Thaís Linhares: “Recebam a festa da ilustração e dancem com ela”

A literatura brasileira tem muitas revelações entre seus profissionais. Uma delas chama-se Thaís Linhares. Ela é carioca, escritora e ilustradora, roteirista e também atua com cinema de animação. Tem mais de uma centena de obras publicadas, várias premiadas e selecionadas para programas de leitura. Como ilustradora, desenvolveu diferentes estilos e a cada trabalho dela, que tenho a oportunidade de conhecer, me surpreendo. Ela se reinventa, cria, fortalece e renova o vínculo com o leitor.. Através dessa entrevista exclusiva, que ela concedeu ao blog, vamos enfatizar a Thaís Linhares ilustradora, porém, mostrar caminhos para quem quiser se aprofundar mais na obra da autora.
Thaís Linhares: “O ilustrador é um autor. Não há hierarquia justa que coloque um ilustrador abaixo de um escritor em uma obra onde ambos participam” – Fotos: Divulgação
Rosa Maria: Você é uma ilustradora com trabalhos circulando em todo o Brasil e, acredito, também no exterior. Gostaria que comentasse sobre quando, onde e como iniciou sua carreira de ilustradora.

Thaís Linhares: É engraçado de falar, mas deve ser mais comum do que se pensa. Comecei criança na escola (informalmente). Vendendo desenhos em diversas ocasiões. E formalmente quando já estava no que hoje chamam ensino médio. Duas experiências foram especiais por serem com editoras: no estúdio do Ziraldo, eu vendia roteiros e na Editora Ao Livro Técnico ilustrei livros didáticos.

RM: E no exterior?

TL:  Não tenho obras no exterior. O que tenho é um projeto vencedor de um edital do Ministério da Cultura da França, específico para autores de outros países. Este eu descobri pesquisando oportunidades nas redes da Internet. Chama-se: Odyssée.
RM: Você se dedica à literatura infantil e juvenil (LIJ) com exclusividade ou tem penetração em outros segmentos literários?
TL: Tenho obras em coletâneas de contos, poesias e histórias em quadrinhos (estes todos para público adulto), roteiros para cine-animação (TV, infantil) e produção de artes para cine-animação (adulto).
Ilustração para Rapunzel, Irmãos Grimm
RM: Conte sobre sua trajetória e trabalhos na LIJ.
TL: Nada usual. Depois dos primeiros trabalhos profissionais, cheguei a parar um tempo e me dediquei ao estudo na área das ciências: astronomia. Retornei às artes incentivada pela Primeira Bienal Internacional de Quadrinhos, que acontecia na minha cidade. Daí foi equilibrar sonhos e boletos até onde estou hoje. A possibilidade de expandir as fronteiras com a internet foi um divisor de águas em minha vida de autora.

RM: Quais cuidados são necessários na ilustração de livros para crianças? O que mais agrada a elas?

TL: Tem o que mais agrada às crianças e tem o que mais agrada aos jurados dos principais concursos na área. Raramente estes gostos se encontram. Eu busco aquele ponto ótimo em que os adultos (os jurados) se surpreendam, mas priorizando o entendimento e apreço das crianças. Afinal, o livro é delas. Há diferentes demandas emocionais e mesmo de percepção (e estou falando aqui de física mesmo, como funciona o equipamento olho-cérebro) para diferentes faixas de idade e mesmo depois de adultos. A ilustração é uma linguagem. Pode-se imaginar uma ilustração como um texto todo em si.
Monstrografia, um álbum de famíllia
Revelascio
RM: Entre tantos livros ilustrados, gostaria de destacar alguns deles? Quais?
TL: Um recente, onde eu assino autoria das imagens e do texto, que acaba de ser lançado é o “Monstrographia” (subtítulo: um álbum de família). Parece uma aventura de mistério, mas é muito mais profundo que isso. Ali tem elementos narrativos que trabalham a partir, e para o entendimento, de medos pessoais e coletivos. De nossa insegurança existencial. Do medo do escuro… E o que este “escuro” está representando.É daqueles ponto ótimos onde eu falo para as crianças e as crianças crescidas que fingem não ter mais medo do apagar das luzes.
RM: Observo que suas ilustrações trazem estilos diferenciados. Pode comentar sobre esses estilos?
TL: A ilustração tem estilos e propósitos, um alfabeto próprio e diferentes códigos – cada história pede o seu contrato de linguagem com seus estilos e códigos próprios. As ilustrações portanto, irão variar tantas vezes quanto tantas forem as diferentes histórias.
RM: Atualmente, qual deles tem prevalecido? Por quê?
TL: Tem dois que eu sempre torço para harmonizarem com a história: um que aprendi com os artistas dos livros medievais e que se desdobra em várias culturas como o cordel no Brasil ou o Tinga-tinga na Tanzânia. E tem o preto e branco hiper detalhista, que já é mais renascentista (lembra Dürer) e que é muito adotado por gerações de artistas dos quadrinhos de autor. Neles me sinto abraçada.

RM: Como é a formação de um ilustrador de literatura? Onde e como buscar essa formação?

TL: Hoje é um pouco mais fácil. Temos livros essenciais como o do Rui de Oliveira* e da Ieda Oliveira**. É importante combinar: literatura (forme-se exatamente como se fosse ser escritor); técnica/tecnologia (pois terá de preparar material a ser reproduzido em suporte físico ou digital) e artes visuais (aqui entra as questões de cor, composição, fisiologia-olho-cérebro). Dentro de cada um destes três eixos, tem a mais detalhes. Deixo para o aprendiz descobrir.
O ilustrador é um autor. Assim como também é autor o compositor, o musicista, o intérprete, o artista de palco… São autores. Não há hierarquia justa que coloque um ilustrador abaixo de um escritor em uma obra onde ambos participam. A questão de qualidade ou mesmo fama do nome, tampouco diz quem é mais autor que o outro. É muito importante ter isso em mente quando lidando com um livro de LIJ em sala de aula, na biblioteca, em um evento, na editora ou na livraria. Para quem não quer enxergar a autoria do ilustrador, e justamente aquele que faz a parte visual da obra, recomendo que passe a só ler e trabalhar com livros de texto puro e se isso for muito trabalho para seus olhos, pegue um áudio-book. Dito isso: recebam a festa da ilustração e dancem com ela.

Tenho um material bem bacana sendo publicado em meu Ateliê online sobre ilustração. Um material bem bacana e variado. E caso se empolgue em colaborar dá uma olhada. O apoio inicial é de 5 reias / mês – e dá acesso a tudo, a pessoa só colabora com valores maiores se quiser muito fazer a alegria da ilustradora. Todo mês subo imagens originais num Google Drive que podem ser usadas pelos apoiadores comercialmente até 100 cópias. Exemplo: pode imprimir e vender 100 camisetas, ou 100 convites, ou 100 postais etc (ou 50 postais e 50 bonés…) Estou já com 11 apoiadores que acompanham as postagens (algumas são exclusivas para eles, como, por exemplo, as dos trabalhos em andamento a ainda não publicados).  Fique à vontade para espiar aqui: apoia.se/thaislinhares

Visite também os links:

patreon.com/ThaisLinhares 

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