“Fronteiras”

Em romance lançado pela FTD Educação e dedicado aos jovens, a escritora Marcia Kupstas transfere para as personagens Letícia e a sobrinha Maurícia, a experiência real que viveu com sua filha: a aventura de ir para a Amazônia, do lado do Acre, para viajar de balão, além de visitar outros sítios arqueológicos peruanos, para conhecer geoglifos e comprovar sua tese de que os mesmos foram construídos por extraterrestres.

“Fronteiras”, acredito, deve estar fazendo sucesso entre os jovens. E melhor que isso: esclarecendo de forma leve e bem aventureira muitos enigmas da natureza de dois países citados no livro: Brasil e Peru. O que é um geoglifo? Como a Arqueologia trata dessas formas? Onde estão presentes? Quem construiu os geoglifos? Quantos existem por aí? A Ufologia acredita que foram os extraterrestres. A ciência concorda?

Esses são temas que parecem pertencer apenas aos livros didáticos e serem debatidos especialmente em salas de aula. Mas a escritora Marcia Kupstas, com toda a sua experiência de escrever para o leitor juvenil (ela já publicou cerca de 170 livros e a maioria é destinada para essa faixa etária) trouxe a abordagem para a literatura de uma forma familiar, agradável e curiosa que faz o leitor se colar no livro até a última página. E certamente até aprender sem ao menos perceber que recebe, a cada página, muita informação preciosa.

Que adolescente não gostaria de receber um convite inusitado, em pleno início das férias, para sobrevoar de balão a Floresta Amazônica e desvendar a origem dos misteriosos geoglifos, aquelas grandes figuras geométricas desenhadas na areia ou escavadas na terra? Maurícia, de 14 anos, não gostaria. Pelo menos até a aventura começar.

De início, a estudante é surpreendida pelo convite de sua tia Letícia, como uma oportunidade para a jovem sair do sofrimento de depressão e ansiedade em que se encontrava, causada pela mudança para o Ensino Médio e por outras responsabilidades da adolescência. A tia Letícia, por sua vez, é ufóloga e convicta de que os geoglifos existentes na Amazônia brasileira, especialmente, em sítios arqueológicos do Acre, são herança de extraterrestres. Ela acredita que na viagem vai encontrar dados suficientes para provar sua tese.

“Terminaram o lanche. Maurícia, aos poucos, se via contagiada pelo entusiasmo da tia. Nunca pensou em viajar para o Acre tão longe de São Paulo! Voar de balão, participar daquela pesquisa inusitada da ufóloga. Poderia postar tudo aquilo no seu perfil. Os colegas teriam mais assuntos para comentar sobre ela, além de seu comportamento estranho. Era uma aventurosa viagem de férias para compartilhar”…

Se a adolescente se sentiu motivada para aceitar o convite de viagem, ao calcular que teria novidades extraordinárias para exibir nas redes sociais, o interesse da tia Letícia já era bem diferente e um tanto esdrúxulo para qualquer um que dele tomasse conhecimento.

“Essas linhas formam desenhos nas areias do deserto de Nazca, no Peru. São conhecidas desde os anos 1930, quando os aviões começaram a sobrevoar a área. Pois bem, geoglifos são isso. O certo é dizer ge-o-gli-fo, com “ô” fechado e átono, e não geÓglifo. Os geoglifos são desenhos imensos, riscados na areia ou escavados na terra, com imagens de círculos, quadrados, figuras geométricas visíveis apenas de grande altitude. Eles foram feitos há centenas de anos e permanecem nítidos até hoje… Nós, ufologistas, temos uma teoria que explique a razão desses desenhos”.

Tia e sobrinha deixam São Paulo e embarcam rumo a Rio Branco, no Acre. Do norte brasileiro, seria fácil chegar a Puerto Maldonado, no Peru, para uma viagem de balão com o objetivo delas visualizarem os geoglifos e conhecerem bem de perto suas origens. Como sempre acontece nesse tipo de viagem, as surpresas surgem: umas nada boas; outras maravilhosas.

Numa combinação das duas situações, Letícia e Maurícia estenderam a viagem até Cusco, no Peru. Fizeram muitas descobertas com arqueólogos brasileiros, que trabalham na Amazônia, mas nem todas alegraram o coração da ufóloga. Afinal, cientistas necessitam de dados comprobatórios antes de acreditarem em qualquer tipo de tese.

Foram tantas as descobertas das aventureiras que eu me surpreendi, durante a leitura, de saber que existem “489 geoglifos no Acre; uns 80 no Amazonas; mais uma centena entre Rondônia e Bolívia; e o número cresce a cada dia, podendo já ter chegado aos 800 geoglifos.”

A presença de tantos arqueólogos, as pesquisas em andamento e a existência de inúmeros achados _ tudo envolto pelo manto da ciência _ tornava a tese da ufologista folclórica. Seu interesse de provar o contrário, fez com que esticasse mais e mais a viagem, o que dá ao leitor a chance de conhecer alguns sítios peruanos como os de Tipón, Pikillacta, Oropeza, Chinchero, Urubamba, Moray e Sacsahuaman.

Tia Letícia era incansável em debater sua tese com os cientistas e até se tornou voluntária num dos projetos brasileiros. Maurícia, por sua vez, conseguia se manter longe da depressão e das crises de pânico. Teve muitas oportunidades de interação com os arqueólogos e, em alguns momentos da história, até debateu sobre suas observações com a tia.

A aventura das duas chegou ao fim de uma forma inversa da que começou: Maurícia, no comando, e Letícia observando a sobrinha, que encerra a história, oferecendo para a tia uma tese ufologista bem mais consistente e crível. Qual será? E tem mais: a jovem retorna para São Paulo apaixonada, com um volume de informações para carregar em suas redes sociais por muito tempo e bem esquecida das crises de ansiedade, depressão e pânico.

Para a autora, Marcia Kupstas, esse é um romance de viagem que abre espaço para o autoconhecimento – Foto: Divulgação

 

“O público jovem recebe de forma positiva personagens com os quais se identifica. Para que isso ocorra, é importante que o leitor consiga se enxergar no universo de referência em que se inscrevem os personagens assim como compartilhar de suas esferas de ação. Além disso, esse leitor em formação espera que os protagonistas sejam capazes de transformar as circunstâncias indesejáveis em que se encontram para superar as provas pelas quais têm de passar”, explica Isabel Lopes Coelho, gerente editorial de Projetos Especiais e Literatura/Paradidáticos da FTD Educação.

A  autora de “Fronteiras”, Marcia Kupstas, nasceu na cidade de São Paulo, em 1957. Cursou Letras na Universidade de São Paulo (USP) na década de 1980. Em 1984, quando lecionava Técnica e Metodologia de Redação no Colégio Bandeirantes, em São Paulo, começou a escrever contos para a revista Capricho. Mais tarde, esses contos foram reunidos no livro Histórias da turma.

Seu livro Crescer é perigoso, escrito em 1986, ganhou o prêmio revelação Mercedes-Benz de Literatura Juvenil em 1988. Ao longo de mais de trinta anos de carreira, já publicou cerca de 170 livros, a maioria para o público jovem. Entre eles se destacam: É preciso lutar! (Prêmio Orígenes Lessa); Um ano de histórias; Profissão: jovem; Eles não são anjos como eu (Prêmio Jabuti, 2o lugar); Guerreiros da vida; Clube do beijo; A namorada de Camões; Uma amizade de ouro.

Segundo ela, “Fronteiras” é um romance de viagem. O retrato de uma Amazônia pré-histórica, uma pesquisa sobre alienígenas e a grande aventura de tia e sobrinha, estreitando amizade e abrindo espaço para o autoconhecimento”.

O livro é recomendado a partir do 9° ano, tem 224 páginas, custa R$ 54,00. Ele traz ainda um rico Posfácio escrito por Eduardo Góes Neves, professor de Arqueologia da Universidade de São Paulo.

Continue lendo

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *