“Mapinguari”

Lançamento da FTD Educação convida para uma imersão no coração da Amazônia e apresenta narrativa em quadrinhos sobre os diferentes povos da floresta. Obra tem apoio do WWF-Brasil, referência mundial na defesa da conservação ambiental, e traz um trabalho bastante consistente que, certamente, vai interessar escolas e estudantes sempre em busca de leitura crítica sobre a realidade da região. A poderosa linguagem dos quadrinhos se faz forte e bela aumentando ainda este interesse. Para destrinchar “Mapinguari”, convidamos o jovem editor de literatura da FTD, Bruno Salerno Rodrigues, para nos auxiliar na compreensão do livro e contexto da história. Leia abaixo a entrevista exclusiva que ele concedeu ao blog, porém, antes, conheça os elementos mais importantes do lançamento.

Com visual deslumbrante e roteiro ágil, a HQ publicada pela FTD Educação, em parceria inédita com o WWF-Brasil, narra as descobertas de um jovem, José, no coração da floresta e aborda temas importantes como proteção ambiental, folclore e cultura dos povos indígenas e populações tradicionais. A parceria visa defender a harmonia entre o ser humano e o planeta por meio da literatura e chamar a atenção para temas importantes da realidade da floresta amazônica.

“Nesta nova edição pela FTD Educação, a obra ganhou cores. Isso possibilitou que o ilustrador explorasse novas camadas de sensações não utilizadas na versão em preto e branco e, assim, dando uma nova dimensão à obra”, comenta Daniel Justi, editor de arte da FTD.

O protagonista José tem um dilema e tanto: o emprego que abraçou como projeto de vida ameaça a comunidade onde vive a sua família, no interior do Acre. Este é o mote de “Mapinguari”. O enredo do graphic novel se passa no Seringal Santo Antônio, no interior do Acre, onde os seringueiros são assediados por negociantes de terras da empresa onde José trabalha, na capital Rio Branco.

Na trama, José e outros personagens encaram desafios típicos da juventude: a relação tensa com a família, a sensação de não pertencimento, a vulnerabilidade social e os projetos de vida. A obra permite tanto o trabalho em sala de aula como a fruição literária, graças aos diálogos ágeis e bem encadeados escritos por André Miranda, que é diretor de fotografia e roteirista de cinema, e às belas e expressivas imagens criadas pelo ilustrador, quadrinista e artista plástico Gabriel Góes.

Antes mesmo de ser lançada, a obra já foi contemplada com a distinção White Ravens, uma das mais importantes do mercado editorial. Nela, a Biblioteca Internacional da Juventude de Munique, a maior do mundo em literatura infantojuvenil, escolhe títulos de todo o mundo para compor seu catálogo. Em 2021, apenas três livros brasileiros foram selecionados — um deles, “Mapinguari”.

Anexos importantes

O livro apresenta dois posfácios, que fornecem bons subsídios para aprofundar a leitura. No primeiro, Ciro Inácio Marcondes, doutor em comunicação e editor do blog Raio Lazer, especializado em quadrinhos, faz uma análise ampla da obra, localizando-a na tradição do quadrinho brasileiro.

O estudioso lembra que o nosso folclore e a cultura indígena sempre estiveram presentes no quadrinho nacional, graças aos esforços que remetem desde ao caricaturista e desenhista Angelo Agostini, passando pelos cartunistas Ziraldo e Mauricio de Sousa, pelo ilustrador e quadrinista Mozart Couto e por tantos outros.

Marcondes reforça no texto: “O que Gabriel Góes e André Miranda trazem aqui, porém, tem vários graus de ineditismo e inovação. Com personalidade e introvisão, somos apresentados, em “Mapinguari”, a um mapeamento social, visual e psicológico das capitais e do interior das sociedades amazônicas. Esta abordagem não guarda lugar para ingenuidades e as histórias em quadrinhos aparecem como uma mídia afiada para dar conta dessa representação.

Entrevista

“Mapinguari tem tudo para, por meio da arte, despertar a consciência de cada vez mais brasileiros acerca da importância de uma relação respeitosa com a Amazônia e seus povos. Aliás, brasileiros apenas não: cidadãos do mundo”, afirma Bruno Salerno Rodrigues, Editor de Literatura da FTD Educação – Foto: Divulgação

 

Rosa Maria: Qual é a contribuição das HQs na literatura?

Bruno Salerno Rodrigues: A contribuição das HQs para a literatura é absolutamente fundamental. Não podemos esquecer que as imagens já eram utilizadas como forma de comunicação entre os seres humanos, antes da escrita alfabética, nas pinturas rupestres e nos ideogramas. Como diz o grande autor de HQ estadunidense, Will Eisner, em Quadrinhos e arte sequencial, “a função fundamental da arte dos quadrinhos, que é comunicar ideias e/ou histórias por meio de palavras e figuras, envolve o movimento de certas imagens (como pessoas e coisas) no espaço”. 

A HQ é uma linguagem que combina texto e desenhos, apresentando uma arte em sequência. Em uma adaptação de clássicos da literatura em quadrinhos, por exemplo, a HQ permite novas leituras do clássico e dos temas abordados por meio da interpretação visual das cenas e da representação dos cenários e dos personagens, o que estimula no jovem maior engajamento na leitura. Assim como a adaptação cinematográfica, ela pode fornecer boa contribuição para o aprendizado, com relevante potencial de uso em sala de aula, conforme a Base Nacional Comum Curricular (BNCC).  

A complexidade da leitura dos quadrinhos reside na compreensão da sua narrativa, da interação dos personagens com os cenários, da combinação dos textos verbais e visuais. O leitor precisa de proficiência na leitura de imagens para compreender, por exemplo, diferentes expressões faciais dos personagens e seus significados. Essa leitura das imagens é importante tanto para a formação do gosto pela leitura como para a formação do indivíduo como leitor. 

RM: Qual é a diferença básica entre apresentar um tema em HQ e em texto corrido?

BS: A diferença fundamental é a própria apresentação do enredo. O texto em quadrinhos é reduzido, para dar lugar às imagens, que constituem uma narrativa visual própria, enquanto na prosa predomina o texto, com ilustrações eventuais. Na HQ, a maior parte do texto está nos balões de fala e pensamento, mas também em recordatórios narrativos e palavras inseridas na imagem (lettterings, composições gráficas de texto verbal), como onomatopeias, letreiros e placas. 

A linguagem das HQs pode exigir mais páginas para desenvolver uma cena, ao mesmo tempo que pode sintetizar várias emoções e descrições em uma única imagem. É comum, ainda, o roteiro atualizar levemente a linguagem, por exemplo, com o uso de grafias e vocábulos atuais. E, muitas vezes, há combinação de vários diálogos para apresentar a mesma cena de maneira mais sucinta. A descrição física de cenários e pessoas, que num texto corrido poderia ser feita por um narrador, é incorporada pelo desenho. A ilustração também trabalha a comunicação não verbal (expressões faciais e gestos corporais), que pode ser criada a partir das descrições narrativas e até mesmo de algumas falas do texto original. Os recursos visuais da HQ ainda incluem o número de quadros em cada página — chegando a páginas de um quadro só — a arte em destaque com o texto em segundo plano e o uso de diversas paletas de cor, para determinar o clima de cada cena (cores frias e quentes, por exemplo). 

RM: “Mapinguari” trata de um tema ambiental, que é a vida nos seringais. Por que apresentá-lo na forma de Histórias em Quadrinhos?

BS: A HQ permite uma gama de possibilidades temáticas. No caso de “Mapinguari”, em particular, temos o roteiro criado por André Miranda, um roteirista de cinema. E, tal como no cinema, ele criou as páginas e duplas de páginas como cenas. Cada cena ilustrada por Gabriel Góes permite visualizar os cenários e personagens de maneira impactante, direta, dramática. Essa é uma maneira muito interessante de apresentar o legado de Chico Mendes para as novas gerações, engajando-as na defesa das nossas terras, culturas e povos. Além disso, é muito importante a leitura alegórica da história, isto é, do imaginário das pessoas que permeia a narrativa: os sonhos de José, as histórias do povo do seringal, o ritual indígena e as raras ocorrências do ser folclórico “Mapinguari”.  

RM: Existem outros temas ambientais embutidos na história? O que o livro deseja denunciar ou defender?

BS: Começo citando um trecho impactante da análise do especialista em quadrinhos Ciro Inácio Marcondes, num dos posfácios da obra: “O ‘Mapinguari’ desta história em quadrinhos, defensor das matas, transforma-se em metáfora para combater o verdadeiro monstro que engole a Floresta Amazônica desde o primeiro ciclo da borracha. São cavaleiros do apocalipse: desmatamento, latifundiários, desapropriação, extinção”. 

O livro é rico em temas, não apenas ambientais. Uma lista rápida nos conduz pelos seguintes pontos em “Mapinguari”: o seringalismo, os povos da floresta, as queimadas e o desmatamento, a cultura indígena e sua medicina sagrada, a educação (esta e a anterior responsáveis por operar uma transformação na visão de mundo no protagonista), os usos da tecnologia, a questão fundiária, o agronegócio, a migração do Nordeste para o Acre, o êxodo rural e a qualidade de vida dos migrantes na cidade e o mito folclórico do “Mapinguari”, além de questões como os projetos de vida dos personagens e as relações entre eles. 

De maneira prática, eu gostaria de destacar algumas formas de economia sustentável que aparecem ao longo da narrativa: a extração do látex pelos seringueiros, o manejo do açaí, a pesca sustentável do pirarucu e a própria cultura dos povos nativos, que são os grandes guardiões da floresta — pois dela retiram tudo o que precisam para viver, com respeito.  

RM: Quais cuidados editoriais foram empreendidos na produção do livro?

BS: Em sua primeira edição, pelo WWF-Brasil, o livro foi publicado em preto e branco. Na FTD Educação, solicitamos ao ilustrador a colorização, que deu um salto visual. Além disso, abrimos aos autores a possibilidade de rever o que desejassem nesta nova edição. E fizemos algumas leituras de revisão atenta da obra, sob os pontos de vista ortográfico, gramatical, visual e de paginação. Mantivemos dois posfácios muito interessantes, um já citado, de Ciro Inácio Marcondes, e o outro de Ricardo Mello, gerente do WWF-Brasil para Amazônia, que conta como se deu a criação da obra, a partir das ricas vivências da entidade no bioma amazônico. A FTD Educação ainda elaborou — como faz em todos os seus livros — conteúdo didático específico: suplemento de leitura, com questões para o aluno, e projeto de leitura, com atividades de classe sugeridas para o professor. 

Trabalhamos em parceria por mais de um ano, na edição do livro para mercado, em sua versão para o PNLD, com todos os materiais de apoio ao aluno e ao professor exigidos pelo governo, e mais recentemente, no evento de lançamento de “Mapinguari”. Como disse, o WWF-Brasil publicou a primeira edição, a partir de diversas vivências na Amazônia brasileira. Como diz Mello no posfácio, ao longo de seis anos “mais de 3 mil alunos das cidades de Feijó e Tarauacá, ambas no Acre, estiveram conosco em projetos de educação ambiental — construindo cartas, jogos, livros e guias, e refletindo sobre como promover a conservação da natureza e a melhoria da qualidade de vida das comunidades amazônicas”.

No lançamento do livro, realizado no último dia 30 de novembro e disponível neste link, tivemos duas mesas. A primeira com o tema “Como trabalhar questões socioambientais em sala de aula” teve participação da militante socioambiental Angela Mendes (filha de Chico Mendes!) e do biólogo e consultor educacional da FTD Educação Paulo Santos Lima Júnior, mediados por Karina Yamamoto. A segunda mesa foi o lançamento da HQ com o tema “As criações e as leituras de Mapinguari”, que teve participação dos autores e de Gabriela Yamaguchi, diretora de sociedade engajada do WWF-Brasil, comigo na mediação. 

RM: Estão previstas outras HQs com temas ambientais?

BS: Por ora, não. Mas eu gostaria muito e torço para que aconteça. O que posso dizer com certeza é que estão previstas outras histórias em quadrinhos, e já devemos ter uma nova em 2022. Preparem-se!  

RM: O que você destaca em Mapinguari? 

BS: “Mapinguari” consegue um feito: aborda grandes temas do nosso tempo: a desigualdade social no campo e na cidade, a devastação da Amazônia, as formas sustentáveis de economia, a relação do país com seus povos indígenas — em um enredo absolutamente literário. Tem roteiro inteligente e bem amarrado, com ilustrações bonitas e impactantes. Brasil profundo não é mera expressão aqui; esta é uma história de raízes, desenraizamentos e novos enraizamentos. No coração da Amazônia acontece a história do protagonista José, que vive um dilema com o qual o leitor pode se identificar e aprender.

RM: Atuar como editor é uma atividade complexa. Comente sobre seu trabalho na editora.

 BS: Edito literatura infantil e juvenil na FTD Educação, com duas colegas incríveis, a Bruna (Brito) e a Camila (Saraiva). Isso significa fazer a produção editorial dos livros de literatura infantil e juvenil, desde a leitura dos originais até o fechamento para a gráfica. Nesse processo, lido com o autor, os editores de arte, o preparador, os revisores, os autores de materiais didáticos e de textos complementares e outros parceiros, fazendo uma espécie de meio de campo. Eventualmente, escrevo alguns textos, como o de quarta capa. Edito também os materiais didáticos associados às obras, tanto para mercado como para os editais de governo do PNLD (Plano Nacional do Livro Didático). Além disso, trabalho na prospecção e análise de originais e na produção ou edição de diversas peças de divulgação, como booktrailers, newsletters, briefings e releases. Recentemente, fui mestre de cerimônias e mediador no lançamento de “Mapinguari”, o que me deu bastante satisfação. 

Antes de trabalhar na FTD Educação, estudei filosofia, me graduei em comunicação social na USP (habilitação em editoração) e fiz o curso de regeneração ecológica Gaia Education. Sou autor dos roteiros em quadrinhos de Hamlet (Farol/DCL) e A tempestade (Melhoramentos), adaptações de William Shakespeare. Como editor, trabalhei no Estúdio Sabiá, na editora Capital Aberto e nas Edições Sesc. Nas horas vagas, gosto de participar de ações comunitárias de ecologia urbana. 

 

 

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2 Comentários ““Mapinguari””

  1. Que legal, Rosa! Ficou ótima a publicação, parabéns!

    Entrevista publicada na íntegra, sem tirar nem pôr. =)

    Só levei um susto quando vi a minha foto ali no meio do texto, grandona, mas tudo certo… hehe.

    Muito obrigado e um forte abraço!

    1. Olá, Bruno.
      Sua entrevista foi uma “aula” sobre literatura.
      Tenho certeza que os leitores do blog vão adorar, assim como eu.
      Agradeço muita sua participação e parabéns pelo magnífico livro “Mapinguari”.
      Durante 15 anos, atuei como indigenista e senti na pele a importância dessa leitura.
      Grande abraço
      Rosa Maria

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