“Origem”

A autora Anna Cunha mostra que esse livro, lançado recentemente pela Maralto Editora, “é um convite às perguntas que nos acompanham desde sempre, e que nunca nos deixarão, sobre quem somos, de onde viemos, o que herdamos, o que construímos…  É uma obra aberta, que pode ser lida por crianças e adultos e entendida de diferentes maneiras.”

Vamos apresentar o livro “Origem” e, em seguida, o leitor vai encontrar uma entrevista com sua autora, Anna Cunha. Ela assina o texto, imagens, capa e o projeto gráfico. Senti poesia por todas as páginas do livro e não somente no texto. Uma linguagem poética para o coração das mães e capaz de alcançar, sim, as crianças, pois elas são seres sensíveis e muito observadoras.

“No princípio era um grande sossego.

Na infância do tempo tudo era apenas

terra e água, sol e lua, luz e escuridão.”

“Tudo era matéria viva. os dias se sucedendo sem memória.

O futuro dormindo repleto num grão, ainda por rebentar.”

“Origem” trata o humano e sua natureza. A interação do humano com a natureza ao seu redor: astros, frutos, árvores e raízes, terra e pedra, pássaros e peixes. Todos esses recursos ajudam o leitor a refletir sobre as famosas incógnitas da existência, ou seja, de onde e como viemos e para onde vamos?

Anna Cunha ainda inclui outro recurso poderoso: o tempo. Esse sempre está a reger tudo e a conduzir o humano, além de outras condições que também têm poder para definirem a origem e destino humano. As imagens despertam a curiosidade por seus significados e podem abrir o diálogo entre pais e filhos ou entre adultos e crianças.

No livro “Origem” não está a criança tábula rasa que nada sabia, do passado, nem os pequenos exaustos da obrigação produtiva de saber, do presente, mas sujeitos que experimentam seus silêncios, celebrando a vida de todos os dias.Anna Cunha nos convida a uma experiência dilatada do tempo, própria da literatura.

 “Adivinhando raízes que
cresciam debaixo do chão.
Lentas e exatas.”
 
“Brincar era nascer
imensamente.
Sem cessar.”
 
Quando tudo parece ter sido dito, estudado, escrito, desenhado, filmado e gravado, deixandonos todos compulsivamente satisfeitos com respostas para perguntas que sequer foram formuladas, um livro que parece ser “para crianças” cria fissuras em certezas prontas e seguras do nosso tempo. Velhos convites se renovam com a beleza sempre inaugural do que é valioso, em um caminho inverso: que perguntas temos para tudo que nos é oferecido como resposta?
 
A autora Anna Cunha nasceu em Belo Horizonte, Minas Gerais, em 1985. É graduada em Artes Plásticas pela Universidade do Estado de Minas Gerais e pósgraduada em Ilustração pela Escola de Disseny i Art, da Universitat Autònoma de Barcelona. Ilustrou dezenas de livros publicados no Brasil e no mundo com títulos selecionados para o Catálogo de Bolonha e premiados pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ). Foi finalista do Prêmio Jabuti, na categoria Ilustração, e recebeu menção honrosa no Prêmio JoãodeBarro, na categoria Livro Ilustrado.

 

Anna Cunha: “A literatura não se presta a ensinar algo, mas simplesmente a provocar em nós a perplexidade. Ela nos fornece material simbólico para elaborar os sentimentos mais intraduzíveis, nos fornece um plano seguro, mediado pela linguagem (e pelas imagens) onde se desenrolam os dramas existenciais de todos nós, adultos e crianças” – Foto: Divulgação

 

Entrevista

Rosa Maria: Na sua opinião, qual seria a melhor forma de falar do mundo atual para as crianças?

Anna Cunha: Não acredito que exista uma forma certa de falar do mundo para as crianças, todas são bem-vindas, do simples diálogo aos livros, das práticas reais aos convites lúdicos, da conversa séria à brincadeira, tudo tem seu lugar, sua importância.

RM: O que elas querem saber sobre o mundo que vivem? E o que precisam saber?

AC: Também não acredito em crianças como um grupo homogêneo, que experimentam o mundo da mesma maneira, que demandam os mesmos saberes.

Como escreveu tão bem a doutora em Ciência da Informação pela UFMG, Fabíola Farias: “Não há infância, mas infâncias. Muitas. Todas elas concretas, desenhadas por suas condições de existência: econômicas, culturais, religiosas, territoriais, políticas.”

RM: Como analisa as crianças do século 21?

AC: São muito distintas. Por exemplo: uma criança numa aldeia indígena, uma criança imigrante, uma criança de classe média urbana, uma criança em condição de rua. Elas habitam mundos distintos, têm conhecimentos distintos, medos e angústias distintas.

RM: O que a literatura deve oferecer ao público infantil?

AC: Acho que a literatura da mesma forma não tem uma tarefa única, um dever inerente, um encargo preciso. A literatura não se presta a ensinar algo, mas simplesmente a provocar em nós a perplexidade. Ela nos fornece material simbólico para elaborar os sentimentos mais intraduzíveis, nos fornece um plano seguro, mediado pela linguagem (e pelas imagens) onde se desenrolam os dramas existenciais de todos nós, adultos e crianças. Ela nos fornece chaves que nós usaremos de forma sempre singular para atribuir sentido à leitura do livro e da vida que nos é apresentada. E esse trabalho nunca termina, do nascimento à morte estaremos sempre ocupados com essa tarefa de inventar sentido para o desmesuradamente inexplicável que é viver.

RM: Comente sobre o seu livro “Origem”. O que mais deseja expressar para as crianças através dele?

AC: Com o livro “Origem” não me proponho a expressar nenhuma mensagem pronta. É um livro aberto, que pode ser lido por crianças e adultos e entendido de diferentes maneiras. O que eu mais desejo é que ele possa justamente ser apropriado de maneiras múltiplas por cada um. É um livro que fala da infância enquanto criação, invenção, liberdade, no sentido também de uma potência permanentemente atual em cada um, independentemente da idade. O livro é um convite às perguntas que nos acompanham desde sempre, e que nunca nos deixarão, sobre quem somos, de onde viemos, o que herdamos, o que construímos com aquilo que nos antecede, com a graça da poesia que é de não oferecer respostas.

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