos/copia-tres-e-demais-lancamento

 

A entrevista

Rosa Maria: Como é escrever e ilustrar o mesmo livro? 

João Marcos: Muito trabalhoso, rs! Na parte de produção, eu faço todo o processo, que começa com o roteiro, desenhos, arte-final, cores e letreiramento. No “Três é demais” esse processo demandou quase três anos de trabalho. No caso dos roteiros, eu vou anotando as ideias e guardando. Algumas já nascem prontas e outras precisam ser mais trabalhadas pra se chegar ao roteiro final. E, claro, várias são descartadas. Como o livro é feito de histórias curtas, depois que tenho uma quantidade maior do que o livro permite, eu envio para a editora para definirmos quais vão ser publicadas. Depois, começa o processo de produção das páginas que, apesar do trabalho, é muito bom de fazer.

RM: E como é escrever no formato HQ? 

JM: Acredito que é pensar o tempo todo no equilíbrio entre texto e imagens. No caso dos quadrinhos, esse equilíbrio é fundamental pra se contar uma boa história. No meu caso, é a linguagem que escolhi para me comunicar como artista e como contador de histórias.  A minha familiaridade com os quadrinhos vem desde a infância, pois cresci lendo gibis e, depois, atuando como professor, acabei me tornando pesquisador de suas características e do uso desse recurso na educação. Então, procuro explorar as potencialidades que a linguagem oferece para que a história seja divertida para o leitor.

João Marcos: “Os quadrinhos são um parceiro da literatura infantil na formação de leitores. Eles caminham juntos nessa missão. Também são mais uma forma de se contar histórias para crianças, contribuir para uma infância mais imaginativa, divertida e feliz” – Foto: Divulgação

RM: Quais os desafios que se tem na produção do texto para quadrinhos? 

JM: O primeiro é lembrar que o texto vem acompanhado de uma imagem que não é só uma ilustração da ação, mas um complemento dessa ação. Se eu tirar um desses elementos (texto ou imagem), a informação fica sem sentido para o leitor. De novo é a questão do equilíbrio entre texto e imagem. Um desafio também é sempre dizer muita coisa usando o mínimo de palavras. Balões com muito texto geralmente ficam maçantes para o leitor. É um trabalho constante de lapidação das frases para que se possa chegar ao mínimo comunicando o máximo, além de pensar como aquela frase vai dialogar com a imagem no contexto da cena.

RM: E das imagens? 

JM: As imagens precisam estar a favor da narrativa, complementando o texto e, ao mesmo, tempo, ampliando a mensagem textual. Sutilezas, expressões e nuances que vão dar vida ao texto. As imagens são fundamentais na narrativa dos quadrinhos. Em termos de força na comunicação, talvez sejam até maior que o texto. Wil Eisner, saudoso quadrinista americano, tem um exemplo muito bom num de seus livros teóricos, “Quadrinhos e arte sequencial”, onde ele usa um personagem dizendo o mesmo texto (a expressão “tudo bem”) em oito quadrinhos e, em cada um deles, a imagem dá um sentido completamente  diferente para o texto, mostrando  a força que a imagem tem nessa linguagem. No meu processo de produção, quando escrevo o texto, já faço os croquis (rascunhos) de como as imagens da cena vão ficar: enquadramento, expressões faciais, movimentos…  gosto de pensar na ação como um todo, juntando texto e imagem, e nos elementos que vão comunicar aquela mensagem para o leitor.

RM: O que os quadrinhos representam para a literatura infantil atualmente? 

JM: Os quadrinhos são um parceiro da literatura infantil na formação de leitores. Eles caminham juntos nessa missão. Também são mais uma forma de se contar histórias para crianças, contribuir para uma infância mais imaginativa, divertida e feliz. Quanto mais opções disponíveis, melhor. Muitas vezes os quadrinhos são vistos apenas como uma “porta de entrada” da criança para a literatura, mas vejo que o seu papel vai além. É uma leitura autônoma, rica, justamente pela junção de texto com a imagem, que facilita, inclusive, no processo de alfabetização. Como a história é contada em imagens sequenciadas, a criança consegue construir um significado pra elas, mesmo que não saiba ler. Num mundo cada vez mais visual, saber ler imagens é imprescindível nos nossos dias, e os quadrinhos contribuem muito nesse sentido.

RM: No caso de “Três é demais”, o que gostaria de destacar do livro? 

JM: São novas histórias curtas, como se fossem pequenas crônicas em quadrinhos, sobre o cotidiano entre dois irmãos que são completamente diferentes, mas se amam. Acho que nesse livro procurei destacar um pouco mais a cumplicidade entre irmãos na infância e esse olhar mágico que a criança tem nessa fase tão especial da vida. Além disso, algumas histórias se desdobram em mais páginas, permitindo explorar melhor um ou outro tema. O Peri, cachorro da família, também tem um destaque nesse livro, em função dos vários pedidos de crianças que recebo me cobrando por isso.

RM: Surgiu um terceiro personagem, não é? Comente sobre ele? 

JM: Sim, é o Teófilo, que é o reflexo dessa infância imersa na tecnologia. Ele é um contraponto a infância que eu tive, representada nos personagens Mendelévio e Telúria, com a infância que muitas crianças vivem hoje, com o uso excessivo da tecnologia.

RM: Como estão, agora, Mendelévio e Telúria? Conte sobre eles também. 

JM: Continuam diferentes, mas aprendendo cada vez mais a respeitarem as diferenças um do outro. Também estão mais imaginativos e desfrutando das dores e delícias de crescerem juntos em família.

RM: O que pulsa mais dentro de você: o cartunista ou o escritor? 

JM: Já tive essa dúvida, mas hoje cheguei à conclusão que gosto das duas vertentes, de maneira igual. As duas são difíceis, mas são muito prazerosas. Na escrita, a responsabilidade é enorme, mas a alegria de ver que uma história funciona e cumpriu a missão junto ao leitor é gratificante. Já o desenho demanda muito tempo, dedicação e trabalho, mas quando tudo fica pronto é uma felicidade enorme!

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