Um reconto para dizer sobre as mazelas

Além de escritora e especialista em literatura infantil, Sandra Bittencourt é uma contadora de histórias que, assim como os “griôs” africanos, não deixa o fio das histórias se romper, aqui, entre os mineiros. Autora de “A trapaça da serpente”, ela comemora junto com o Grupo Editorial Lê, que lançou o livro, a distinção de o mesmo ter recebido a Distinção Cátedra Unesco de Leitura Puc-Rio 2020. Em entrevista exclusiva para o blog, explica as razões de seu empenho no reconto africano premiado e na importante mensagem que o mesmo tem para a humanidade.

“Que a água seja cristalina / Que a casa seja hospitaleira / E que o mensageiro conduza em paz a nossa palavra.” (Bênção Yorubá)

Sandra Bittencourt: “O livro vem da sabedoria popular das terras distantes. Os contos africanos são narrativas curtas e com linguagem simples, que transmitem ensinamentos e memórias da cultura de vários povos da África” – Foto: Divulgação

 

Rosa Maria: O livro “A trapaça da serpente”, de sua autoria, recebeu o selo Distinção Cátedra Unesco de Leitura Puc-Rio 2020 pela excelência da obra. Como foi receber essa premiação?

Sandra Bittencourt: Uma surpresa! Uma mistura de muitas, muitas memórias afetivas. Passou um filme. Um reconto popular africano, com uma história bem densa: a personagem, uma Jovem de Bom Coração, e uma cobra: uma maneira de dizer sobre as mazelas do abandono e da ingratidão. Eu já não conseguia mais contar e sonorizar, parecia que faltava algo! Chega ela, Denise Rochael, e ilustrou belíssimamente o que minha palavra não conseguia mais contar. Os tons, as imagens fizeram uma costura belíssima! E na certeza do esperançar que possamos receber mais e mais!

RM: A partir desse prêmio, o que você programa para o seu livro?

SB:  Sempre pensei muita coisa para “A trapaça da serpente” como: leitura, narrações, workshops, ateliê da palavra, mas, devido à fase de isolamento social, tudo isso ficou na caixinha de guardar segredos. Inclusive, o livro chegou em minhas mãos no dia 20 de março de 2020, dia do Contador de Histórias, e não tivemos como lançar; Foi o dia em que o mundo parou com a pandemia. Ele é um bebê ainda, mas tenho muitos planos para “A trapaça da serpente” juntamente com a Editora Lê.

RM: Como classifica seu livro: conto africano ou pesquisa sobre um estilo literário da cultura afro?

SB: Ele é um reconto. Vem da sabedoria popular das terras distantes. Os contos africanos são narrativas curtas e com linguagem simples, que transmitem ensinamentos e memórias da cultura de vários povos da África.

RM: De onde veio a motivação para escrever essa versão de “A trapaça da serpente?”

SB: Entender e explicar o mundo e tudo o que nele existe é necessidade inata do ser humano. Ela perpassa todas as culturas e encontra, na literatura, um suporte fundamental, pois é nos contos, mitos e lendas – primordialmente orais, mas que são recontados na voz de quem se dispõe a escrevê-los – que os medos, os costumes, as crenças, as perguntas (muitas ainda sem resposta) e as explicações para a existência de tudo são repassados de uma geração a outra.

Eu sou neta de tropeiro, sou da oralidade. Na minha infância, meu avô trazia a história tenebrosamente; cresci, tornei-me mulher, mãe, fiz da minha profissão a arte de narrar e a história sempre me acompanhando. Um dia, ouvi Inno Sorsy contando a história com elementos diferentes, mas o esqueleto era o mesmo. Ouvi de sua voz, chorei muito, uma mistura de emoção e de orgulho. Meu avô trazia com ele a sabedoria de orelha. Mais tarde, no Tribunal de Justiça, ouço Sandra Lane e pensei: o que será que esta história tem pra mim? E ela sempre vinha. Até que num Encontro Literário, resolvi apresentá-la. Com medo, pois ela exigia de mim a teatralidade da palavra, mexia comigo e, por sorte, Alencar Mayrinck (que foi o principal dirigente da Editora Lê) estava na plateia. Pronto! Amor à primeira audição. A história foi aceita, o público gostou, então, era hora de pensar em colocá-la no papel. E assim foram quase 20 anos para eu parir a Jovem de Bom Coração.

RM: Trapaça é um tema típico da literatura africana? O que significa?

SB: Em “A trapaça da serpente” apresento um reconto que fala sobre uma ‘Jovem de Bom Coração’, assim era conhecida,  e um animal, a cobra. Uma jovem que o próprio nome já diz a que veio, que sempre está a varrer a porta, limpar, tirar as coisas ruins e uma cobra que pede para se esconder dentro dela. Sabe aquela história de engolir sapo? Pois é, aqui se engole uma cobra, que faz promessas, é ingrata, cheia de vaidades. A jovem gesta a cobra até que seu pai retorna e, depois de tempo, não a reconhece e a expulsa de casa. São inúmeros detalhes, um filete d’água feito pelo ‘choro chorado’, um rapaz, uma promessa, a morte. Aqui, apresento os porquês de eles terem determinadas características sejam elas físicas ou comportamentais. É a tradição popular africana tentando explicar a natureza, fazendo proposições que passam longe da ciência. São os griôs contando as histórias de um povo para todos os povos que queiram conhecê-las.

Eu também sou uma griô e convido os leitores a recontarem, após lerem seus (re) contos. Já parou para apreciar um reconto que explica a origem do comportamento de determinados habitantes sejam eles humanos ou animais? Depois, leia em voz alta e tente reproduzir o andar e os diálogos travados pelos incríveis personagens. Afinal, as histórias, principalmente na África, foram feitas para serem contadas e recontadas. Se a ciência nos dá respostas lógicas para todas as perguntas, a literatura – oral e escrita – nos dá fantasiosas, alimentando sempre a nossa imaginação e tornando o tesouro cultural de todos os povos tão rico e vasto.

RM: O que você destaca do seu livro?

SB: O enredo e a tessitura das imagens que vieram trazer uma junção para a narrativa. É difícil falar de filho. Aqui só se permite dizer: “A trapaça da serpente” é um todo!

RM: No Brasil, o que está contribuindo para a popularidade e interesse pelos contos africanos?

SB: A  Lei 10.639/03 propõe novas diretrizes curriculares para o estudo da história e cultura afro-brasileira e africana. O Dia da Consciência Negra é marcado pela luta contra o preconceito racial no Brasil, colocando dentro das escolas a obrigatoriedade da literatura africana e afrodescente, aproximando o leitor para uma diversidade enorme. As relações entre o continente africano e o Brasil aconteceram intensamente por mais de três séculos. Mas, por várias razões, com o fim do tráfico de africanos, houve significativas mudanças na dinâmica desse vínculo. Sob o aspecto legal, somos orientados a incentivar os estudantes a… valorizar a pluralidade do patrimônio sociocultural brasileiro, bem como aspectos socioculturais de outros povos e nações, posicionando-se contra qualquer discriminação baseada em diferenças culturais, classe social, crenças, sexo, etnia ou outras características individuais e sociais… (PCN, p. 7).

Contudo, mais importante do que a lei, deve-se criar situações que  desvendem a contribuição do povo africano para a cultura brasileira, a fim de que os estudantes, além de compreenderem essa importância, disseminem essa verdade incontestável, respeitem e a aceitem.

RM: Recentemente, você  participou de um webinário sobre “O papel do griô na cultura leitora afro-brasileira”. Explique esse tema.

SB: De conversa em conversa, a gente chega lá. Para realizar a proposta, convidamos Lilia Santos, que é bibliotecária do Município de Belo Horizonte, e fez a 4° capa do livro. Precisávamos de alguém do chão da escola para debatermos sobre a temática. Iniciamos explorando a oralidade dos griôs e o que eles trouxeram e trazem para os diversos espaços onde a oralidade chega.

O contador de histórias tem um importante papel nessa difusão. O que seriam dos reis e rainhas sem os griôs, quem iria passar o conhecimento, tomar as decisões? E ninguém nasce griô, se torna, pois precisa possuir muitos valores, como articular a palavra em movimento, saber passar a sabedoria de orelha a orelha, semear a paz, a cultura, os ensinamentos. Nesse dia, queríamos interrogar as informações sobre aspectos relacionados à africanidade, como ela chega principalmente no chão da escola, como é a saída desses livros da biblioteca, a fim de colaborar com a reflexão, dialogar, desmistificar o que entendiam sobre o assunto e qual a contribuição dos africanos para a nossa cultura.

Sem exceção, trouxemos  conhecimentos a respeito desse particular, sempre relacionados ao folclórico (como 22 de novembro, capoeira, samba, feijoada e outros). Para eles, entendido como inferior, exótico, risível ou de valor duvidoso. Ressignificar uma história, dar a ela voz e movimento!

RM: Você inclui contos africanos nas suas narrações de histórias? Quais gosta de contar?

SB: O meu “A trapaça da serpente”, além de “Porque a galinha d’angola tem pintas brancas” de Rogério Andrade Barbosa , “O menino de argila” de Edimilson de Almeida Pereira, “Olukwe – O homem da lua” de Sunny, “Lembranças africanas” (capoeira, jongo, feijoada) de Sonia Rosa, “Ulloma a casa da Beleza” de Sunny, “Okipja” de Sunny e também gosto de trazer os cantos e  bênçãos em Yourubá.

SB: Quero deixar um presente da minha caixinha de guardar segredos. Um presente em forma de história, pois assim trazemos um pouco da nossa história… Um texto belíssimo, chamado “Canção dos homens”. É atribuído à Tolba Phanem, uma suposta poetisa africana que, na realidade, aparentemente não existe de fato. Mas a verdade é que pouco importa quem é o autor. A mensagem é que o deve importar.

“A canção dos homens”

“Quando uma mulher, de certa tribo da África,
sabe que está grávida, segue para a selva com outras mulheres
e juntas rezam e meditam até que aparece a “canção da criança.
Quando nasce a criança, a comunidade se junta
e lhe cantam a sua canção.
Logo, quando a criança começa sua educação,
o povo se junta e lhe cantam sua canção.
Quando se torna adulto, a gente se junta novamente e canta.
Quando chega o momento do seu casamento a pessoa escuta a sua canção.
Finalmente, quando sua alma está para ir-se deste mundo,
a família e amigos aproximam-se e,
igual como em seu nascimento,
cantam a sua canção para acompanhá-lo na “viagem.”

“Nesta tribo da África, há outra ocasião na qual os homens cantam a canção.
Se em algum momento da vida a pessoa comete um crime
ou um ato social aberrante, o levam até o centro do povoado
e a gente da  comunidade forma um círculo ao seu redor.
Então lhe cantam a sua canção”.
“A tribo reconhece que a correção para as condutas
antisociais não é o castigo;
é o amor e a lembrança de sua verdadeira identidade.
Quando reconhecemos nossa própria canção
já não temos desejos nem necessidade de prejudicar ninguém.”

“Teus amigos conhecem a tua canção
e a cantam quando a esqueces.
Aqueles que te amam não podem ser enganados pelos erros que cometes ou as escuras imagens que mostras aos demais.
Eles recordam tua beleza quando te sentes feio;
tua totalidade quando estás quebrado;
tua inocência quando te sentes culpado
e teu propósito quando estás confuso.” (Tolba Phanem)

A mensagem central do texto é clara: há uma canção nossa, muito pessoal, a canção da nossa alma. A canção é repetida nos momentos cruciais da nossa vida: no nascimento, na passagem para a vida adulta, na morte etc. Mas a canção é também cantada justamente no momento em que a pessoa parece voltar-se contra o espírito da tribo. Quando se desvia, quando comete determinado ato tido como mau, a tribo escolhe. Poderia, é claro, escolher também a dor, a violência, o sofrimento pago com sofrimento, na esperança de que assim o desviante pudesse aprender. Mas não é essa a escolha. A tribo escolhe o mais simples, o mais humano. Escolhe cantar. Canta, então, a canção da pessoa para lembrá-la de onde ela vem e de quem ela é.

Pergunto: Quando passamos por dificuldades e tribulações, será que cantamos? Será que nos lembramos de que temos uma canção para cantar? Será que chamamos nossa família e nossos amigos para cantar conosco ou para nós?

Vamos dar a despedida / Como deu um passarinho / Bateu asas foi-s’embora / Deixando penas no ninho.

Volta que o mundo deu / Volta que o mundo dá / Quem viaja pelo mundo / Tem histórias pra contar!

Veja matéria detalhada sobre o livro “A trapaça da serpente” nesse blog no link https://contaumahistoria.com.br/2021/05/a-trapaca-da-serpente/

 

 

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