Entrevista exclusiva: Raphael Draccon e seus fantásticos “Dragões de Éter”

Ele é escritor, roteirista da Netflix e pai da pequenina Avalon Draccon Munhóz Albuquerque. Como escritor, domina o gênero da literatura fantástica adotado na saga “Dragões de Éter” que registra milhares de livros vendidos. No final do ano passado, lançou o quarto volume, através da Editora Melhoramentos: “Estandartes de Névoa”. Como roteirista da Netflix, conquistou milhões de espectadores com O Escolhido e Cidade Invisível. O brasileiro Raphael Draccon mora nos Estados Unidos, trabalha em parceria com a esposa Carolina Munhoz e concedeu entrevista exclusiva para o Blog Conta uma História para explicar para nós sobre a literatura fantástica e seu novo livro.

Raphael Draccon: “Espero que possam acompanhar a conclusão de Dragões de Éter – Estandartes de Névoa, lançada em uma edição deslumbrante da editora Melhoramentos, concluindo essa saga que me permitiu viver de literatura e me trouxe até aqui. Sonhem conosco! – Foto de Fernanda Torres/Divulgação

 

Quem lê Raphael Draccon e sua literatura fantástica, povoada de criaturas místicas, reis, fadas e bruxas, certamente imagina que seus influenciadores vieram desse universo mágico. Mas não é bem assim. Draccon, um dos pioneiros da literatura de fantasia no Brasil, com Dragões de Éter, tem influências, no mínimo, inusitadas.

De origem humilde, enraizada no Morro do Borel, no Rio, ele viu aos seis anos seu primeiro filme do lutador de artes marciais e ator chinês Bruce Lee – que também desafiou barreiras e enfrentou muitas dificuldades para chegar ao topo. Draccon jurou que um dia seria faixa preta, escritor e trabalharia com o cinema como seu ídolo. Aliás, chegou a tornar-se faixa preta em Taekwondo e foi professor de artes marciais.

Nessa travessia, Draccon absorveu, além das técnicas marciais, os conceitos espirituais que acompanham esses esportes e que se tornaram parte da sua própria jornada espiritual e a de seus personagens. “Bruce Lee foi minha primeira influência de vida”, conta.

Já o clássico Jorge Amado, um dos maiores escritores da literatura brasileira, foi um autor que o jovem Draccon admirava tanto pelo conteúdo de sua obra quanto pelo estilo da escrita. Seu livro predileto era Capitães da Areia, uma das fontes de inspiração para a construção da escrita de Dragões de Éter, em que a narrativa é feita conforme a ótica de cada personagem. Por isso, Draccon acredita que toda a sua vida está umbilicalmente atada à literatura e à jornada espiritual.

“Estandartes de Névoa” completa a saga de “Dragões de Éter” formada por “Caçadores de Bruxas”, “Corações de Neve” e “Círculos de Chuva”, após um intervalo de mais de 10 anos e depois de uma cobrança constante dos leitores, que não se conformavam com o fim da saga e queriam mais respostas sobre o destino dos personagens.

Draccon, que havia partido para outros projetos, inclusive como roteirista da Globo e da Netflix, decidiu – depois de retomar os direitos sobre a obra – atender aos pedidos dos fãs e se debruçar sobre os novos acontecimentos em Nova Ether.

Os personagens ficaram mais maduros – a história recomeça cinco anos depois de “Círculos de Chuva”- assim como os próprios leitores. Estes, que eram basicamente adolescentes quando começaram a ler os livros, também se tornaram adultos, assim como o próprio escritor, que está agora com 39 anos, casado com a também escritora Carolina Munhoz, pai da pequena Avalon, de seis meses, e morando em Los Angeles, EUA, após receber um Green Card do governo americano por sua carreira como escritor.

“Estandartes de Névoa”, com 512 páginas, recebeu um tratamento especial da Melhoramentos, com uma caprichada edição, que pode ser vendida isoladamente ou em um box especial para quem quiser ter todos os livros, que conta com o mapa de Nova Ether como brinde. O tratamento gráfico é o mesmo para todos e os textos antigos revistos pelo próprio autor. A tetralogia ganhou novas capas desenhadas pelo ilustrador Walmir Archanjo.

Bebê Literário

A pequena Avalon Draccon Munhóz Albuquerque, de três meses, é um legítimo bebê literário. Ela é filha Raphael Draccon e Carolina Munhóz e nasceu em meio aos preparativos do lançamento do esperadíssimo quarto volume da série “Dragões do Éter” prestes a ser publicado pela Editora Melhoramentos.

O casal de escritores e roteiristas e a pequena são a verdadeira família da quarentena, tendo a gravidez e o parto durante a pandemia na cidade de Los Angeles, onde moram e trabalham como roteiristas e produtores após ganharem um Green Card por suas carreiras. Avalon Draccon recebeu o nome criativo pela mãe ser apaixonada pelo livro “As Brumas de Avalon”, onde conta a visão feminina das lendas de Rei Arthur e da ilha das fadas e o pai ser fascinado pelo “Rei do Inverno”, livro que conta uma visão masculina da mesma lenda.

Ela é a primeira Draccon oficial por utilizar o sobrenome artístico do pai como parte do seu. Além de filha de escritores, que se conheceram após Paulo Coelho aproximar os autores de fantasia em 2010, a bebê tem como madrinha a escritora best-seller do New York Times Alyson Noël (série “Os Imortáis”) e o casal compartilhou a notícia da gravidez pela primeira vez para a escritora do best-seller “Legend” Marie Lu. Mais literário, impossível.

A pequena Avalon Draccon recebeu o nome criativo pela mãe ser apaixonada pelo livro “As Brumas de Avalon” e o pai ser fascinado pelo “Rei do Inverno”, que conta uma visão masculina da mesma lenda – Foto: Divulgação

 

A entrevista

Rosa Maria: A saga de sua autoria “Dragões do Éter”, pela Editora Melhoramentos, é classificada no estilo de literatura fantástica. Como analisa esse estilo literário?

Raphael Draccon: Considero a literatura fantástica o estilo narrativo mais antigo do mundo, pois desde a época dos homens das cavernas eles já desenhavam as histórias fantásticas de seus deuses e das bases de suas culturas nas paredes para serem passadas de geração a geração. É um estilo que fala com pessoas de todas as idades, pois funciona tanto como escapismo e aventura, quanto como base para diálogos profundos sobre a natureza e os sentimentos humanos.

RM: Como analisa a literatura fantástica na contemporaneidade? Que características foram agregadas com o passar dos séculos?

RD: A fantasia costuma ser utilizada como metáfora do período em que cada obra é escrita. Com o passar do tempo, novos elementos, como a tecnologia, por exemplo, foram adicionados, com a fantasia representando a importância que ela tem na nossa vida atualmente, além do que significa crescer com ela hoje em dia. No período de grandes guerras se encontravam muitas histórias de batalhas de exércitos e monstros. Nos períodos de hoje de YouTubers se encontram muitas histórias de adolescentes ganhando poderes e buscando se tornarem populares até entenderem a responsabilidade disso, que por sua vez simboliza a passagem para a vida adulta. Como dito, é um espelho da sociedade.

RM: Você adotou a literatura fantástica ou sua trama caminhou naturalmente para o estilo?

RD: Foram os livros que me ensinaram a ler e me fizeram ter vontade de ser um escritor. Do Sítio do Pica-Pau Amarelo ao O Senhor dos Anéis, não havia estilo que conversasse mais comigo do que esse. Através de histórias envolvendo elfos, cavaleiros e dragões eu lia sobre honra, coragem, desapego, sacrifício, amor. Não havia outra escolha.

RM: Quais as diferenças que você observa entre o fantástico e o suspense?

RD: O fantástico não necessariamente tem a intenção de te surpreender, mas te deslumbrar, ou refletir através de metáforas. O mais próximo dele com o suspense seria o terror, que quer te surpreender pelo susto ou pelo choque, mas também utilizando esse terror como metáforas dos grandes medos da humanidade.

RM: Por que o jovem se identifica tanto com o estilo?

RD: Porque o jovem é um sonhador e o sonho é a base da fantasia. Todo jovem já sonhou ser um herói ou heroína, viver em um mundo diferente do de sua rotina, viver uma grande aventura. E a fantasia lembra a ele que ele pode viajar até onde ele quiser, o que acaba sendo um poderoso motivador para que ele realize seus sonhos ou supere suas dificuldades na vida real.

RM: Gostaria que pinçasse algumas situações de “Dragões do Éter” que ilustram bem a literatura fantástica e suspense.

RD: Quando os irmão João e Maria Hanson estão famintos e avistam uma casa que parece feita de doces, isso é fantasia. Quando eles começam a comer sem perceber que na verdade estão comendo vidro como se fosse passas, ou bebendo terra como se fosse suco, isso é terror. Quando eles escutam uma voz desconhecida sussurrando para eles não se preocuparem, pois ela vai encontrar um jeito deles pagarem por aquilo, isso é suspense.

RM: Qual será o futuro da sua saga em termos de continuidade? Vem algo além do quarto volume?

RD: Por enquanto não há planos, pois o arco dos personagens principais foi concluído. A questão é que o cenário de Nova Ether permite infinitas histórias, desde que se salte no tempo para frente ou para trás, mostrando a história de gerações passada ou futuras. Mas isso vai mais da vontade dos leitores sobre o quanto gostariam de ler mais histórias no cenário.

RM: E quais são seus projetos de literatura para este ano ou os próximos?

RD: Ultimamente ando focado nos projetos audiovisuais, algo que venho plantando há muitos anos. Com a mudança para os EUA e a parceira com minha esposa, Carolina Munhóz, nosso trabalho audiovisual tem ganhado um reconhecimento bacana tanto no Brasil quanto fora e estamos aproveitando esse momento para tirar do papel alguns projetos que sempre sonhamos, incluindo adaptações das nossas obras literárias.

RM: Você produz para TV e cinema e sua Cidade Invisível é um grande sucesso. Do que gosta mais de escrever: livro ou roteiros que são transformados em filmes e séries?

RD: Livros são autorais, envolvem menos pessoas e existe um controle maior. Além disso, o livro marca mais o leitor, pois é uma relação mais íntima, já que necessita da mente do leitor para tomar forma sem lhe entregar pronto. O preço é que eles exigem muito mais energia, é um trabalho bem solitário, e tomam muito mais tempo da vida do escritor. Roteiros são mais rápidos, é um trabalho de equipe e o resultado final nunca vai ser exatamente igual ao que estava escrito, pois o processo envolve a união da visão de diversos outros profissionais. Mas eles alcançam muito mais pessoas. Eu amo os dois processos, tanto que, desde os vinte anos sempre escrevi um livro e um roteiro por ano até minha primeira publicação.

RM: Você tem uma parceira muito especial: a sua esposa. Como o casal se divide na produção dos textos e tramas?

RD: No nosso caso, nós temos um sistema, que funciona bem. Primeiro nós fazemos juntos os “bullet points” da história, em outras palavras: nós decupamos a história do início ao fim em pequenos tópicos com os principais acontecimentos. Terminada essa fase, a Carol costuma fazer o que chamamos de “bruto”. Ela deixa a cena preparada, escreve um diálogo inicial, e deixa claro o objetivo daquela cena, como um guia. Então eu faço o que ela chama de “a mágica”, lapidando a cena e os diálogos, que voltam pra ela, que sugere mais alguma coisa ou aprova o resultado final.

(Foto em destaque de Wagner Carvalho – Divulgação)

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