Dia do Escritor: os desafios da publicação independente

Amadrinhada pelo cartunista Laerte, escritora baiana Júlia Grilo estreia com o livro “Cães”, que o leitor vai conhecer nessa matéria. Disponível agora em e-book, nele a autora de 21 anos de idade traça uma investigação profunda e filosófica sobre o que é humanidade e o que aproxima e distancia o homem de outros animais. E para marcar o Dia Nacional do Escritor, comemorado em 25 de julho, o blog publica também a opinião da escritora, a visão dessa jovem romancista, ensaísta e cronista baiana.

Júlia Grilo: “Tomando a frente da publicação, eu me faço, ao mesmo tempo, os bastidores e o espetáculo, o que me enche de ansiedade” – Foto: Paula Menezes / Divulgação

 

“A tiragem média de um escritor publicado por uma editora grande no Brasil é de cerca de 2 mil exemplares, que são vendidos ao longo dos anos. Eu tinha o objetivo de vender ao menos 300 exemplares com “Cães”, meu primeiro livro, publicado pela editora Penalux. Achei que levaria alguns meses, mas eles esgotaram em poucas horas! Isso me deixou bem feliz, porque a maior parte da divulgação e distribuição foram por minha conta.

Acabei aprendendo que o marketing é uma corruptela da literatura: ambos giram ao redor d’uma narrativa, uma historieta. Tentei encontrar a história da história de “Cães” e difundi-la — a internet é ridícula e por isso mesmo ela é ótima. Há quem tenha uma posição mais conservadora e defenda que à obra nada deve se misturar – nem o próprio autor – mas eu me fascino bastante por aqueles que conseguem se apropriar artisticamente dos formatos digitais, o que é um desafio e tanto.

Pode-se encontrar um sentido bastante filosófico nos memes quando eles são pensados como criações que se multiplicam infinitamente para além de seus criadores, dando sentido à vontade existencial (e biológica) de perpetuar-se para além de si mesmo. “Cães” deu certo, acho, porque virou meme – e não dá para pensar o espírito de nosso tempo sem pensar na internet.

Quando terminei “Cães”, eu já sabia que uma editora grande era coisa de gente importante. Nem me iludi; assumi meu destino resignada, sabendo que os critérios de publicação das grandes casas editoriais são mais mercadológicos que estéticos. Muitos escritores podem vacilar nessa etapa, desesperar-se diante da rejeição dos editores (a rejeição sempre dói). Por isso é importante que o autor conheça bem o seu texto e os seus objetivos com a publicação.

A publicação de “Cães” se guiou pela resignação, pelo reconhecimento dos meus limites. O mercado editorial é um mercado, possui a lógica de um mercado. E não digo isso com lástima, acho que há coisas que a gente tem que aceitar ou então enlouquece. A liberdade da autopublicação é custosa: se ver diante do texto pronto, nas etapas finais e não poder contar com a intervenção tutelar de um editor dá um medo danado. Aquela coisa enorme na frente da gente, aquele amontoado de palavras e eu ficava pensando: “meu Deus, o que eu faço agora?”

É um processo bastante solitário. Trata-se de um tipo diferente de duelo, não desses que nos coloca contra outra pessoa, mas um que nos põe contra nós mesmos. Para escolher uma editora, tive como critério que eu não precisasse custear a publicação e que eu pudesse me sentir à vontade e ter liberdade de construir o livro junto a eles. Deu certo: “Cães” ficou com a carinha que eu queria! A liberdade é custosa, mas nos dá bastante autonomia.

Quando a gente publica, autoriza o acesso das pessoas não só à intimidade do texto – o que é natural – mas às agruras da nossa imagem, da nossa representação, o que pra mim é mais exigente do que quando leem “Cães” tentando descobrir o que é ficcional ou não. Há quem fique espantado, me perguntando: isso que você escreveu aconteceu mesmo? E eu não ligo, não me sinto nem um pouco exposta.

Mas me vi vulgarmente desnuda quando tiveram que tirar uma foto minha num sebo cheio de gente, a minha imagem sendo capturada, sendo fixada por um outro alguém que iria fazer sabe-se lá o que com ela. Agora, eu que sempre fui muito fã (não num sentido devocional, porque nunca soube lidar muito bem com a autoridade), que sempre gostei de admirar e contemplar os espetáculos que me atropelavam, estou aprendendo como é que funciona aquela parte que os meus artistas prediletos escondiam de mim. Os fios soltos dos bastidores têm me deixado aflita.

Tomando a frente da publicação, eu me faço, ao mesmo tempo, os bastidores e o espetáculo, o que me enche de ansiedade. A dubiedade desta condição, que me permite transitar entre a luz e a sombra, às vezes me deixa pensando que nada existe a não ser que seja inventado.

A tensão entre ficção e biografia é um tema antigo, que inclusive desemboca na contemporânea discussão sobre a separação entre autor e obra (eu adoro um filme do Polanski em segredo, porque ele foi cancelado). Mas acho que os contornos industriais do mercado artístico e o momento kardashiano de culto às celebridades intensificam o interesse (não só o interesse, mas também a exploração) pela vida dos artistas.

Agora eu entendo porque Elena Ferrante sumiu. Às vezes eu fico com vontade de sumir que nem ela: mais que meramente contemplados, é preciso que sejamos consumíveis”, conclui a escritora.

O lançamento

“Cães” é o tipo de livro que faz o seu cachorro lamentar o dono que tem, você, tão incapaz de perceber todo o caráter e complexidade dele. As personagens — humanas ou não — estão ali tão desnudas, com seus labirintos e debilidades tão aparentes, que você fica constrangido diante delas. Filhote e criança avançam pelos anos num desconcerto doído, e você quer abraçar o seu cachorro, e a mãe da menina que você foi, e a menina que você foi.”

O que diferencia o homem dos outros animais? A chegada de um novo cão à casa leva uma menina a questionar se há nos bichos algo além do que o imaginado pelos adultos. Encarando a humanidade como uma ficção, a jovem autora Júlia Grilo parte dessa premissa para iniciar uma investigação profunda e filosófica sobre o que é humanidade em “Cães”, que é seu romance de estreia, tem o selo da Editora Penalux 2020 e 155 páginas.

Com orelha escrita pela cartunista Laerte Coutinho e prefácio de Wagner Teles, a edição agora ganha uma versão em e-book, em pré-venda, disponível via Amazon.

Em “Cães”, as definições se dão pela diferença: para descobrir o que é humano, a autora busca primeiro pensar naquilo que não é. A autora define a obra como um romance sobre limiares, sobre o que nos une e o que nos separa, sobre a distância que há entre os homens e os bichos (o homem é ou não é bicho?) e os homens e as mulheres _ elas também compõem o que se chama de homem?

“É um livro sobre se tornar adulto, sobre os traumas que carregamos e os laços que teimamos em desfazer, para mais tarde voltarmos a eles com cuidado, apertando o nó bem forte. A narrativa é dura, ela expressa a violência pela qual os personagens ali passam, mas também carrega uma espécie de calma melancólica”, define Michelle Henriques, uma das criadoras do movimento Leia Mulheres, que tem como objetivo difundir a escrita de autoria feminina no mercado editorial.

Para Wagner Teles, professor de Filosofia da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), que assina o prefácio, invenção e realidade andam juntas em “Cães” e “costuram a tentativa de uma cadela tornar-se humana com a elaboração de questões existenciais suscitadas pela exegese autobiográfica da narradora”.

“A infância mostra-se próxima da animalidade e a tentativa de tornar-se humana revela-se desesperançada, o que dá lugar a uma filosofia em estado selvagem, apta a tematizar a vida pós-morte, a sujeição das mulheres, luta de classes, o horror da pobreza, o racismo, o caráter temporal do amor eterno, dramas e outras mazelas humanas, suicídio”, escreve.

Em “Cães”, Júlia também entra em territórios da alteridade, questionando a posição da figura feminina — seja uma mulher, seja uma cadela — nos meios sociais. A autora evidencia seu gosto por intérpretes da dor feminina. “Dizem que eu pareço Clarice, mas acho que dizem isso menos porque nos parecemos e mais porque escrevemos coisas de mulherzinha. Detesto ser mulher, mas a verdade é que sou mulherzinha pra caramba. Sou uma mulherzinha melancólica óbvia pra caramba. E daí? Elena Ferrante também é, e eu a adoro”, provoca.

Júlia conta que começou a escrever a obra porque Cafeína, sua cachorra, estava morrendo e ela se sentia culpada por isto. “Ai de mim que ainda sou cristã!”, exclama. “Cafeína meio que começou a apodrecer depois que pariu. E ela pariu porque eu quis, pariu por mim, por minha culpa”, confessa. Com uma linguagem densa e fluida, a narrativa, com tons autobiográficos, apresenta o fio cultural que corre como uma herança repassada de geração a geração.

“A existência de Cafeína escancarava as minhas limitações e deixava-as mais robustas. Ela era tão diferente de mim — e ainda assim vivia. Ela era tão diferente de mim e acordava todos os dias e todos os dias dormia, não tinha em si nada de excepcional, antes tivesse, isto explicaria nossas distinções. Mas ela era tão comum, e respirava, e comia, e amava, e era tão diferente de mim, como ela poderia ser tão diferente de mim, quando as minhas semelhanças era tudo o que eu sabia? O que eu sabia para além de mim e dos meus? Há alguns dias não havia nada que me contrariasse e agora estava ali, dentro da minha casa, sobre a minha cama, o alarme daquela figura atrapalhando as minhas referências.” (Trecho do livro – pág. 37)

O romance passeia pelos ecos coloniais e destrincha os pilares que nos constituem como povo. É a partir da consonância entre o sertão e o recôncavo baiano que Júlia Grilo encontra os fundamentos de sua literatura: a escritora, de 21 anos, nasceu em Salvador e cresceu em Amélia Rodrigues. Atualmente, vive na capital baiana, onde se gradua em Psicologia pela Universidade Federal da Bahia (UFBA).

Uma despedida da adolescência

Enredada na cibercultura, aos 10 anos Júlia Grilo assimilou a linguagem internética e, através da escrita em blogs, esboçou as bases de sua estética, marcada pelo coloquialismo, rapidez e, sobretudo, pela ruptura com a anterioridade. Aos 15, escreveu o seu primeiro livro, um ensaio sobre a escola a partir de sua perspectiva estudantil, fazendo uso de estilística tensa, espirituosa e estridente. Esse texto, nomeado “Perdemos o futuro”, é a gênese essencial de seu projeto literário e configura os pilares de sua escrita. Júlia não se interessa em publicá-lo, no entanto, embora tenha sido convidada para tal.

Aos 17, finalizou “Deserção”, o seu primeiro romance, cuja publicação também não veio a interessar a autora, que encontra em “Cães”, finalmente, o raiar de sua trajetória no universo da literatura. “O horizonte de Amélia Rodrigues, cidade onde cresci, fazia tudo parecer muito assustador. Em Salvador, porém, eu encontro a efervescência, a urbanidade que se movimenta, a dialética, e a dinâmica da vida artística deixou então de me soar tão intangível: eu via as pessoas produzindo e queria fazer parte da brincadeira também”, explica a autora.

“Cães”, enfim, surge como uma despedida da adolescência. “Minha escrita é desesperada, com meus vestígios de criança; é sóbria, com minha vontade de adulto; e é incivil, porque eu não gosto que me digam o que fazer”, crava, afirmando permear entre o popular e o erudito, no campo das contradições. “É na distância entre a verdade e o desejo que arte e ciência se separam. E me interessam os dois: me interessa o rigor científico e me interessa a irresponsabilidade artística.”

Amadrinhada por Laerte

Júlia se aproximou da cartunista Laerte aos 14 anos. Foi nessa idade que descobriu que um cartunista da Folha de S. Paulo, o João Montanaro, fora contratado justamente aos 14. Trocando mensagens com Montanaro, ele acabou indicando que Júlia escrevesse para Laerte. “Viramos amigas, surpreendentemente amigas, e acho que é com ela que eu compartilho as dimensões mais basilares da minha vida íntima. Como ninguém me dava muita bola no colégio, era Laerte quem lia as coisas que eu escrevia. Ela costuma ser sempre uma das primeiras a ler, até hoje”, revela.

“Eu vi uma escritora surgindo na minha frente, nas mensagens, nos ensaios e nos textos que ia me enviando também. Acho que fui premiada por ter presenciado — mesmo à distância — essa arte se organizando, às vezes em folia, às vezes em sofrimento”, relata Laerte, na orelha do livro. O ebook “Cães” pode ser comprado pela Editora Penalux: www.editorapenalux.com.br/loja/caes

 

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2 Comentários “Dia do Escritor: os desafios da publicação independente”

  1. Meu gosto pela leitura e escrita surgiu desde que aprendi a juntar as primeiras letras. Vi na escrita uma possibilidade de extravasar as emoções reprimidas pela minha timidez. Confesso que “cães” parou em minhas mãos através da minha filha que, menos simplória que eu – ou mais entrosada no universo da literatura – teve a felicidade de descobrir esta obra fabulosa. Fiquei muito emocionada lendo porque o livro, apesar de eu ter lido muitos autores consagradíssimos, revela, com precisão e destreza, as minhas fragilidades mais profundas. O livro traz verdades tão contundentes que torna quase impossível distinguir a linha que separa realidade e ficção. E, apesar das falas atribuídas aos cães revelarem uma dose de fantasia, só consegui ver diferença entre ficção e realidade quando comparei o brilhantismo da autora com o baixa autoestima da “personagem” que narra a história. Ao ler este artigo só cresce minha admiração e encanto pela Júlia e por todas as pessoas envolvidas em disseminar estas obras primas que alimentam a alma.

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