O valor do professor

Ítalo Francisco Curcio  *

Publicou-se há alguns dias o resultado de uma pesquisa, segundo a qual “O Brasil é o país onde os professores têm menor prestígio na sociedade”. Além disto, a publicação também diz que “A profissão é vista como sendo desrespeitada e mal paga”.

Ao ler manchetes como estas, o brasileiro, de maneira geral, recebe a informação não só com tristeza e indignação, mas também com preocupação, pois é sabido que a base da formação de um cidadão é a Educação e o professor é um de seus protagonistas.

Nesse contexto, porém, lança-se uma pergunta, a qual antes de ser respondida, deve ser avaliada, após uma boa reflexão.

Qual é o significado de valor? A palavra valor, que remete à avaliação, por ter um amplo significado, é muitas vezes mal utilizada, por isso esta dúvida.

Atualmente, esta palavra é associada a um duplo conceito, a chamada Avaliação Qualitativa e a Avaliação Quantitativa. No entanto, originalmente, a palavra valor não se referia a quantidade, mas, somente a qualidade.

Valor, ou valorem, é um vocábulo que apareceu somente no Latim Tardio. Não se tem registro seguro de sua existência no Latim Clássico e, mesmo assim, referia-se às qualidades físicas e sociais de determinado sujeito. Referia-se a um homem robusto, forte ou vigoroso e também a um homem que gozava de prestígio junto à sociedade. Portanto, a expressão “um homem de valor”, ainda hoje muito utilizada, não carrega nenhuma conotação quantitativa, e sim, qualitativa.

Sob esta perspectiva, devem-se reler as manchetes que aludem a esta suposta desvalorização do professor e saber efetivamente qual foi o modelo de pesquisa aplicado.

Considerando a média salarial recebida pelos professores brasileiros, sobretudo os da Educação Básica, infelizmente, ao ser comparada com a média salarial de outras profissões que necessitam de formação acadêmica equivalente, é bem menor. Mas, seria este o único indicador para se dizer que o professor é desrespeitado ou desprestigiado?

Ao se pensar numa economia de mercado, o fator salário é importante, por isso, é preocupante uma faixa salarial baixa para um profissional altamente qualificado que é considerado indispensável para a nação. Entretanto, devem-se utilizar outros indicadores para se chegar à conclusão apresentada.

Se pensar apenas nas perspectivas salariais, um jovem, talvez, se sinta menos motivado e atraído ao pretender escolher a carreira de professor. Todavia, até por se tratar de uma profissão com características singulares, com uma prática quase sacerdotal, mesmo sendo um fator importante, nem sempre a questão salarial é colocada em primeiro plano, na decisão por um curso superior.

Não obstante, assim como em outras profissões, o docente também requer atualização constante e progresso na formação. Para um professor, a formação continuada é indispensável e, com isto, o profissional galgará outros patamares salariais, seja em Escolas de Educação Básica privadas, nas quais os salários são bem melhores, como também na docência no Ensino Superior, onde as oportunidades de avanço são ainda maiores.

Portanto, como se vê nesta breve abordagem, a avaliação apresentada está associada a uma quantificação do trabalho. Algo que na atividade do professor não é o único elemento a ser considerado em seu reconhecimento pela sociedade ou, como sugerem estas manchetes, em uma elevada valorização.

O prestígio pessoal se dá sobretudo pela qualidade do sujeito, quanto à sua importância no meio em que vive. Neste sentido, mesmo com menor remuneração pela atividade por ele desenvolvida, o professor continua a ser o personagem mais importante na nação e um dos mais respeitados e prestigiados em nível qualitativo.

Se alguns governos, municipais, estaduais ou mesmo o federal, não manifestam apreço pelo professor no quesito salário, o mesmo não se pode dizer, com relação à sociedade, quando se fala em aceitação e admiração.

O anúncio de que o professor é menos prestigiado na sociedade, refere-se a um resultado que não traduz uma avaliação quanto ao respeito humano, ao afeto, ao altruísmo, alteridade e resiliência, mas apenas valores quantitativos. Estas características, inerentes ao professor, não são possíveis de serem quantificadas.

Sob este ponto de vista, certamente, o professor é o personagem nacional de maior valor, pois é ele quem forma os demais profissionais, é ele quem forma cidadãos, é ele quem forma a nação. O conceito ao qual se refere o valor deve ser assimilado sob a perspectiva qualitativa e não quantitativa.

A avaliação quantitativa deve ser feita em termos do concreto, num contexto de números, e não no abstrato, no subjetivo.

Poder contemplar o progresso cognitivo e intelectual de um indivíduo, sabendo que parte de tudo isto deve-se à intervenção no desenvolvimento de seu aluno, para um professor é algo inestimável, que não tem como se avaliar.

Como é bom e gratificante ser professor!

*  Doutor e pós-doutor em Educação. Coordenador do curso de Pedagogia da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

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