“Sinto o que conto Contos que sinto”

O projeto “As emoções sob diferentes olhares” deu origem a um livro com nove histórias e um conto especial para ajudar crianças a expressarem sentimentos na escola, na família e a interagirem melhor com a sociedade. Foi escrito por nove mulheres comprometidas com a literatura infantil e educação

 

 

A idealizadora do projeto “As emoções sob diferentes olhares”,  que deu origem ao livro “Sinto o que conto Contos que sinto”, a psicóloga Maria Vilela George explica as origens da sua iniciativa:

“Eu moro na Flórida, USA, mas meu trabalho como psicóloga e profissional da área organizacional é feito para o Brasil. Em março de 2020 fui para São Paulo para lançar um projeto que desenvolvo sobre as emoções baseado no livro escrito por mim, “O laço que virou Abraço”, e o jogo da memória “Lumen Kids – Descobrindo as Emoções”. Este material é destinado aos pais, professores e profissionais que trabalham com pessoas com o principal objetivo de fomentar a interação do adulto com a criança.”

“Entretanto, em março o mundo parou. Ao invés de ficar no Brasil por 40 dias, fiquei apenas nove. Voltei para a Flórida desolada, pois fiz um alto investimento na produção do material e com a viagem. No avião vinha pensando que minha intenção de unir as pessoas, através das emoções, tinha ido por água abaixo. Mas, conversando com a pessoa que estava na poltrona ao lado, comentei sobre como o mundo vivia uma única história e cada um com sua própria visão das emoções envolvidas. Neste momento, me veio um insight de unir diferentes pessoas para falar das emoções. E foi aí que tudo começou.”

Maria Vilela George: Nosso trabalho visa levar histórias até as pessoas para que estas reflitam e falem sobre suas emoções de uma forma leve e lúdica” – Foto: Rede Social FB

 

“Nascia o projeto “As emoções sob diferentes olhares” que tem por objetivo juntar diversas  pessoas para falar sobre emoções através da escrita de histórias infantis, cada uma com seu próprio olhar sobre o assunto. Para a produção do livro “Sinto o que conto Conto o que sinto”, reuni um grupo de nove mulheres diferentes entre si: a Alyssa Tomiyama, com 12 anos na época, e uma avó, Maria Beatriz Marinho dos Anhos, com mais de 60…”

“Todas as mulheres do grupo são pessoas incríveis e com talento para sentir  emoções e traduzi-las em histórias. Um ponto bem bacana deste grupo é que, além das histórias individuais, escrevemos um conto conjunto – reunimos as personagens de cada conto numa única história. Foram nove meses de gestação e, em 16 de dezembro do ano passado, lançamos um livro pela Editora Adonis: “Sinto o que conto Contos que sinto.”

“Agora, depois de dois meses do lançamento, já estamos cogitando a segunda edição. Tudo isso como resultado do trabalho conjunto de nove mulheres e do acreditar que, mesmo num ano de pandemia, num país que não tem a leitura como prioridade, poderíamos lançar um livro com sucesso.”

Segundo Maria Vilela, este projeto pretende chegar até as escolas para o professor trabalhar com os alunos cada um dos contos do livro. Espera-se que a criança leve esse conhecimento para casa, compartilhe com os pais e outros para formar uma teia de interligações, além de mais abertura para falar sobre as próprias emoções. Cada um do seu jeito.

Os lançamentos de livros não devem parar. Os planos do projeto “As emoções sob diferentes olhares” vão prosseguir com a criação e redação de outras histórias infantis elaboradas por outros grupos como o de idosos, crianças e homens. “Nesse livro que já lançamos, escrevemos uma oficina em cima do conto conjunto. Assim, a escola que adota nosso livro recebe a oficina que pode ser adaptada de acordo com suas necessidades.”

No caso de “Sinto o que conto Contos que sinto” a seleção das oito autoras, além de Maria Vilela George, se deu da seguinte forma: “Desde o início eu quis juntar pessoas de diferentes idades, profissões, estilos de vida. Porém, com uma coisa em comum: o gosto pela leitura e escrita. O grupo era composto por mais pessoas, mas reduziu-se à nove mulheres.  O único homem do grupo é o super criativo ilustrador, o José Luiz Gozzo Sobrinho”.

Histórias e autoras

As mulheres que compõem o grupo são de Campinas (SP): a Elaine, que é Nutricionista; a Váléria, Fonoaudióloga; Cibele, Pedagoga. Da cidade de Ourinhos (SP), a Adriana que é pedagoga; do Rio de Janeiro, a Flavia, que é formada em Direito; de Belo Horizonte, a Maria Beatriz que é Psicóloga; e de Americana (SP), a caçula do grupo, Alyssa, que é estudante e booktuber. A Rossane, Psicopedagoga, vive em Boston,  Estados Unidos, e Maria Vilela, na Flórida. Todas as reuniões foram feitas online e a maioria do grupo nunca se encontrou pessoalmente.

O livro “Sinto o que conto Contos que sinto” traz as seguintes histórias e autoras:

A estrela que quase se apagou – Adriana Bordinhão Vicioli

O bilhete da saudade – Alyssa Tomiyama

O menino e o medinho – Cibele Madai Valderramas Ignácio

O quartinho do vovô – Elaine Alcântara

A gigante visitante – Flávia Bruno

Tocando estrelas – Maria Vilela George

O menino arco-íris – Maria Beatriz Marinho dos Anjos

A menina com medo e o carrapato assustado – Rossane Correia

Luke, o robô do afeto – Valéria Maria Fusch Ferreira

O quartinho das emoções – de autoria em conjunto das nove autoras

Todo esse empenho visa levar as histórias até as pessoas para que estas reflitam e falem sobre suas emoções de uma forma leve e lúdica. Na opinião da psicóloga Maria Vilela, “os contos e histórias têm um poder transformador na vida das pessoas: as crianças sentem as emoções, mas muitas vezes não sabem nomear o que sentem. Assim, através das histórias, elas vivenciam as emoções agradáveis e não agradáveis sem o julgamento dos adultos. E no final, elas sabem que tudo acabará bem. Assim, é permitido e seguro sentir medo, raiva, tristeza. Já os adultos, vivenciam a magia dos contos e se reconectam com suas emoções através deste mundo encantado. Esta experiência se torna gostosa de vivenciar. Quantos de nós fomos tolhidos no sentir as emoções?”

“O menino arco-íris” de Maria Beatriz

Maria Beatriz: “Que a literatura infantil seja um instrumento de prazer e oportunidade de encontrar respostas para as mais diferentes questões. Um alimento para a alma” – Foto: Divulgação

 

Uma das autoras de “Sinto o que conto Contos que sinto” é a psicóloga Maria Beatriz Marinho dos Anjos. Para ela, foi uma experiência muito rica  participar do projeto. “Conhecer e trabalhar com todas essas mulheres exigiu troca, parceria e aprendizagem, já que temos idades e formações diferentes. Todas as etapas foram construídas em conjunto com todas opinando em tudo. O que resultou num lindo livro e em muito crescimento.”

A história de autoria de Maria Beatriz é “ O menino arco-íris”, cuja inspiração vem de um relato, uma lenda, de que um monge ao morrer se transformou em um arco-íris. “É um convite a olhar mais para as crianças, para o que elas sentem e também olhar para o mundo à nossa volta. No propósito de educar, muitas vezes, o adulto cerceia a expressão dos sentimentos das crianças principalmente aqueles considerados menos nobres”, explica a autora.

Em seu trabalho, ela incentiva a ajudar as crianças a identificar e expressar seus sentimentos para desenvolver saúde emocional e  principalmente na família isso deve ser exercitado. “É o adulto que nomeia para a criança o que ela está sentindo. E em cada adulto há uma criança interior que traz as suas marcas emocionais que foram inscritas na infância. A identificação dos sentimentos é importante. É necessário, por exemplo, entender que estar com raiva é diferente de estar triste. Mas nem toda expressão é saudável: ‘Você está com raiva, mas não pode quebrar seu brinquedo ou bater em fulano’. O adulto lidará melhor com as crianças quanto melhor lidar com seus próprios sentimentos”, destaca.

Em relação à raiva, citada como exemplo, é comum que esse estado da criança desperte a raiva do adulto por não conseguir contê-la e ele passa a reagir a isso gritando, batendo ou exercendo um poder que não servirá mais quando a criança crescer, pois ela desafiará esse poder. “É importante que se reconheça que os sentimentos são atributos de todo ser humano. Cada um tem sua forma e intensidade de experimentá-los. Eles vêm e vão. E está tudo bem. O que não está bem é reprimi-los ou taxar uma criança por uma expressão inadequada.”

Nesse sentido, o nosso livro “Sinto o que conto Contos que sinto” é muito útil para facilitar a interação entre adultos e crianças, na leitura conjunta, na identificação do sentimento expresso em cada história e através de uma conversa lúdica, acrescenta Maria Beatriz.

Sobre a escola, a psicóloga frisa que além do papel de transmitir conteúdos acadêmicos serve ao propósito educacional, pois é onde o convívio social se intensifica na infância. Observar as formas de expressão das crianças, seu estado de humor, suas alterações de rendimento são termômetros para ajudar na educação emocional. Na escola, rodas de conversa, oficinas, desenho, escrita, atividades artísticas em geral podem facilitar a expressão de sentimentos. É preciso que o olhar esteja voltado para além do rendimento acadêmico.

“A narração de histórias e a literatura infantil são dois instrumentos muito importantes. A contação de histórias desenvolve a habilidade de ouvir tão necessária na comunicação. A literatura infantil oferece recursos para o desenvolvimento da leitura e escrita, a compreensão do texto e desenvolve a imaginação. Essas duas ferramentas permitem que a criança se identifique com os personagens e, através deles, encontre caminhos para a expressão do seu ser (sem se sentir ameaçada) através do lúdico.”

Maria Beatriz explica que o livro “Sinto o que conto Contos que sinto” foi proposto para crianças, a partir de cinco anos, mas ele está destinado a todas as idades, pois todos temos sentimentos. O livro pode ser explorado de acordo com a idade e a compreensão do leitor. Mostra-se particularmente rico para ser lido pelo adulto junto com a  criança, intermediando o diálogo. Pode ser utilizado com crianças não alfabetizadas através da contação pelo adulto. E da forma como a criatividade permitir a sua exploração sempre no sentido de ajudar a identificação e a expressão dos sentimentos. Nas próprias histórias aparecem formas de lidar com as situações.”

“Como dissemos antes sobre a criança interior, o livro toca também essa criança existente no adulto e nas suas memórias afetivas. Ainda tem se mostrado atraente para os pequeninos pelas ilustrações coloridas e alegres de José Luiz Gozzo Sobrinho. Na minha ousadia diria que  agrada a crianças de zero a 100 anos.

O livro tem 34 páginas, com nove histórias, custa R$44,99 e pode ser comprado no site da editora Sinto o que conto, contos que sinto | Editora Adonis. Também pode ser adquirido direto com as autoras através do email sintooqueconto@gmail.com e, em Belo Horizonte, na livraria Opus, Rua André Cavalcanti, 583, no bairro Gutierrez.

Sobre o livro “Sinto o que conto Contos que sinto” leia também a matéria abaixo com entrevista de das autoras Alyssa Tomiyama.

“Alyssa e a magia da leitura”

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