Renan Valença e o seu Clube dos Sete

O escritor pernambucano Renan Valença lança “O livro de ouro da juventude”, que destaca passado e presente de uma amizade improvável entre sete jovens

 

Um passeio entre passado e presente de sete jovens em uma jornada de autoconhecimento e descobertas. Esse é “O livro de ouro da juventude”, lançamento do escritor pernambucano Renan Valença, ambientado em Recife, com uma jornada de autoconhecimento e descobertas. Os protagonistas reforçam estereótipos como: o maloqueiro, a evangélica, o militante, a esquisita, o esportista, a popular e o esquecido. E o romance percorre o desenvolvimento de João Vítor, Liliana, Tiago, Isabel, Bernardo, Anabel e Danilo em episódios que acontecem no colégio chamado AMAS e na Rua 14, em Recife.

Seja pelos dramas morais e amorosos ou fatos divertidos e misteriosos, a adolescência é uma fase desafiadora, mas também de boas histórias para contar. O subgênero que acompanha o amadurecimento dos personagens do colegial para a fase adulta, o coming-of-age, ganhou sotaque nordestino na trama do escritor. A trama começa em torno de um grande mistério: quem vandalizou o carro do professor Carlos? Todas as suspeitas caem sobre o rebelde João Vítor que nega o envolvimento. Para protegê-lo, os amigos de infância e colegas de turma unem-se em torno de um arriscado plano.

“A suspeita que pairava com intensidade sobre toda a comunidade do AMAS era por João Vítor. Alguns iam além e já davam a autoria como certa. Aquele nível de vandalismo era característico dele, diziam.” (Pág. 17)

Porém todos são autênticos e com o lado moral e imoral revelado, por vezes conflitantes, mas que convivem em harmonia. As nuances dessas amizades improváveis e como o autor se espelhou em histórias do cinema e da televisão para escrever você confere na entrevista logo abaixo.

Renan Valença é escritor e morador de Recife (PE), desde os 12 anos de idade, quando saiu do Cabo de Santo Agostinho para estudar no Colégio de Aplicação da UFPE em 2003, a versão real e mais amigável do AMAS. Com o isolamento social a história por trás do “O livro de ouro da juventude” foi tirada do papel e se tornou uma forma do autor se conectar com suas origens.

O livro tem 454 páginas, custa R$ 65 (físico) e R$ 15 (digital). Compras aqui: https://bit.ly/livroourojuventude

O romance do escritor pernambucano, Renan Valença, é uma homenagem à cidade de Recife, onde foi criado – Foto: Divulgação

 

A entrevista
 

Por que você decidiu entre tantos escrever o subgênero ‘Coming-of-age’?Renan Valença: A realidade é que não houve uma decisão, um plano, uma escolha. A concepção da história contida em “O livro de ouro da juventude” foi completamente espontânea, aquele universo brotou na mente de um jovem de 19 anos provavelmente numa tentativa de registrar sentimentos e emoções atinentes ao momento em palavras, em literatura. Ora, aquele jovem sequer sabia da existência do danado “coming-of-age”, isso caiu na conta do jovem adulto de 25 anos ao ouvir o termo e seu conceito e se pegou pensando consigo “humm, essa fórmula me parece familiar” e, no final das contas, era uma forma pedagógica de apresentar ao mundo a história que por tantos anos habitou em mim.

É um estilo literário pouco comum no Brasil e muito apreciado no cinema americano. Você se inspirou em quais filmes e séries? 

RV: Digo sem nenhum melindre que O Clube dos Cinco consta como um dos pilares de concepção de “O livro de ouro da juventude”, digo que foi o marco zero da obra, a primeira imaginação, ao instar em minha mente a hipótese: e se houvesse um Clube dos Cinco recifense? Aliás, o coming-of-age tem forte presença na produção artística nacional, o maior exemplo é Malhação, apesar do baixo grau de verossimilhança. O filme Cidade de Deus, por exemplo, apesar de toda denúncia e crítica social colaterais, tem o enredo centralizado no amadurecimento de Buscapé e Zé Pequeno, exploramos as inseguranças e descobertas dos personagens em primeiro plano. A série Confissões de Adolescente é outro clássico do coming-of-age brasileiro, tem até um filme de 2013 inspirado na série.

Alguma das histórias relatadas na obra são inspiradas na sua adolescência ou de amigos próximos?

RV: Sim, certamente! Acredito que todo artista use do seu arsenal de vivência para dar forma à sua obra e comigo não foi diferente. Apesar da ideia de “O livro de ouro da juventude” ter nascido de uma mente de 19 anos, sua realização só foi possível graças aos mais de dez anos que separa o idealizador do realizador, agora, aos 30.

Quais são as particularidades de Recife que você cita na obra e porque ambientou o livro na capital de Pernambuco?

RV: Ambientar a obra em Recife era uma das primeiras premissas, aquela questão: e se tivesse um Clube dos Cinco recifense?” Não tinha forma diferente de realizá-la. Como pernambucano criado em Recife, tenho profunda intimidade com nossa gente naquilo que compartilhamos, nas referências, na fala, nos gestos. Imprimir essas características, que tanto domino em personagens, eu acredito ter dado o tom realista que tanto almejei a eles. Recife se torna uma cidade integrada no desenvolver do romance.

Você fez alguma pesquisa para escrever o livro? Qual? Quanto tempo levou para escrevê-lo?

RV: Fiz bastante pesquisa e, especificamente, Liliana foi uma personagem que me deu bastante trabalho. Uma moça evangélica é diferente de tudo que eu conheço, daí, pesquisei, entrevistei outras meninas de igreja, li a Bíblia, tive muito cuidado em não criar uma caricatura de mau gosto. Até mesmo para criar o Fernando, um guru good vibes do YouTube, precisei consumir esse tipo de conteúdo que tinha pouca familiaridade. Sobre o tempo que o livro me tomou, a escrita dele, da primeira palavra que pus no papel até a última correção que fiz no arquivo de impressão, durou em torno de um ano e três meses. Mas vamos recordar que essa história nasceu em mim lá em 2009 e, entre um ensaio e outro de escrita, levou esse tempo todo para maturar.

Você escreveu essa obra pensando em qual público-leitor?

RV: Eis uma pergunta complicada. Acho que ainda estou em busca do danado do público-alvo e pense numa busca difícil, viu? Novamente, “O livro de ouro da juventude” foi uma produção muito espontânea, não houve uma visão de mercado ou publicitária. É a concretização de um anseio artístico. Digo que para aproveitá-lo bem precisa de certa maturidade e tolerância com temas perturbadores e a ciência do enorme potencial ofensivo e crítico da obra. O livro é para quem quiser se chocar, rir, passar raiva, chorar e se apaixonar pelos personagens e suas relações.

 

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