“Ler para uma criança é compartilhar emoções”

5/1/2014 – 16:35h (Publicação de origem)

Entrevista – Ricardo Azevedo – escritor

Sobre incentivo à leitura. Com a chegada das novas tecnologias, como ipads, smartphones, e-books e do surgimento das redes sociais, a impressão que se tem é que as pessoas têm mais espaços, oportunidades e acesso à leitura. No entanto, uma pesquisa realizada ainda em 2012 pelo Instituto Pró-Livro identificou que o brasileiro lê em média um livro por ano, ou seja, muito pouco. Essas ferramentas não deveriam estar contribuindo para aumentar o número de leitores e o prazer pela leitura? Como você vê isso?

Ricardo Azevedo: Minha sensação é a de que as pessoas estão cada vez mais afastadas das artes e da literatura.  Vivemos num tempo de grande valorização da ciência e da tecnologia. Sinto que nesse mundo técnico e especializado onde, para fazer sentido, tudo precisa ter uma função e uma utilidade, parece que a literatura e a arte estão perdendo espaço. O problema é que as tão valorizadas ciência e técnica são ótimas, mas não dão conta de tudo. De que adianta para um homem morrendo de fome saber que o prato de comida em sua frente contém vitaminas, proteínas e carboidratos? De que adianta para um homem apaixonado saber que sua amada tem rins, fígado, moléculas, átomos e neurônios? A ciência e a técnica são muito boas, mas, em certas instâncias humanas, não interessam e nem vão resolver coisa alguma. Creio que, por meio da ficção, a literatura e a poesia tratam dessas instâncias. Refiro-me a assuntos humanos e subjetivos, banais e complexos, como a busca do autoconhecimento, as paixões, a luta do velho contra o novo, as contraditórias colisões do Bem contra o Bem (que Fernando Pessoa chamou de “a dupla existência da verdade”), a construção da voz pessoal, as experimentações com a linguagem, as incoerências e ambiguidades etc. Se você pegar grandes personagens da literatura de Peter Pan, Alice, Emília, Macunaíma, Dom Quixote, Madame Bovary, Dona Flor, Riobaldo ou Gregório Samsa entre mil outras, vai sempre encontrar pessoas conflitadas e cheias de dúvidas que de alguma forma colocam em discussão a visão que temos da vida e do mundo. A literatura e a arte não existem sem que surja uma contradição, ao contrário da ciência e da técnica que sempre buscam a coerência e a utilidade. Infelizmente, neste ambiente em que vivemos, sufocados pelo politicamente correto, pelo consumismo e pelo utilitarismo, as pessoas têm sido levadas, ou melhor, têm sido condicionadas, a não perceber o caráter humanizador e vital da literatura e da arte.

Há mais de 30 anos você escreve literatura infantil. O que é possível perceber hoje no processo de educação das crianças em relação à leitura? A forma de escrever para crianças mudou? E a forma de interação das crianças com os livros?

RA: Preciso dizer que pouco importa se o moleque brinca de soldadinho de chumbo, bolinha de gude, patinete, jogo de botão, carrinho de rolimã, skate ou vídeogame. O que importa é que ele brinca e gosta de brincar desde que o homem é homem. Quanto à leitura, creio que persiste um mesmo e velho problema: a criança do fundamental associa a literatura à sua professora, com quem costuma ter uma relação calorosa e afetiva. Ela até pode gostar de ler, mas lê também para agradar a professora. Mais tarde, quando passa para as séries mais avançadas, com vários professores e, portanto, quando o ensino torna-se mais impessoal, ela tende a se desinteressar pela leitura. É justamente neste momento que necessitamos de professores melhor capacitados, leitores de verdade que sejam capazes de mostrar ao aluno como a literatura pode ser rica e importante para sua vida. Sobre a interação da criança com o livro, acho indiferente que a leitura seja feita num livro de papel, num e-book, na tela do computador ou sei lá onde. O que importa é que o leitor saiba o que é a literatura, saiba diferenciar os diferentes tipos de livros existentes, enfim, saiba o que está fazendo quando pega um texto para ler.

É comprovado que ler para crianças pequenas é importante para seu desenvolvimento integral. Na sua opinião, pais e familiares estão mais preocupados em ler para as crianças? Que fatores podem ter contribuído para esse envolvimento?

RA: Minha sensação é a de que os pais, independentemente de classes sociais, trabalham tanto que mal têm tempo de conversar com os filhos, quanto mais ler para eles. Nesse mundo especializado de hoje, estamos sendo transformados em peças de engrenagens e precisamos cumprir nosso papel dentro da máquina caso contrário ficamos sem emprego. Parece haver cada vez menos lugar para as relações humanas, sociais, familiares e espontâneas. A filósofa Hannah Arendt, ainda na década de 50, dizia mais ou menos o seguinte: cabe ao adulto apresentar a cultura e as questões humanas aos “recém-chegados” ao mundo. Quem não souber fazer isso, completava ela, não tenha filhos e não seja professor. E perguntava ainda: o que farão no futuro pessoas individualistas, despolitizadas, sem cultura humana e com formação apenas técnica com tanto poder tecnológico nas mãos? Eis um aspecto crucial e civilizatório da educação e da escola!

Como você avalia as políticas públicas para leitura de hoje? Elas são adequadas para o incentivo da leitura de crianças, adolescentes e jovens? E de que forma a iniciativa privada pode contribuir para o avanço e desenvolvimento dessas políticas?

RA: Prefiro não opinar sobre políticas públicas porque é assunto complexo e que só conheço em linhas muito gerais. Sinto que precisamos de mais bibliotecas e bibliotecários competentes. Sinto que a distribuição de livros é muito importante, mas é preciso criar instâncias mediadoras, pois muitas famílias, infelizmente, ainda são muito pouco letradas e não sabem o que fazer com os livros. Por outro lado, creio que nunca se discutiu tanto, como hoje, a necessidade de termos uma escola melhor que saiba formar leitores, o que é um bom sinal. A sociedade parece ter acordado para este grave problema que implica a exclusão social. Numa sociedade de poucos leitores, só estes terão reais oportunidades. A massa de gente que não lê nem sabe usar livros em benefício próprio quase sempre estará condenada a uma vida sem chances de desenvolvimento profissional e intelectual. Vemos agora também, cada vez mais, projetos educacionais e culturais planejados e patrocinados pela iniciativa privada. Tirando aqueles que são apenas ações de marketing e propaganda, creio que essas parcerias são importantes, necessárias e muito bem vindas.

Para concluir, quais dicas você daria para um adulto ler para crianças?

RA: Ler para uma criança pequena é muito mais do que apenas contar uma história. É uma forma de carinho, é uma doação, é dar atenção, é levar em conta, é compartilhar emoções, é como dizer “olha estou aqui porque gosto de você e quero me divertir um pouco junto de você lendo esse livro”. Quer começo melhor para formar um futuro leitor?

Fonte e fotos: Itaú Social

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