Como matar a literatura – Tragédia em 3 atos

Leo Cunha *

CENÁRIO: Brasil, 2021, tempos de pandemia

1° ATO – O governo decide aplicar uma taxação de 12% sobre cada livro vendido, o que aumenta o preço de capa em cerca de 20%.

2° ATO – Uma escola cria e distribui um arquivo repleto de PDFs de obras literárias, sem nenhum pagamento de Direitos Autorais e chama o resultado de “Biblioteca Virtual”. Sem se dar conta de que se trata de pura pirataria, milhares de pessoas repassam os PDFs freneticamente pela internet. Isso aniquila a fonte de renda dos escritores, cujo “salário” é composto pelos parcos Direitos Autorais (que variam de 5 a 10% do preço de capa).

3° ATO – Para arrematar, a pandemia cancela a maioria dos eventos literários que convidavam escritores para palestras, mesas-redondas, oficinas etc. Os eventos que sobraram, quase todos, não contemplam nenhum cachê para os palestrantes.

EPÍLOGO – O escritor acorda transformado em barata. Está amarrado ao chão por uma multidão de seres minúsculos. Ataca moinhos de ventos (uivantes). Caça uma baleia indomável. É vigiado 24 horas por dia por um sistema opressor. Voa em direção ao sol e tem suas asas derretidas. Ouve um corvo grasnar “nunca mais”. Morre sem ver o sucesso de seu prodigioso emplastro.

FIM. Música triunfal. Aplausos entusiasmados. Mas não tem mais ninguém para ouvir.

Escritor, jornalista e professor

 

 

“Infinitos” é o primeiro lançamento literário de Leo Cunha em 2021, pela Editora Melhoramentos, numa parceria com o Alexandre Rampazo. A história de “Infinitos” é inspirada num diálogo que teve com a filha Sofia (então com 5 ou 6 anos) _ na foto com o pai_ e também inspirada no amigo Maurício Guilherme, com sua coleção de infinitos.

 

Em destaque, na capa, Leo Cunha em foto de Fernando Rabelo / Divulgação

 

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