“Orbitar”

O livro de estreia de Alexandre Rampazo na Editora Maralto aborda a maternidade e a metáfora do filho que fica numa trajetória externa à mãe
A contracapa do livro “Orbitar”, assinada por Nilma Lacerda, traz duas propostas dessa escritora: ‘Se você, criança, escolher este livro’ e ‘Se você, adulto, escolher este livro para uma criança ou para si próprio’.
Ao abrir o livro em questão, senti exatamente essas duas possibilidades de leitura. Para o primeiro caso, Nilma Lacerda prevê uma criança num canto sem ninguém perturbando e sentindo o que está nas imagens e nas poucas palavras que as acompanham. No caso do adulto, a escritora destaca a importante declaração de amor, na compreensão dos limites humanos e do anúncio de mistérios que envolvem a relação de um corpo dentro ou (em volta) do outro, sejam planetas, pessoas ou livros”.
“Orbitar” é um livro rico de imagens fortes e dominantes, que abrigam um texto curto e sensível. Os dois amarram o leitor no enredo, seja ele criança ou adulto. A cada página folheada o leitor encontra uma reflexão e se motiva para uma descoberta: para onde tudo isso está me levando? Que universo é esse?
“Hoje estou longe de casa.”
“Distante. Vazio. Ausente. Quieto.”
“Assim, olhando de longe, é quando me lembro do quanto sou pequena”.
São dois os astros do livro com um orbitando sobre o outro: embrião e mãe, filho e mãe. Para o leitor- criança vale trazer aqui uma informação divulgada pela Maralto Editora sobre o pensamento da ilustradora do livro, a tcheca Kveta Pacovska, que recebeu a medalha Hans Christian Andersen, em 1992, por sua contribuição duradoura para a literatura infantil. Ela destaca que as imagens de um livro ilustrado são a primeira galeria de arte que uma criança visita. Sendo assim, certamente, as de “Orbitar” têm muito para o pequeno leitor se admirar.
“Neste infinito de impermanências
Tem eu e tem você.”
E eu irei te apontar caminhos.”
A maternidade está culturalmente vinculada a ideias de cuidado e de proteção. Amorosa, a mãe alimenta, aquece, ensina e assiste sua criança mesmo quando ela já não é tão pequena e até dispensa certas atenções. Uma dedicação tão intensa e longeva cria entre mãe e filho laços íntimos, que muitas vezes se confundem com dependência e tutela em detrimento de crescimento e encorajamento para a vida. Nem sempre é fácil entender que viver se aprende, mas não se ensina.
“Mas o mistério…”
“Agora a você pertence.”
É dessa compreensão da vida como exercício de experiência e de aprendizagem que é feito “Orbitar” do premiado designer e escritor Alexandre Rampazo. Desde o primeiro momento, quando a vida é pouco mais que uma ideia amorosa, aqueles que amam e se dispõem a cuidar são iniciados no exercício de entender que os filhos são outras pessoas com sonhos, desejos, medos e caminhos próprios – ainda que parte de uma história, de uma mãe e de um pai. O amor pressupõe cuidados, mas anuncia perigos, pois são neles que estão a descoberta de limites e os convites para alargamento de fronteiras.
“Quando eu acender a luz do universo para você, o que verá?”
“Já não te possuo mais.”
“Você não pertence mais a mim”.
O livro me emocionou em suas últimas páginas transbordantes de beleza, verdades e de amor. Uma interação perfeita entre mãe e filho, no momento de o novo começar a fazer a própria órbita.

Alexandre Rampazo nasceu e vive em São Paulo. Formou-se em design, é autor de livros ilustrados e artista gráfico. Recebeu importantes prêmios literários como o Jabuti, Prêmio Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil; terceiro lugar no Prêmio Biblioteca Nacional, Prêmio Fundación Cuatrogatos, Selo Altamente Recomendável FNLIJ, Troféu Monteiro Lobato, entre outros. Seus livros foram publicados no Brasil, América Latina e Europa.

O livro “Orbitar” tem 44 páginas e custa R$ 49,90.

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