Leitura e literatura infantil: alívio em tempos de isolamento

Abaixo, texto do Portal Pensar a Educação com uma pesquisa objetiva a respeito das contribuições que a literatura infantil pode trazer para crianças e adultos nesses tempos difíceis

Janayna Alves Brejo

Será que é preciso discutir o poder que um livro tem de encantar, de acalentar e de trazer alívio nas horas difíceis?

Como bem disse Patrícia Corsino, professora e estudiosa do campo da Literatura Infantil, “um bom texto de literatura interessa não só às crianças como também aos jovens e adultos” (2010, p.189). Tal observação assegura que sempre que a história contida no livro for interessante será capaz de levar a uma reflexão e, até mesmo, de gerar mudanças do lado de dentro de cada um e, para tanto, não importa a idade, mas sim a qualidade do texto.

Em tempos de pandemia quem escolhe um livro para ler, seja ele qual for, dá a si próprio a oportunidade de volitar, de sair, a partir do pensamento e da imaginação, da sua condição de “confinado”. Aliás, pode-se até dizer que parte da humanidade sequer percebia que já vivia confinada em seus trabalhos, no dia a dia em trânsito, na falta de tempo para a família e para o lazer, muito antes da obrigatoriedade de isolamento social…  E, apesar de não se darem conta, muitas pessoas já estavam acostumadas a “cultivar confinamentos” diariamente.

Foi com a chegada de um vírus letal que tudo mudou de rumo e assim, esse “tal confinamento ‘pulou’… pulou para dentro das próprias casas. E junto com ele veio a necessidade de se encontrar uma forma de aliviar o medo, de minimizar a angústia e de mitigar a indecisão que passou a habitar o íntimo das pessoas. Perguntava-se o que fazer nesse tempo ou com esse tempo. Além de executar os trabalhos remotos, os afazeres domésticos ou de assistir os filmes, as séries e os noticiários na televisão.

Foi em meio nesse furacão de emoções e indefinições que surgiu a oportunidade de leitura, isto é, de abrir um livro, na busca de encontrar um caminho para uma mudança de olhar sobre se deixar ou não confinar, ou seja, sobre se deixar ou não se aprisionar dentro da própria casa e isso não tem a ver com desrespeitar os protocolos de segurança saindo de casa sem necessidade, mas sim de se sentir livre a partir da leitura de um livro.

E, de repente, o livro tornar-se um instrumento de libertação para muitos que o descobriram nesses tempos, haja vista que ele possui o poder de tirar as pessoas do lugar comum, convidando-as a visitar outros horizontes, despertando novos olhares, trazendo novas ideias, demonstrando novos mundos e fomentando novas possibilidades de enfrentamento para as adversidades. Tornou-se então “[…] possível ficar em casa e voltar a ter tempo para ler um livro e passar mais tempo com os filhos” (SANTOS,2020).

E se os adultos aprenderam a “escapar” do confinamento por meio da literatura, quem dirá as crianças quando lhes é dada a oportunidade de ouvir histórias, uma vez que possuem, intrinsicamente, uma capacidade imensa de imaginar e um lado lúdico pronto para ser estimulado.

Dentro desse contexto, é preciso ter consciência da importância de se contar histórias para as crianças que, nesse momento, estão longe da escola… da convivência física com parentes e amigos(as)… impedidas de participar de brincadeiras diversas que exigem, por natureza, o contato físico. Pode-se assim imaginar, que se este período não está sendo fácil para os adultos, quem dirá para elas. Porém, se os adultos apenas se preocuparem, de nada adiantará, pois é preciso que façam um movimento capaz de minimizar as angústias dos(as) pequenos(as) e é aí que entra a literatura infantil como um alívio, uma vez que ela possui a arte de encantar, de encorajar e de enfrentar os obstáculos com otimismo e esperança.

Neste caso, pode-se observar a literatura infantil como um caminho de libertação, pois ao se contar histórias para as crianças se faz uso das “palavras”, que podem se tornar um recurso “terapêutico” nesses momentos de isolamento. Mesmo porque, as palavras não consistem apenas em ler a narrativa, mas também em conversar e refletir sobre o enredo após a realização da leitura, associando-o à vida.

É desta maneira que a literatura infantil pode tornar-se um alívio, uma vez que é a partir da leitura do adulto que a criança entrará em contato com o texto e com os personagens, indo ao encontro da narrativa que lhe dará espaço para apreciar, para posicionar-se diante dos fatos ali descritos, para construir novos saberes, enfim será o momento em que ela realmente conquistará a liberdade trazida pela leitura.

Quando se traz a literatura para dentro de casa, se proporciona um espaço de discussão da experiência humana no ambiente familiar, uma vez que as metáforas contidas nos textos permitirão relacionar a ficção com realidade, ampliando, dessa forma, a consciência e o olhar. Nesse universo, adultos e crianças refletem juntos, realizando o exercício de falar e ouvir e, sobretudo, de realmente desfrutarem de momentos inesquecíveis de convívio e de aprendizado.

Referências

CORSINO, Patrícia.  Literatura na educação infantil: possibilidades e ampliações. In: Paiva, Aparecida; Maciel, Francisca; Cosson, Rildo (Coord.) Literatura: ensino fundamental. Brasília: MEC/SEB, 2010

CORSINO, Patrícia.  Literatura na educação infantil: possibilidades e ampliações. In: PAIVA, Aparecida; MACIEL, Francisca; COSSON, Rildo (Coord.) Literatura: ensino fundamental. Brasília: MEC/SEB, 2010. p.183-204.

SANTOS, B. S. A cruel pedagogia do vírus. Coimbra: Almedina, 2020. E-book.

*  Doutora em Educação pela Unicamp, professora da Faculdade de Educação da UEMG e Assessora Pedagógica da Editora Bom Bom Books. Acredita que a literatura abre portas para a sensibilidade, para a doçura e para a beleza que existe dentro do ser humano. Por isso, é apaixonada por sua profissão, por seus(as) alunos(as), pela leitura, pela escrita e pela literatura infantil.

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