“Contos da selva”

A Editora FTD Educação lança versão de um clássico da literatura infantojuvenil sul-americana publicado pela primeira vez na Argentina no ano de 1918. O livro é uma demonstração de amor e comprometimento do escritor uruguaio Horacio Quiroga à natureza que, através de oito contos, defende a floresta, rios, bichos diversos e espécies de vegetais
A moderna relação das pessoas com os animais domésticos nos permite presenciar um novo jeito de tratar gatos, cães, coelhos, ratos hamster, pássaros etc ao revelar entre eles trocas afetivas, conversas, passeios, além de uma declarada incapacidade de viverem separados um do outro. Atualmente, os novos integrantes das famílias têm até uma vida compatível com os hábitos dos humanos.
Esse modelo atual de convivência com tamanha proximidade e entendimento é realidade e não está distante da ficção fantástica dos oito contos escritos por Horacio Quiroga, que mistura seres humanos em experiências diversas com fauna e flora. Conversar com as plantas e flores para que cresçam belas, adotá-las para presentear e sensibilizar aqueles que as apreciam é um costume antigo de outro modelo de interação com a natureza. São os “Contos da selva”.
Ilustração do conto O louro depenado
O livro é um clássico da literatura infantojuvenil sul-americana. Publicado pela primeira vez na Argentina em 1918, cada texto narra a história empolgante de um animal, ou grupo de animais, e suas aventuras nas matas da província argentina de Misiones. A nova edição da obra no Brasil, lançada pela FTD Educação, destaca a beleza e os mistérios da mata sul-americana nas ilustrações criativas e impactantes de Anabella López, artista argentina radicada no Brasil. O texto também recebeu nova tradução, pelas mãos do também argentino Sérgio Molina, que vive no Brasil desde os 10 anos e é especialista no trabalho com clássicos da Língua Espanhola. Sua tradução de Dom Quixote, de Miguel de Cervantes, foi reconhecida com o prêmio Jabuti em 2004.
O escritor e doutor em Letras, Gustavo Melo Czekster, assina o último capítulo, Um livro feito de selva, e explica: “Quem nunca imaginou o que os animais falam? Quando assistimos a filmes que se passam na selva ou vemos documentários sobre a vida selvagem, é irresistível o apelo da imaginação: como os animais vivem? Quais são seus dramas, problemas e alegrias? Eles também se organizam em famílias e vivem em sociedade, como os seres humanos? Foi para tentar responder a essas perguntas que Horacio Quiroga escreveu “Contos da selva”, um livro especialmente dedicado aos jovens”, conclui o escritor.
Horacio Quiroga foi um defensor da natureza. Abandonou a cidade e foi morar com sua família numa selva, onde escreveu o livro – Foto: Divulgação
Os contos são: A jabuti gigante, As meias dos flamingos, O louro depenado, A guerra dos jacarés, A corça cega, História de dois filhotes de quati e de dois filhotes de gente, O passo do Yabebirí, A abelha folgada e Um livro feito de selva.
O gênero narrativo de composições curtas, em prosa ou versos, em que os personagens são animais e apresentam características humanas é conhecido como fábula. Essa tem caráter educativo e ao final traz um ensinamento chamado moral da história. A fábula é um gênero literário marcante e um dos preferidos dos leitores principalmente crianças e jovens.
Horacio Quiroga, entretanto, não escreveu simplesmente fábulas e sim “Contos da selva”, um livro que, certamente, as crianças alfabetizadas vão adorar. Mas é também um livro muito interessante para os adultos irem além da leitura e refletirem sobre a astúcia do autor nas interações por ele criadas entre os seres. Sempre que se estabelece uma convivência entre homens e animais surge um grande aprendizado, que é o prêmio final das fábulas, nesse caso, dos contos.
Para escrevê-los, Horacio Quiroga foi morar com a família numa floresta e adotou um modelo bárbaro de vida. Seus contos são o resultado de suas observações criativas desse lugar onde viveu e de seus habitantes. Quem sabe, uma forma dele defender o meio ambiente, a natureza, mostrando que os seres de lá merecem sobreviver da mesma forma que os humanos das cidades. Os instintos das espécies, às vezes, bons e de proteção; noutras de conflito e luta pela vida. Até onde vai a superioridade do ser humano sobre a natureza? Quem disse que pequenas espécies, aparentemente frágeis, não possuem poder de aniquilar o outro dito superior? O autor amava a natureza e seu sentimento está impregnado em cada um dos textos de “Contos da selva”.
Ilustração do conto A jabuti gigante
“Quando o caçador ficou sabendo como o jabuti o salvara, como havia viajado trezentas léguas para que ele pudesse tomar seus remédios, nunca mais quis separar dela. Mas como ele não podia tê-la em sua casa, que era muito pequena, o diretor do Zoológico se comprometeu a tê-la no jardim e a cuidar dela como se fosse sua própria filha.” (Trecho do conto A jabuti gigante)
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“Até que certa vez, uma tarde, uma raposa chegou correndo à beira do Yabebirí e mergulhou os pés na água, gritando:
_ Ei, arraias! Rápido! Vem chegando o amigo de vocês, ele está ferido!
As arraias, ao escutá-la, correram ansiosas até a margem. E perguntaram à raposa:
_ O que houve? Cadê o homem?
_ Ele já vem chegando! _ tornou a gritar a raposa.
_ Acabou de lutar com uma onça, que agora está no seu encalço! Ele decerto vai querer atravessar para a ilha! Vocês tratem de lhe dar passagem, por que é um homem bom!
_ Pode deixar! Vamos lhe dar passagem! _ responderam as arraias. _ Quanto à onça, essa não vai passar mesmo!
_ Cuidado com ela! _ gritou ainda a raposa. _ Não se esqueçam de que é a onça!” (Trecho do conto O passo do Yabebirí)
A ilustradora argentina Anabella López mora em Porto de Galinhas (PE), onde se inspirou para as ilustrações de “Contos da selva” – Foto: Divulgação
O escritor Horacio Silvestre Quiroga Forteza nasceu na cidade de Salto, no Uruguai, em 1878, porém passou a maior parte de sua vida na região de Misiones, na Argentina. É lá, próximo à fronteira com o Paraguai, que se passam os “Contos da selva”. Quiroga teve uma vida atribulada e sofrida: seu pai, sua esposa e um grande amigo morreram de maneira trágica. Os contos que escreveu para adultos geralmente exploram acontecimentos fantásticos e macabros, com inspiração em Edgar Allan Poe e Guy de Maupassant. Ele publicou 15 livros, sobretudo, coletâneas de contos. Sua obra mais famosa é Contos de amor, de loucura e de morte (1917), que contém o aclamado conto “A galinha degolada”. Quiroga morreu em 1937, na Argentina.
O tradutor do livro Sérgio Molina nasceu em Buenos Aires, na Argentina, em 1964, e vive no Brasil desde os 10 anos. Estudou Ciências Sociais, Letras, Editoração e Jornalismo, mas se formou mesmo em tradução, com a prática. Iniciou sua carreira de tradutor literário em 1986, especializando-se em narrativas espanhola e hispano-americana. Desde então, traduziu cerca de 100 livros, de autores como Roberto Arlt, Adolfo Bioy Casares, Jorge Luis Borges, Alejo Carpentier, Ricardo Piglia, Ernesto Sabato, Mario Vargas Llosa, Juan Pablo Villalobos e Rodolfo Walsh.
Anabella López, ilustradora do livro, nasceu em Buenos Aires, na Argentina, em 1984, e mora no Recife, onde coordena a escola de ilustração Usina de Imagens. Recebeu diversos prêmios, entre os quais se destacam o Jabuti, em 2015, por seu livro A força da palmeira, na categoria de Ilustração de Livro Infantil ou Juvenil, e o prêmio Cátedra 10, selo Distinção, outorgado em 2017 pela Cátedra Unesco de Leitura PUC-Rio, por sua obra Barbazul — que também recebeu o prêmio Image of the Book, em 2019, na Rússia. No mesmo ano, seu trabalho ganhou o importante selo White Ravens, concedido pela Biblioteca Internacional da Juventude, em Munique, na Alemanha.
Anabella há dez anos vive em Porto de Galinhas (Pernambuco), perto do mar, e explica a criatividade de suas ilustrações: “Tentei através das cores e formas — sejam elas geométricas, sejam elas gestuais ou orgânicas — renovar o sentido e a interpretação que damos para cada um desses animais. Quem vê a ilustração do animal vai reconhecê-lo, mas de uma forma nova, diferente, sem cair em estereótipos e clichês e sem humanizá-lo. Moro em um lugar, felizmente, cheio de natureza. Muitos dos animais que aparecem no livro estão no meu cotidiano.”
O livro “Contos da selva” tem 128 páginas, é recomendado pela editora para estudantes a partir do 7º ano e custa R$ 52,00.
Leia também no blog a entrevista com Anabella López, a ilustradora de “Contos da selva” nesse link https://contaumahistoria.com.br/2022/02/anabella-lopez-a-ilustradora-de-contos-da-selva/

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