“A lua rodou”

Edição inédita da FTD Educação apresenta poesias e histórias do escritor irlandês W. B. Yeats, Prêmio Nobel de Literatura de 1923, para as novas gerações de jovens. Livro traz o folclore, o misticismo, as fantasias e o universo onírico do autor.

O irlandês W. B. Yeats influenciou escritores de várias gerações e nacionalidades, merecendo o Prêmio Nobel de Literatura em 1923 – Foto: Internet

Para ajudar os leitores, em especial o público infantojuvenil, vou começar a apresentação do livro “A lua rodou” informando sobre o autor William Butler Yeats ou W. B. Yeats, por que para ler e apreciar essa obra plenamente é aconselhável adentrar na vida e imaginário desse poeta.

William Butler Yeats nasceu em Dublin, Irlanda, em 13 de junho de 1865. Considerado um dos maiores poetas dos tempos modernos foi figura-chave no movimento do Renascimento Literário Irlandês, entre o fim do século XIX e o início do XX. Seus primeiros poemas e histórias foram inspirados na mitologia e no folclore irlandeses. Ele influenciou escritores de várias gerações e nacionalidades, merecendo o Prêmio Nobel de Literatura em 1923.

Sua “poesia sempre inspirada”, disse a organização do prêmio, “expressa o espírito de uma nação inteira”. A nação é a Irlanda, cuja mitologia esparrama-se pela obra de seu maior poeta. Uma obra que é também universal, pois manifesta os mais profundos sentimentos da alma humana. Não à toa, Yeats foi eleito pelo conceituado crítico Harold Bloom (1930-2019) um dos 100 escritores mais criativos de todos os tempos.

No decorrer da carreira, Yeats escreveu sobre diversos outros assuntos: amor, política, misticismo e espiritualidade. Yeats morreu na França, em 28 de janeiro de 1939, e foi sepultado em seu país natal, no cemitério de Drumcliffe, no condado de Sligo.  “A lua rodou” (título original “The moon spun round”) foi traduzido pelo também poeta Alípio Correia de Franca Neto, vencedor de três Prêmios Jabuti de tradução.

Aliás, acredito que ele fez muito mais do que uma tradução ao assinar a Introdução do livro, onde interpretou para os leitores o mundo encantado existente em torno da obra de W.B. Yeats, apontou a vida real e o imaginário do autor e ainda explicou as origens do misticismo presente nos versos metrificados e rimados da rica obra.

O livro

Portanto, para apresentar “A lua rodou” vou seguir os passos do tradutor e acompanhar, junto à Introdução, as suas principais análises para o livro. À medida que ele citar as características do autor, eu indico os trechos do livro onde estão presentes e as páginas pertinentes a cada uma delas. Acredito que dessa forma será mais fácil compreender a surpreendente abordagem de “A lua rodou” e tirar maior proveito da leitura.

Vamos começar. Alípio Correia diz:

“Os poemas e as histórias de Yeats contêm muitos nomes de lugares e acidentes geográficos, como montanhas, lagos e cachoeiras. Ele acreditava que as pessoas amavam a terra e o mar por causa ‘das belas lendas e histórias melancólicas’ que sempre são contadas sobre esses locais. Desejava dar continuidade a essa tradição e encher esses lugares com suas próprias histórias”.

“Nomes de lugares e pontos de referência nos arredores de Sligo e Galway são citados com frequência em “A lua rodou”: 59 cisnes são vistos sobre as águas transbordantes do lado de Coole; um esquilo vive no bosque de Kyle-na-no:

A um esquilo em Kyle-na-no

Vem brincar só um instante / Por que se ir com essa alarma / No tronco tremulante / Como se eu, com uma arma,/ Fosse matá-lo? Ora essa, / Só uma vontade eu tive / Coçar sua cabeça, / Deixá-lo ir livre.” (Página 9)

Ilustração da versão em inglês é a mesma do lançamento da versão em português

 

Em outra parte da Introdução do livro, Alípio Correia explica:

“Ele (Yeats) considerava Sligo (condado onde viveu por alguns anos) um lugar mágico e por muitas vezes escreveu sobre a paisagem e a colina das fadas, onde as fadas ou ‘sidhe’ faziam suas moradas subterrâneas. Muitos outros locais de Sligo são retratados nos poemas e histórias deste livro.”

As hostes feéricas ‘sidhe’

…E Niamh com um Venha, venha cá:/ Livra o peito ao seu sonho de morte./ Vento acorda, folha esvoaça à volta,/ Em nós, branca é a face, a crina, solta,/ O peito arfa, os olhos luzem forte,/ Braços acenam, lábio, aberto,/ E a um olhar à que depressa vão,/ Eis-nos entre ele e a obra de sua mão,/ Entre ele e a esperança no seu peito…” (Páginas 12 e 13)

Ainda em sua Introdução, Alípio Correia afirma:

“Yeats nos relata contos familiares, divertidos e misteriosos, e acontecimentos míticos. Há neste livro uma história de Donegal sobre um homem incrédulo que é expulso de sua casa assombrada por suas próprias botas.”

O homem e suas botas

mas, pouco depois de a noite ter caído e de tudo haver mergulhado na escureza, uma das botas (do homem incrédulo) começou a se mover. Ela se alçou do chão e deu um tipo de salto lento em direção à porta; depois, a outra bota fez o mesmo… Ocorreu ao homem que um ser invisível havia entrado em suas botas e agora estava indo embora com elas… Elas saltaram em direção dele, depois uma se ergueu e o atingiu, no que foi seguida da outra e, mais uma vez, a primeira o acertou, e assim por diante, até que o expulsaram da sala e, finalmente, da casa… Foi assim que ele foi chutado por suas próprias botas e Donegal, vingada de quem era descrente”… (Página 22)

“Yeats acreditava no poder de contar histórias e era fascinado por contos populares e lendas da Irlanda”.

“E eis belo, misterioso, o bando / Em brandas águas:/ Junto a que juncos vai construir,/ Que poços, lagos,/ Encher as vistas, se eu acordar e na hora/ Vir que foi embora?” (Página 26)

“Em sua infância, o autor tinha interesse entusiasmado pela natureza. Entre seus animais de estimação estavam sapos, lagartos, cachorros e um rato branco sem rabo que ele carregava no bolso. Ele demonstra o conhecimento que tinha sobre o comportamento dos animais em muitos de seus poemas, dos cisnes selvagens de Coole aos sonolentos ratos-d’água e garças agitadas, e o gato preto, Minnaloushe, levantando suas delicadas patas enquanto corre pela grama.”

“Minnaloushe se arrasta na grama,/ Lá e cá à luz da Lua se move,/ A Lua sagrada no alto / entrou em fase nova./ Minnaloushe sabe que suas pupilas / Vão mudar, mudar de ar./ Que de redonda a crescente,/ Crescente a redonda, variar?” (Página 30)

O leitor tem muito mais para descobrir sobre W.B. Yeats, poeta que acreditava que “poema sem ritmo não é um poema”, que escrevia versos “vigorosos e variados, ideais para serem lidos em voz alta”. Mas tem também muito a descobrir e aprender com as fantasias do poeta irlandês e seu fantástico imaginário.

Produção

O livro “A lua rodou” foi organizado pela irlandesa Noreen Doody, especialista na obra de Yeats e de Oscar Wilde. Ela reuniu cuidadosamente alguns dos poemas mais representativos do autor ao lado de pequenos contos e textos biográficos. Noreen Doody nasceu e vive em Dublin. Ela é doutora em Literatura Inglesa pelo Trinity College da Universidade de Dublin. Ainda atua como professora sênior de literatura inglesa no St. Patrick’s College, de Drumcondra, em Dublin, e no programa de mestrado em Literatura Infantil da Escola de Inglês da Dublin City University. Gosta de apresentar a crianças e adultos o rico legado da poesia, da prosa e do teatro da Irlanda.

A versão em português de “A lua rodou”, como já informamos, foi traduzida pelo poeta brasileiro Alípio Correia de Franca Neto, nascido em São Paulo, em 1966. Como tradutor, recebeu três vezes o Prêmio Jabuti, pelos livros Pomas, um tostão cada (2002), de James Joyce; A balada do velho marinheiro (2007), de S. T. Coleridge; e por sua versão de Vênus e Adônis (2014), de Shakespeare, que também lhe rendeu um prêmio do Conselho Britânico.

No campo da literatura infantojuvenil, Alípio Correia de Franca Neto fez versões de Viagens de Gulliver (1996), de Jonathan Swift; Oliver Twist (1996), de Charles Dickens; O flautista de manto malhado em Hamelin (2007), de Robert Browning, entre outros. Alípio é poeta, tradutor, crítico, doutor em Teoria Literária e Literatura Comparada e pós-doutor em Teorias da Tradução pela Universidade de São Paulo.

“É uma grande iniciativa da FTD Educação a inclusão em seu catálogo dessa bela edição com poemas originais de Yeats e ilustrada com requinte, facultando um primeiro contato de jovens leitores com um dos maiores poetas do século XX. Daí minha preocupação em oferecer a esses mesmos leitores traduções visando mimetizar características de som e sentido”, diz o poeta e tradutor Alípio Correia de Franca Neto.

A ilustradora do livro é Shona Shirley Macdonald, uma artista e designer escocesa. Seus projetos variam de publicações de poesia e ficção a obras de arte conceitual para teatro e jogos de computador. Ilustrou uma retrospectiva da poesia de Rita Kelly, Turas go Bun na Spéire e dois romances gráficos gaélicos escoceses: Cuir Stad Air an Stoirm Shneachda eAn Smutag Ghaisgeil. Seu trabalho foi exposto na Irlanda e em mostras internacionais.

“A lua rodou” oferece ao leitor trabalhos inéditos, além de histórias de família e uma carta escrita por Yeats aos 11 anos de idade para sua irmã, que demonstra sua futura vocação para temas fantásticos e folclóricos. O livro reforça alguns dos principais temas da obra do irlandês.

De acordo com a ficha técnica preparada pela FTD Educação, que atua no Brasil há 118 anos, o livro é recomendado a partir do 6° ano, tem 64 páginas, custa R$38 e pode ser adquirido no e-commerce da editora: https://compre.ftd.com.br/

 

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