Literatura infantil é a grande vitoriosa do Prêmio Jabuti

O nome do vencedor, nas categorias Livro Infantil e Livro do Ano, é “Sagatrissuinorana” da autoria de João Luiz Guimarães, ilustrado por Nelson Cruz e publicado pela ÔZé Editora dirigida por Zeco Montes. Título e história remetem o leitor à Sagarana, de Guimarães Rosa, e à fábula de Os três porquinhos.

Todos nós lembramos da história de Os três porquinhos. Imagine, em “Sagatrissuinorana”, essa clássica fábula sendo contextualizada para a atualidade através da fatalidade do rompimento das barragens de Mariana e Brumadinho. O autor, João Luiz Guimarães, acredita que “é legal pensar que a gente está tocando as crianças, as gerações do futuro, para falar para elas o quanto é importante pensar no meio ambiente.”

No dia 25 de novembro, o livro surpreendeu ao ser anunciado como vencedor do Jabuti, promovido pela Câmara Brasileira do Livro (CBL), em duas categorias: Livro Infantil e Livro do Ano, sendo que esse último é o vencedor entre as obras premiados nos Eixos Literatura e Não Ficção. O prêmio contempla 20 categorias divididas em 4 eixos: Literatura, Não Ficção, Produção Editorial e Inovação. Na edição de 2021, segundo dados da CBL, o prêmio recebeu 3.422 inscrições que representam 31% a mais do que em 2020. O Prêmio Jabuti está na 63ª edição e se tornou a maior premiação literária do Brasil, desde que foi criada em 1958.

As obras concorrentes foram avaliadas por jurados especialistas em diferentes áreas e os nomes deles indicados por leitores e integrantes do mercado editorial, validados e complementados pelo Conselho Curador do Prêmio Jabuti composto por Ana Elisa Ribeiro, Bel Santos Mayer, Camile Mendrot e Luiz Gonzaga Godoi Trigo. Para Vitor Tavares, presidente da CBL, esse resultado marca a força de um dos maiores motores da literatura nacional: as crianças. “É formando jovens leitores que conseguimos difundir os livros em todas as esferas da sociedade brasileira. Por isso, é tão importante termos uma produção relevante para oferecer aos pequenos. Essa premiação mostra que estamos no caminho certo”, comenta.

Repercussão

A dupla premiação foi motivo de muita comemoração no segmento da Literatura Infantil e Juvenil. O consagrado ilustrador de “Sagatrissuinorana”, Nelson Cruz, afirmou:

“Eu só poderia levar para o público jovem aquilo que me formou, que é a literatura. Ficção e realidade. Confesso que ainda estou sob efeito dessas duas palavras desde o momento que o livro “Sagatrissuinorana” recebeu os dois prêmios. Muito a agradecer ao parceiro João Luiz Guimarães, à Raquel Matsushita, que criou o projeto gráfico, e ao editor Zeco Montes. Obrigado mesmo.”

Por sua vez, Zeco Montes, da ÔZé Editora, escreveu em sua página do Facebook: “Em tempos tão complexos, editar e fazer circular uma obra como “Sagatrissuinorana” é um desafio e uma alegria. Fazer esse livro chegar ao maior número de pessoas com um tema tão importante quanto espinhoso é como ganhar o prêmio. O livro une a fantasia à triste realidade: conto dos três porquinhos, o lobo, dois desastres (Mariana e Brumadinho), vidas perdidas e o homem como lobo do homem.”

“Parabéns ao João Luiz Guimarães pela coragem de escrever esse texto (à moda roseana); ao Nelson Cruz por ilustrar e se atentar a cada detalhe dessa história; à Raquel Matsushita por participar e aceitar fazer esse projeto gráfico tão belo e desafiador; e a todos que participaram: o editor, a revisora Vera Regina e as assistentes editoriais Luana de Paula e Tatiana Cukier.”

Rosana Rios, escritora e presidente da Associação dos Escritores e Ilustradores de Literatura Infantil e Juvenil (Aeilij), também se manifestou na página da associação no Facebook:

“A premiação do Jabuti este ano veio carregada de emoções! Não apenas por contemplar tantas editoras independentes e autores de plagas distantes deste nosso Brasil – a qualidade literária vem de todos os cantos! Mas, especialmente, este ano, por premiar como Livro do Ano o vencedor na categoria infantil: “Sagatrissuinorana” resultado da u​nião de gente fantástica e talentosa como Nelson Cruz, João Luiz Guimarães, Raquel Matsushita e Zeco Montes. Há quem diga que Literatura Infantojuvenil  (LIJ) é um gênero menor, que não merece atenção e, portanto, não precisa de investimentos; há quem creia que autores de LIJ são diletantes, desimportantes… Mas há quem perceba o óbvio: um livro para crianças ou jovens é a porta por onde entram os leitores. E formar leitores de boa literatura desde a mais tenra idade é a única forma de gerar gente pensante, atuante e capaz de mudar este nosso mundo sofrido. Então, viva a LIJ! Parabéns a todos os premiados nesta edição e à CBL por sua atuação”.

O escritor Tino Freitas também comentou no seu perfil do Facebook sobre a alegria de ver a Literatura Infantil, mais uma vez, reconhecida como arte literária em meio às outras categorias.

“Nós já sabemos disso, claro. Mas há quem acha que qualquer coisa para criança serve. Melhor ainda: feliz em que esse reconhecimento dê luz a uma obra como “Sagatrissuinorana”… Faltou sagacidade. Pois é simples: pega a referência ao Sagarana, obra magistral de João Guimarães Rosa, divide ao meio e encaixa ali Os três porquinhos (trissuíno). Ao ler o livro, encontramos arte no texto lapidar de João Luiz Guimarães, dançando um balé literário com a arte sensível e sempre surpreendente de Nelson Cruz. O livro tem ainda a arte preciosa de Raquel Matsushita na condução do projeto gráfico. E, claro, publicado pela ÔZé Editora sob os cuidados atentos de Zeco Montes. Um livraço. Parabéns a todos os envolvidos. O destaque é merecidíssimo. Estou feliz demais em ver a LIJ no lugar ao qual pertence.”

Leo Cunha, escritor e jornalista, se manifestou assim:

“Quando um livro para crianças ou adolescentes recebe o Jabuti de Livro do Ano, superando as obras de todas as categorias, a celebração é de todos que criamos livros para a infância: escritores, ilustradores, designers. Isso já tinha acontecido, por exemplo, com livros de Zé Paulo Paes (Um passarinho me contou), da Marina Colasanti (Ana Z, onde está você), da Stella Maris Rezende (A mocinha do Mercado Central) e agora volta a acontecer com “Sagatrissuinorana.” A boa literatura infantil é para todas as idades!”

Resenha

Divulgo um texto da bibliotecária Maria Sílvia Pires Oberg sobre “Sagatrissuinorana”, que foi publicado em seu perfil do Facebook, em 24 de novembro de 2020, há praticamente há um ano do dia da premiação. Leiam a seguir.

“Demorei um tanto para me dar conta do que estava para acontecer.

Apurei o olhar diante da capa com verdes campos, reparei no porquinho na horta ao lado da casa de palha, nas galinhas ciscando, montanhas, chaminés lançando fumaça, casas ao longe. Abri o livro para ver capa e contracapa formando um só cenário. Seria vulto de um lobo encostado ali no canto?

“Sagatrissuinorana.” Que raio de título difícil de pronunciar seria esse? Além do título instigante, o recado: reconto à moda Roseana.

Mais uma página: o cenário de montanhas, a terra com algumas cicatrizes rompendo o verde, chaminés, fumaça, casas. Uma palavra apenas faz parceria com as imagens da página: Nonada. E que jorro de significados salta dessa apenas uma palavra. Agora não havia mais dúvida – alguma coisa espantosa (terrível?) aconteceria.

De página em página, as palavras – poucas e carregadas de um tudo – juntam-se às ilustrações de páginas duplas e instigam a descobrir o que se desenrola ali em linguagem que homenageia mestre Rosa. Minha suspeita se confirma: há mesmo um lobo. E “três porcos que porcavam” e casas, baforadas quentes, tudo pelos ares, correrias até o “intento de uma casa de tijolos”. Estariam salvos? Será?

E como “tudo é real, por que tudo é inventado”, as ilustrações ganham novas cores, palavras ganham ritmo para dar conta do que se passou. E fica o espanto com os desdobramentos da trama a golpear olhar e coração.

E há mais: ao desenrolar o conto infantil Os três porquinhos para recontá-lo à moda Roseana e com o olhar do nosso tempo, “Sagatrissuinorana” propõe também uma reflexão sobre o ato de narrar e de recontar histórias.

“Sagatrissuinorana” é o que chamo de título-semente. Como a semente guarda a árvore toda em seu pequenino espaço, o título guarda em apenas uma palavra tudo o que o conto conta e também o modo como conta: Sagarana de João Guimarães Rosa está lá, o conto do três porquinhos – trissuíno – também.

“Sagatrissuinorana” – belo e cortante.”

Outros dados

Este ano, “Sagatrissuinorana” também recebeu um duplo prêmio da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ): o de Melhor Livro para Criança e Melhor ilustração Hors Concours. E mais: tem o Selo Distinção Cátedra Unesco de Leitura – PUC Rio 2020 e está entre os 30 Melhores Revista Crescer 2021.

O premiadíssimo livro tem 32 páginas com preço sugerido de R$ 53,00.

Onde comprar: A Editora ÔZé, há 10 anos no mercado, em sua página no Facebook deixa a seguinte informação para o leitor ao lado.

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2 Comentários “Literatura infantil é a grande vitoriosa do Prêmio Jabuti”

  1. Fiquei encantada com a capa do livro e muito curiosa para conhecer esta obra fantástica!
    Prêmio merecido!
    Parabéns ao autor e todos envolvidos!
    O público infantil merece toda esta qualidade de obra.

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